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FAKE NEWS NO COTIDIANO DO FARMACÊUTICO

FAKE NEWS NO COTIDIANO DO FARMACÊUTICO

“Nossa! Que incrível essa notícia que colocaram no grupo! Eu não sabia disso! Muito legal! Acho que meu amigo também vai adorar! Vou mandar para ele”.

Se você se identificou com essas ideias, saiba que o perigo chegou até você e irá se disseminar por muitos de seus amigos e pelos amigos dos seus amigos...independentemente de o conteúdo compartilhado ser verdadeiro ou não! E você, que participou dessa corrente, infelizmente é mais do que responsável pela fake news (notícia falsa, em inglês). Se não checou a informação, você é cúmplice desse erro!

Gostaria de pedir licença ao leitor e dar um depoimento pessoal. Faço parte da equipe de jornalismo do ICTQ – Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado farmacêutico há quase seis anos. No entanto, antes disso já era jornalista especializada no segmento farmacêutico. Venho deparando as mais diversas informações falsas que, acreditem ou não, são criadas com interesses distintos, sejam eles econômicos ou políticos.

Quer um exemplo? Ao contrário do que muita gente imagina, a OMS (Organização Mundial de Saúde) nunca recomendou uma quantidade de farmácias para um número específico de cidadãos. Importantes entidades da classe, como o Conselho Federal de Farmácia (CFF), publicam em seus veículos impressos e digitais a falsa recomendação da OMS que estabelece uma farmácia para cada 8 mil habitantes. Essa informação já foi desmentida pelo responsável de imprensa da OMS, Luis Sardenbergue.

A fake News já foi tão reproduzida, que chegou a ser publicada no livro A prática farmacêutica na Farmácia Comunitária dos autores Cassyano J. Correr, Roberto Pontarolo e Alyne Simon (Cap. 1 pág. 5 e 6).

Ao pesquisar essa fake news no mecanismo de busca do Google, percebe-se que muitos profissionais e veículos de imprensa divulgam o dado como verdadeiro.

Para separar o joio do trigo, eu, Egle Leonardi, enquanto jornalista, checo todas as informações logo na base. Esse é o fundamento de minha profissão. Eu não deixaria passar para o leitor um dado incorreto ou inverídico, porque sei que isso, além de denegrir minha imagem e credibilidade, poderia interferir seriamente na vida de outras pessoas. Essa é minha responsabilidade...mas deve ser a sua também!

A repórter especializada em saúde, Claudia Colucci, assina uma respeitada coluna no jornal Folha de S.Paulo. Ela diz que a responsabilidade de um jornalista especializado na área de saúde é muito grande, ou deveria ser. “Avalio que atualmente temos muitas reportagens irresponsáveis, que vendem para o leitor uma falsa realidade. Por exemplo, quando tratam de resultados de pesquisas experimentais, feitas com camundongos, como se fossem aplicáveis aos humanos”, critica a jornalista.

Ela diz que 99% desses estudos não vão dar em nada. Do ponto de vista da ciência básica eles são muito importantes, mas, para a vida real, há um longo caminho, ou às vezes, nem caminho haverá, porque o estudo se encerrará na bancada do laboratório: “Muitas matérias também supervalorizam os benefícios e escondem os eventuais riscos de um novo tratamento. Por isso, é preciso atenção para os conflitos de interesse envolvidos na divulgação de determinada reportagem, além de ouvir fontes isentas”.

E você? Como lida com a notícia falsa?

O farmacêutico, mestre em Farmácia, consultor e professor universitário, Cristiano Ricardo, destaca que a divulgação de informações corretas precisa estar sempre presente no código de ética profissional, independentemente da área de atuação.

“Quando nos identificamos como farmacêuticos, somos vistos como agentes de educação em saúde, então, temos obrigação de contribuir e compartilhar informações corretas e apontar dados discrepantes ou questionáveis, especialmente quando identificamos as fake news”, comenta ele.

Uma notícia falsa, normalmente, segue um mesmo padrão. Para Ricardo, na maioria dos casos, é fácil desconfiar quando os títulos das mensagens são muito chamativos ou catastróficos, quando há algumas exclamações no texto ou no áudio, quando o material diz que há um segredo que ninguém contou até agora e que precisa ser compartilhado. “Isso já me obriga a tratar a mensagem como fake. Conforme o tempo disponível, eu investigo ou apenas respondo ao autor - ou a quem compartilhou - que se trata de uma nota inconsistente”, alerta o farmacêutico.

No caso da jornalista, ela defende que fake news não sobrevivem a uma boa checagem da fonte primária: “Com a experiência de mais de 15 anos no jornalismo de saúde, e conhecendo a fundo a área, é muito fácil distinguir o falso ou mesmo o marketing atrás do que vende como notícia”.

Basta uma rápida pesquisa. Em saúde, notícias falsas são ainda mais temerosas. Podem fazer com que aumente o número de pessoas doentes por falta de vacinação ou pelo uso inadequado de medicamentos ou outras substâncias e, infelizmente, até mesmo levar a óbitos.

Ela exemplifica, dizendo que uma simples busca com o termo ‘tratamento de câncer’ no Google, por exemplo, resulta em mais de quatro milhões de páginas de artigos e sites sobre o assunto. No YouTube, há uma infinidade de vídeos sobre a origem e a cura de inúmeras doenças – todos sem comprovação.

Não era só uma brincadeira

Há os que digam: “eu compartilhei...era somente uma brincadeira...ninguém vai acreditar nisso”. Vai sim! As pessoas acreditam no que foi compartilhado e dissipado por meio das redes sociais e aplicativos de mensagem, e acabam assumindo uma mentira como verdade.

“Notícias falsas sobre saúde contribuem para que os pacientes deixem de ter credibilidade nas classes médicas e científicas. As pessoas tendem a não procurar informações em fontes confiáveis, como sites de instituições governamentais e de saúde. E, mesmo quando procuram, podem acabar acreditando que as vias alternativas e falsas são as ideais. E não são”, dispara Claudia.

O tema é tão sério que uma das maiores organizações de comunicação nacional lançou um programa intitulado Fato ou Fake. O intuito é alertar os brasileiros sobre conteúdos duvidosos compartilhados pela internet ou por aplicativos de mensagem no celular, esclarecendo o que é notícia (fato) e o que é falso (fake).

Dessa forma, os profissionais farão a checagem constante para identificar informações suspeitas. Participam da apuração as equipes de jornalismo dos veículos G1, O Globo, Extra, Época, Valor, CBN, GloboNews e TV Globo. A ideia é juntar forças entre as diversas redações para verificar mais rápida e facilmente o teor de cada informação.

Para aumentar a amplitude do programa, também está sendo disponibilizado um ‘robô’ no Facebook e no Twitter que responderá o que é falso ou verdadeiro, caso o assunto já tenha sido verificado pelos jornalistas daquela empresa.

Combate à desinformação

O Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) lançou, no final de agosto, o guia Internet, Democracia e Eleições, com o objetivo de incentivar o combate à desinformação, servindo como referência a gestores públicos, empresas e cidadãos. Serve em época de eleição, mas é uma iniciativa que deve ser considerada em diversos temas que impactem a vida do cidadão.

“As pessoas precisam desconfiar do que é espetacular, mesmo que corrobore sua visão de mundo”, afirma o conselheiro do CGI.br e coordenador do Grupo de Trabalho Internet e Eleições, Sergio Amadeu. Ele destaca que é fundamental distinguir a diferença entre a opinião sobre algo e o fato em si: “Não use a mentira para reforçar sua opinião”.

A CGI.br tem a atribuição de estabelecer diretrizes estratégicas relacionadas ao uso e desenvolvimento da internet no Brasil. Também promove estudos e recomenda procedimentos para a segurança, e propõe programas de pesquisa e desenvolvimento que permitam a manutenção do nível de qualidade técnica e inovação no uso da rede.

O Ministério da Saúde (MS) também entrou na briga. Para combater as fake news sobre saúde, o órgão está disponibilizando um número de whatsapp para envio de mensagens da população, criado exclusivamente para receber informações virais, que serão apuradas pelas áreas técnicas e respondidas oficialmente se são verdade ou mentira.

Qualquer cidadão poderá enviar gratuitamente mensagens com imagens ou textos que tenha recebido nas redes sociais para confirmar se a informação procede, antes de continuar compartilhando. O número do whatsapp do MS é (61) 99289-4640.

Desconfie de tudo

Alguns assuntos até podem ser motivo de chacota para os profissionais de saúde, mas a população leiga nem sempre tem a informação e o discernimento para separar o que procede e o que deve ser combatido como fake news.

As primeiras respostas já podem ser checadas na página do MS, pelo link http://portalms.saude.gov.br/fakenews. Lá já foram desmascaradas diversas notícias que circularam nas redes sociais sobre a área de saúde.

De qualquer forma, é responsabilidade de cada um rebater e desmentir as informações suspeitas. Veja alguns exemplos de fake news que circularam nas redes sociais e mensagens. Todos já foram desmentidos:

  • Coletes de agentes endêmicos de controle da dengue teriam sido roubados e estariam sendo usados para furtos;
  • Vacina anticâncer teria sido lançada;
  • Bananas conteriam vírus HIV;
  • Glândula da próstata traria efeitos positivos na saúde dos homens;
  • Teriam sido encontradas superbactérias nos feijões;
  • Nova dipirona importada da Venezuela conteria vírus marbug,
  • Vacina MMR, que protege contra sarampo, rubéola e caxumba, causaria autismo;
  • Paracetamol estaria infectado com o vírus machupo;
  • Em Moçambique: paracetamol estaria infectado com o vírus ebola;
  • Receita caseira (com hortaliças e frutas) seria capaz de proporcionar imunização contra a febre amarela e, por isso, ninguém deveria tomar a vacina;
  • Vacina contra gripe H1N1 conteria altas doses de mercúrio;
  • Vacina contra HPV teria sido proibida no Japão pelos sérios efeitos colaterais.

“Precisamos nos unir contra a fake news. Acredito que uma notícia falsa na área da saúde precise ser tipificada como crime contra a saúde coletiva. O serviço de segurança pública e a ABIN precisam estabelecer métodos para localizar, identificar e punir essas pessoas”, defende o farmacêutico Ricardo.

Os farmacêuticos, como linha de frente no contato com as pessoas, precisam estar preparados para tirar dúvidas, identificar fakes news e emitir sua opinião. “Essa é uma função que não apenas os farmacêuticos devem assumir, mas a totalidade das profissões em saúde”, conclui ele.

Dicas para identificar notícias falsas

  1. Seja cético com as manchetes. Notícias falsas frequentemente trazem manchetes apelativas em letras maiúsculas e com pontos de exclamação. Se alegações chocantes na manchete parecerem inacreditáveis, desconfie.
  2. Olhe atentamente para a URL. Uma URL semelhante à de outro site pode ser um sinal de alerta para notícias falsas. Muitos sites de notícias falsas imitam veículos de imprensa autênticos fazendo pequenas mudanças na URL. Você pode ir até o site para verificar e comparar a URL de veículos de imprensa estabelecidos.
  3. Investigue a fonte. Certifique-se de que a reportagem tenha sido escrita por uma fonte confiável e de boa reputação. Se a história for contada por uma organização não conhecida, verifique a seção "Sobre" do site para saber mais sobre ela.
  4. 4. Fique atento a formatações incomuns. Muitos sites de notícias falsas contêm erros ortográficos ou apresentam layouts estranhos. Redobre a atenção na leitura se perceber esses sinais.
  5. Considere as fotos. Notícias falsas frequentemente contêm imagens ou vídeos manipulados. Algumas vezes, a foto pode ser autêntica, mas ter sido retirada do contexto. Você pode procurar a foto ou imagem para verificar de onde ela veio.
  6. Confira as datas. Notícias falsas podem conter datas que não fazem sentido ou até mesmo datas que tenham sido alteradas.
  7. Verifique as evidências. Verifique as fontes do autor da reportagem para confirmar que são confiáveis. Falta de evidências sobre os fatos ou menção a especialistas desconhecidos pode ser uma indicação de notícias falsas.
  8. Busque outras reportagens. Se nenhum outro veículo na imprensa tiver publicado uma reportagem sobre o mesmo assunto, isso pode ser um indicativo de que a história é falsa. Se a história for publicada por vários veículos confiáveis na imprensa, é mais provável que seja verdadeira.
  9. A história é uma farsa ou uma brincadeira? Algumas vezes, as notícias falsas podem ser difíceis de distinguir de um conteúdo de humor ou sátira. Verifique se a fonte é conhecida por paródias e se os detalhes da história e o tom sugerem que pode ser apenas uma brincadeira.
  10. Algumas histórias são intencionalmente falsas. Pense de forma crítica sobre as histórias lidas e compartilhe apenas as notícias que você sabe que são verossímeis.

Fonte: Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI)

Matéria publicada no portal do ICTQ

NOS EMIRADOS ÁRABES UNIDOS OS FARMACÊUTICOS PODEM PRESCREVER ATÉ ANTIBIÓTICOS

NOS EMIRADOS ÁRABES UNIDOS OS FARMACÊUTICOS PODEM PRESCREVER ATÉ ANTIBIÓTICOS

Apenas a título de curiosidade, vale citar que os Emirados Árabes Unidos (EAU) são formados por uma confederação de monarquias árabes, equivalentes a principados. Os sete emirados são Abu Dhabi, Dubai, Sharjah, Ajman, Umm al-Quwain, Ras al-Khaimah e Fujairah. A capital é a segunda maior cidade dos EAU - Abu Dhabi. O islamismo é a religião oficial e o idioma é o árabe.

Os Emirados possuem um clima desértico e têm uma das mais desenvolvidas economias do Oriente Médio. Têm o 14º maior PIB per capita do mundo e o terceiro maior do Oriente Médio. Sua moeda é o Dirham dos Emirados (AED). O mercado farmacêutico da região espelha seu desenvolvimento econômico, proporcionando ao profissional da farmácia um salário de alto nível, relativo a R$ 18 mil.

Para fornecer informações para a construção desta matéria, foram consultados três farmacêuticos dos Emirados Árabes: Mustafa Rashed Abouleinim, Manar Said e Aboud Forsa. Eles atuam em farmácias de Abu Dhabi como farmacêuticos clínicos. O contato com os profissionais foi facilitado pelo professor do ICTQ, o farmacêutico André Schmidt Suaiden, que detém conhecimento da língua do país. Confira a seguir 4 aspectos da vida farmacêutica no Emirados Árabes!

1. Regulamentação do comércio farmacêutico         

Três órgãos trabalham em conjunto para a regulação do mercado farmacêutico nos Emirados Árabes Unidos: Autoridade Sanitária - Abu Dhabi (HAAD), Autoridade de Saúde – Dubai (DHA) e o Ministério da Saúde e Prevenção.

Todos os países árabes mantêm farmácias como estabelecimentos de saúde. Não há a venda de produtos alheios à saúde, como sorvetes e chocolates. As gôndolas são abastecidas apenas com produtos de higiene pessoal e cosméticos, além de itens médico-hospitalares. Não há medicamentos ao alcance e nem à vista do consumidor.

E mais... Nos Emirados Árabes há legislação que estabelece uma distância de, no mínimo, 500 metros entre as farmácias.

2. Prescrição farmacêutica

Todos os procedimentos de menor complexidade são realizados nas farmácias inicialmente, inclusive a prescrição de antibióticos pelo farmacêutico. O acompanhamento também é bastante eficaz. Assim, somente em casos em que não há melhora do paciente é que é feito o seu encaminhamento aos serviços médicos.

Outro fato que difere do padrão brasileiro é a dispensa de receita médica para os antibióticos, já que os farmacêuticos mesmos podem fazer a prescrição. Aliás, há poucos profissionais trabalhando em cada estabelecimento, ou seja, de dois a três farmacêuticos e mais dois assistentes numa farmácia de grande porte. Não há balconistas, como no Brasil.

3. Propriedade da farmácia

As farmácias, nos EAU, são obrigatoriamente de propriedade de farmacêuticos. Existem, na mesma farmácia, bancadas para instrumentos de laboratório, que podem ser utilizados para realizar alguns exames e também para o fracionamento de medicamentos, o que facilita o acesso da população a medicamentos na dose precisa e, com isso, o tratamento acaba sendo mais barato.

A exigência da presença do farmacêutico em período integral é lei no país, e é cumprida à risca por todos os estabelecimentos.

Em todos os países árabes, os medicamentos ficam em armários dentro da loja. Não há balcões de atendimento, como se encontram no Brasil. Nas farmácias dos EAU há apenas mesas para o paciente se sentar e conversar com os farmacêuticos. Não é raro encontrar a oferta de café e frutas para o consumo do paciente durante seu atendimento.

4. Remuneração do farmacêutico

Os salários nos Emirados Árabes Unidos são diferentes para o nível de experiência de cada farmacêutico. De modo geral, os profissionais recém-formados recebem salário mensal em torno de R$ 4 mil (3500 AED).   Os farmacêuticos experientes ganham algo em torno de R$ 12 mil (10000 AED) e o farmacêutico responsável pela farmácia tem rendimento de R$ 18 mil (16000 AED).

CONFIRA: A FARMÁCIA CLÍNICA EM DIABETES

CONFIRA: A FARMÁCIA CLÍNICA EM DIABETES

A frequência com que o paciente diabético vai até a farmácia e a facilidade em ser atendido por um profissional colocam todos os farmacêuticos clínicos na linha de frente e com um papel fundamental no tratamento do diabetes.

O acompanhamento do farmacêutico permite uma tomada de decisão, muitas vezes, antes da próxima consulta médica, minimizando ou retardando o surgimento de complicações. Além disso, ele é fundamental na adesão ao tratamento farmacológico e não farmacológico.

“O diabetes é um sério problema de saúde pública em todo o planeta e mesmo com o surgimento de novas tecnologias - como o pâncreas artificial; medidores de glicose que não precisam de picadas; insulina inalada, que dispensa o uso de agulha - o tratamento fica comprometido, podendo levar ao surgimento das comorbidades inerentes ao descontrole glicêmico, como a retinopatia, neuropatia, nefropatia, doenças cardiovasculares, amputação e disfunção erétil”, afirma a farmacêutica clínica e professora especializada em diabetes, Monica Lenzi.

Ela afirma que o paciente diabético, ou seu cuidador, frequenta a farmácia no mínimo uma vez ao mês em busca de seus medicamentos de uso contínuo e insumos para controle da doença. Isso significa que o diabético tem mais contato com o farmacêutico do que com o médico, que ele vê com menos frequência (em média, duas vezes ao ano).

Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam que 16 milhões de brasileiros sofrem de diabetes. A taxa de incidência da doença cresceu 61,8% entre 2008 e 2018. O Rio de Janeiro aparece como a capital brasileira com maior prevalência de diagnóstico médico da doença, com 10,4 casos a cada 100 mil habitantes.

O diabetes é uma epidemia global, e o Brasil ocupa o 4º lugar no ranking dos países com o maior número de casos, atrás de China, Índia e Estados Unidos. Vários fatores desempenham papel importante para esse crescimento em países em desenvolvimento: obesidade, sedentarismo e alimentação inadequada. Além disso, as complicações (retinopatia, doença renal do diabetes, amputações, infartos e derrames) ainda são frequentes embora dados de mortalidade tenham apresentado discreta queda.

Para o presidente da Associação Nacional de Atenção ao Diabético (ANAD), Fadlo Fraige Filho, com qualquer tipo de diabetes o acompanhamento é importante para planejar a dieta, determinar mudanças nas doses de insulina ou drogas, e monitorar os níveis de açúcar no sangue, o que pode retardar ou prevenir muitas complicações da doença.

Ele alerta ainda que não é possível tratar o diabetes sem o uso de medidores de glicemia. “A automonitorização é uma maneira de iluminar o caminho. A primeira coisa a fazer quando começa o dia é medir o nível para evitar complicações. A variação da quantidade de insulina, a alimentação e os exercícios físicos têm de ser sempre de acordo com o resultado da glicemia. O paciente que se automonitoriza passa a lutar contra a descompensação”, diz ele.

Acompanhamento farmacoterapêutico

Acompanhe, a seguir, as orientações de Monica Lenzi para o acompanhamento farmacoterapêutico do diabetes em consulta na farmácia:

1 – Verifique se o paciente já possui ou não o diagnóstico de diabetes e, se necessário, faça um rastreamento para aqueles que ainda não têm diagnóstico, por meio do teste de glicemia capilar.

2 – Avalie os fatores de risco:

  • Idade;
  • Peso;
  • Histórico familiar;
  • Avaliação da pressão arterial; e
  • Sedentarismo.

3 – Execute, no primeiro momento, o levantamento dos fatores de risco e o teste de glicemia capilar para pacientes já diagnosticados e em tratamento.

4 – Avalie como anda o controle glicêmico.

5 – Averigue a existência de comorbidades inerentes ao descontrole glicêmico.

6 – Levante os fatores de risco cardiovasculares. Não se pode esquecer que a maioria dos diabéticos apresenta hipertensão e dislipidemia.

7 – Identifique quais são os hábitos de vida do paciente.

8 –Verifique como o paciente aderiu ao tratamento farmacológico e não farmacológico.

9 – Passe à orientação sobre medicamentos. Divida os pacientes em dois grupos: a) os insulinizados e em uso de medicações injetáveis para controle dos níveis de glicose (Victoza, Lyxumia e Trulicity), b) os não insulinizados.

10 – Oriente os pacientes que fazem uso de insulina e medicações injetáveis para controle dos níveis de glicose nas melhores práticas, tais como:

  • Fazer o rodízio do local de aplicação;
  • Escolher o tamanho da agulha;
  • Definir o melhor dispositivo para aplicação (seringa ou caneta);
  • Adequar as melhores práticas para armazenamento e transporte, já que insulinas e medicamentos injetáveis são susceptíveis às variações de temperatura;
  • Orientar sobre a não reutilização de material descartável; e
  • Explicar como descartar adequadamente o material perfuro-cortante.

11 – Preste atenção ao uso de medicação oral e à interação medicamentosa, pois os pacientes diabéticos são polimedicados. Com o passar do tempo de diagnóstico, esses pacientes fazem uso de medicações para controle de outras doenças que fazem parte das complicações, como neuropatia, nefropatia, retinopatia e doenças cardiovasculares.

12 – Instrua os pacientes em uso de medicações hipoglicemiantes (insulinas, glibenclamida, glicazida) sobre o risco de crises de hipoglicemia, que podem ocorrer devido à alimentação insuficiente.

13 – Estimule a mudança de hábitos alimentares, tão necessária para um melhor controle glicêmico. Uma dieta equilibrada deve ser adotada. Os farmacêuticos podem sugerir a adoção do método do prato com 50% de verduras e legumes (que afetam muito pouco a glicemia), 25% de carboidratos (que costumam aumentar a glicemia) e 25% de proteínas (que aumentam ligeiramente a glicemia).

14 – Direcione à prática de atividade física. Oriente o paciente na realização de, pelo menos, 30 minutos de atividade, cinco vezes na semana. Essa atitude melhora a absorção da glicose pelas células do músculo, aumenta a sensibilidade da insulina, ajuda na perda de peso corporal e no controle da pressão arterial. Aconselhe o paciente a buscar uma atividade física que lhe dê prazer. Deve-se iniciar em um ritmo mais lento, aumentando gradativamente. Dessa maneira se consegue uma melhor adesão do paciente.

15 – Garanta que, mesmo se encontrando com taxas glicêmicas normais, os pacientes não abandonem a medicação prescrita e o tratamento.

16 – Monitore e acompanhe os parâmetros bioquímicos desses pacientes, encaminhando-os a outros profissionais de saúde, que fazem parte da equipe multidisciplinar, quando necessário.

17 - Capacite o paciente diabético a gerir melhor o seu controle por meio do autocuidado. Oriente-o nas melhores práticas de uso correto das medicações e equipamentos, como glicosímetros e dispositivos para a aplicação de insulina (canetas e seringas).

Pós-Graduação em Farmácia Clínica de Endocrinologia e Metabologia

Com o objetivo de capacitar os profissionais farmacêuticos para atuar como especialistas em endocrinologia e metabologia, o ICTQ – Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico lançou um programa de pós-graduação que irá habilitar os alunos no tema por meio do sistema digital (modalidade EaD), com metodologias ativas de ensino.

O curso terá início em 8 de setembro de 2020, com inscrições até 23 de agosto. O programa inclui temas como:

  • Metodologias de Atenção Farmacêutica;
  • Semiologia Farmacêutica e Anamnese na Avaliação Clínica;
  • Ética e Atendimento Farmacêutico;
  • Interpretação Clínica de Exames Laboratoriais;
  • Farmacocinética Clínica e Farmacodinâmica;
  • Fisiopatologia dos Distúrbios Endócrino-Metabólicos;
  • Fisiopatologia e Farmacoterapia: da dislipidemia, de diabetes, osteometabólicas, da tireoide, hipotalâmico-hipofisário, da obesidade e do sistema reprodutivo feminino e masculino;
  • Endocrinopatias na gravidez;
  • Atenção Clínica em Pacientes com distúrbios endócrinos e com distúrbios metabólicos;
  • Acompanhamento Farmacoterapêutico em Pacientes com Distúrbios Endócrino;
  • Farmacoepidemiologia;
  • Boas Práticas de Prescrição e Toxicologia Clínica; e
  • Interações Medicamentosas.
6 INDICAÇÕES DE MÉDICOS SOBRE COMO OS FARMACÊUTICOS PODEM AJUDAR NO TRATAMENTO DOS PACIENTES

6 INDICAÇÕES DE MÉDICOS SOBRE COMO OS FARMACÊUTICOS PODEM AJUDAR NO TRATAMENTO DOS PACIENTES

Apesar das resoluções 585/2013 (que regulamenta as atribuições clínicas do farmacêutico) e 586/2013 (que regula a prescrição farmacêutica no Brasil), já é de se esperar que os profissionais médicos sintam certa insegurança com relação à atuação farmacêutica na área clínica. Mesmo assim, é fato que há o reconhecimento do valor do farmacêutico entre os médicos mais esclarecidos com relação aos cuidados do paciente, principalmente no que se refere à adesão ao tratamento e aos problemas relacionados aos medicamentos.

O médico e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Alberto de Castro Pochini (CRM 83428-SP), comenta que tudo depende da qualificação do profissional envolvido: “Os farmacêuticos são habilitados e conhecem medicamentos até melhor que os médicos, porém, eles necessitam de mais formação clínica”.

Já o oncologista, Ricardo Caponero (CRM 51600-SP), afirma que o farmacêutico pode agregar um valor inestimável na qualidade dos serviços públicos de saúde: “Na grande maioria das vezes, o médico informa ao paciente apenas a posologia, e não alerta para eventos adversos, interações medicamentosas etc”.

Palavra dos médicos para os farmacêuticos clínicos

Com base nas entrevistas exclusivas com os médicos Caponero e Pochini, foram eleitas seis dicas a serem seguidas pelos farmacêuticos clínicos interessados no trabalho multidisciplinar e na parceria entre médicos, farmacêuticos e pacientes.

1 – Precisamos de ajuda com a receita – O farmacêutico, após ter certeza de que o paciente fez uma consulta e que já tem um diagnóstico, pode nos ajudar solicitando a receita e conferindo a prescrição, principalmente com relação à apresentação mais adequada dos medicamentos prescritos para aquele paciente (cápsulas, comprimidos, fracionáveis, solúveis etc).

2 – Auxilie na pesquisa do histórico clínico do paciente – Após checar a receita, investigue todos os medicamentos prescritos por outros especialistas, já que esses pacientes podem ser polimedicados. Esse fato é pouco explorado nos consultórios médicos, principalmente nas emergências hospitalares, o que produz interações medicamentosas que podem ser evitadas com o apoio do colega farmacêutico. Tendo em mãos a lista de todos os medicamentos já utilizados pelo paciente, cruze possíveis duplicidades. Nem sempre o paciente relata ao médico sobre outros medicamentos em uso.

3 – Acione-nos quando necessário  Precisamos que o colega farmacêutico alerte sobre as interações potenciais entre os medicamentos da receita emitida e entre os itens combinados da prescrição com outras receitas anteriores de dos demais especialistas. Se for o caso, podemos fazer as substituições cabíveis ou orientar para que o farmacêutico as faça, dentro de suas atribuições legais.

4 – Dê suporte na orientação ao paciente – Em caso de interações medicamentosas, o paciente precisa ser orientado sobre o motivo da possível troca de prescrição e necessita ainda ser esclarecido sobre a ocorrência de eventos adversos. Muitas vezes, o paciente abandona o tratamento ou altera a posologia por conta própria, deixando de tomar alguma dose do dia por causa desses eventos. Lembre a ele de que, em sua grande maioria, esses eventos adversos já são esperados. Por isso, é fundamental colocar-se a disposição para fazer um acompanhamento farmacoterapêutico junto a esses pacientes.

5 – Explique sobre cada medicamento – Para garantir a adesão ao tratamento, é fundamental que o colega farmacêutico oriente sobre a melhor forma de uso de cada item da receita e de sua lista de medicamentos (em casos de polimedicados). Explique sobre a forma e os horários de tomada, principalmente para os medicamentos de uso oral. Se for o caso, faça uma tabela de horários para cada dia da semana. É fundamental o reforço da informação e o detalhamento feito pelo farmacêutico, inclusive com o fornecimento de informações específicas por escrito para que o paciente possa consultá-las posteriormente.

6 – Acompanhe o paciente  O colega farmacêutico precisa ser incisivo no sentido de avisar ao paciente que retorne em caso de problemas inesperados relacionados aos medicamentos, pois ele é o profissional de saúde que está na ponta da cadeia e que, na grande maioria das vezes, recebe esses pacientes primeiramente. Com o retorno, o farmacêutico pode verificar periodicamente se o paciente continua tomando seus medicamentos e averiguar, se for o caso, eventos adversos por toxicidade crônica cumulativa. Assim, o colega farmacêutico poderá efetuar os ajustes necessários ou encaminhar o paciente para o atendimento médico.

Pesquisa aponta necessidade de integração entre médicos e farmacêuticos

Pesquisa coordenada por farmacêuticos do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP), de 2011, acompanhou 28 pacientes da enfermaria do Hospital Universitário (HU) da USP, com idade média de 70 anos. Eles estavam hospitalizados devido às complicações relacionadas às doenças crônicas ou acometidos por infecção, com internação de cerca de dez dias e fazendo uso de extensa polifarmácia. O objetivo do estudo era identificar eventuais problemas com as receitas.

Nas prescrições, os erros mais frequentes encontrados eram terapêuticos (46,5%) e de procedimento (42,7%). No primeiro caso destacavam-se as interações medicamentosas potenciais (28,7% do total) e no segundo, erros de caráter geral (28,0%), como o não cumprimento das regras de prescrição segura, como faltas de espaço entre dose e unidade, receitas fora do sistema internacional de medidas, itens rasurados, entre outros. Além disso, medicamentos potencialmente inapropriados para idosos foram administrados a 21,4% dos enfermos.

Como resultado, a pesquisa apontou a necessidade de integração do profissional farmacêutico às equipes médicas, com destaque para a importância da atuação farmacêutica no cuidado da população e no processo de gerenciamento das receitas para minimizar os problemas relacionados a medicamentos, especialmente os erros de medicação e as possíveis reações adversas.

Para Pochini, o farmacêutico tem conhecimento específico sobre medicamentos e auxilia de maneira fundamental o trabalho do médico no cuidado do paciente e ainda garante a adesão ao tratamento. “Quero destacar a atuação do farmacêutico nas questões que envolvem o medicamento genérico e a eficácia da medicação. Além disso, ele pode realizar uma dupla checagem de efeitos colaterais e das alterações clínicas que prejudiquem o uso da medicação especifica”, comenta.

Já Caponero afirma que o farmacêutico completa o trabalho médico na medida em que esclarece as dúvidas, mas também pode colher dados de eventos adversos, ou seja, de farmacovigilância. “Acho que de todas essas potenciais atribuições, a mais importante e significativa seja a análise das interações medicamentosas e dessas com substâncias utilizadas em tratamentos complementares”.

Matéria publicada no Portal do ICTQ

SAIBA O QUE É NECESSÁRIO PARA SER UM FARMACÊUTICO CLÍNICO NA PRÁTICA

SAIBA O QUE É NECESSÁRIO PARA SER UM FARMACÊUTICO CLÍNICO NA PRÁTICA

No Brasil há cerca de 76 mil farmácias e drogarias, de acordo com o Censo Demográfico Farmacêutico realizado pelo ICTQ – Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico. Nelas atuam quase 177 mil farmacêuticos!

O fato é que com a resolução 13.021/14, que constitui as farmácias como estabelecimentos de saúde, há, cada vez mais, vagas para farmacêuticos que atuem clinicamente nesses locais. O desafio não se dá apenas pela falta de profissionais no País, mas também pelo despreparo e inexperiência da maioria deles na atenção farmacêutica à população.

As mudanças históricas nos processos produtivos voltados para a produção de medicamentos e a influência dessas mudanças nos currículos acadêmicos convergiram para um profissional tecnicista, de conhecimentos adquiridos em blocos e desconexos e descontextualizados no que se refere à relação com a população, mantendo uma relação mais íntima com o produto (medicamento) do que com o usuário dele (paciente). “Com isso, o farmacêutico tornou-se um mero dispensador de medicamentos. Com esse novo contexto de farmacêutico clínico, esse profissional tem que ampliar seus conhecimentos para além dos medicamentos. O foco agora é o paciente. E isso demanda maior conhecimento por parte do profissional”, defende o professor do ICTQ, Clezio Rodrigues de Carvalho Abreu.

Falta preparo?

O farmacêutico clínico da Clinifar – Farmácia Escola do ICTQ em São Paulo-SP, Ronaldo Ribeiro, comenta que a formação do profissional na universidade não mantém na grade curricular uma farmácia clínica atuante na anamnese ou interpretação de exames laboratoriais. Ele pensa que um farmacêutico recém-formado não está apto a desenvolver a clínica nas farmácias e drogarias, nem mesmo na farmácia hospitalar.

“Se ele tiver interesse de exercê-la, uma pós-graduação em farmácia clínica é a base e princípio de preparo e formação. Apesar de os Conselhos de Farmácia não exigirem uma residência em farmácia, é fundamental procurar um curso que ofereça no mínimo aulas práticas, pois assim o farmacêutico terá bagagem de conhecimento teórico e prático”, ressalta ele. Vale lembrar que o mesmo Censo citado no início dessa matéria, descobriu que apenas 38,5% dos farmacêuticos entrevistados cursaram ou estão cursando uma pós-graduação.

Abreu observa ainda que falta formação que inclua conhecimentos e habilidades em boas práticas de prescrição farmacêutica, fisiopatologia, semiologia, comunicação interpessoal, farmacologia clínica e terapêutica. Esses conhecimentos podem promover o reencontro entre farmacêutico e paciente, para que possa novamente se responsabilizar pelo seu bem-estar e tornar-se um dos provedores de cuidados em saúde.

Sobram desafios

Para Ribeiro, o principal desafio é ser reconhecido pela classe médica, que não entende que o farmacêutico soma os serviços e não divide ou disputa o paciente. Para vencer esse desafio, é preciso demonstrar na prática para outros profissionais de saúde, o ganho no atendimento multidisciplinar, para o paciente e para todos os profissionais envolvidos no tratamento. Outro desafio importante é ser reconhecido pela população que perdeu ao longo dos últimos anos, a percepção de um farmacêutico voltado para os cuidados essenciais de saúde.

“Vejo outros colegas tendo dificuldade na atuação em grandes redes, onde não se reconhece o farmacêutico clínico. Isso evidencia que as vezes os proprietários assumem um posicionamento estritamente comercial, o que vão na contra mão das resoluções do Conselho federal de Farmácia (CFF)”, diz Ribeiro.

Ele lembra que, mesmo nas farmácias onde já se existe um consultório, há uma atuação muito rasa no âmbito clínico. Isso ocorre porque o perfil do farmacêutico que atua nessas drogarias não corresponde a necessidade de conhecimento e expertise para a atividade. “Hoje temos como aliar um bom faturamento a um atendimento ético, principalmente por meio de acompanhamento farmacoterapêutico, entre outras atividades”, relata.

O desafio de voltar à sala de aula!

Abreu descreve como um dos principais desafios encontrados pelos farmacêuticos a dificuldade em voltar a estudar depois da graduação. Muitas redes não liberam ou não flexibilizam a escala, outras vezes o próprio profissional avalia exaustivo trabalhar durante a semana e estudar no sábado a cada 15 dias. “O profissional farmacêutico precisa ter a consciência de que o processo de auto capacitação é um trabalho árduo, porém indissociável do profissional que trabalha com clínica e atendimento ao paciente. E é importante salientar que cursinhos online, mesmo aqueles vendidos como especialização, são insuficientes por não trazerem a oportunidade de aprendizado coletivo e prático”.

Existem ainda as dúvidas sobre a legalidade e durabilidade das resoluções do CFF, uma vez tão questionada pela classe médica. Abreu acredita que não há incertezas na legislação farmacêutica porque as resoluções disponíveis sobre a atuação clínica (Resoluções 585 e 586/13) já são uma realidade irreversível. “Já no tocante à insegurança, isso é o que predomina somente no meio farmacêutico que está em cima do muro. Não há insegurança nas resoluções, mas nas atividades de natureza técnica e na capacidade de fazer algo que no Brasil era feito só por médicos”, alerta.

Palavra de quem vive o dilema

A farmacêutica da rede de Drogarias Pacheco, em Rio das Ostras (RJ), Eniana Campolina, já teve certa prática clínica no passado pelo atendimento no balcão, que ela considerou um grande aprendizado, mas sente que o farmacêutico precisa de mais qualificação para isso. Por isso, atualmente ela não faz mais esse atendimento.

“Hoje, a todo o momento, somos procurados para fazer uma indicação, confirmar prescrição...e, sinceramente, não temos preparo para este tipo de atuação em saúde. Somos ainda muito despreparados para essa abordagem. Existe uma insegurança e muito pouco embasamento para que possamos nos movimentar livremente neste universo da clínica”, lamenta Eniana.

Para a profissional, é preciso mais conhecimento sobre patologia e diagnóstico, além de interações medicamentosas e alimentares, sem contar com a conscientização, por parte do farmacêutico, do seu papel educativo e psicossocial junto à população.

A maioria dos profissionais tem uma atuação deficiente pela falta de incentivo dos empresários e também porque grande parte deles ainda não se especializou, e prefere se esquecer da responsabilidade. “Precisamos também divulgar e dar mais credibilidade a esta vertente de nossa formação profissional”, acredita ela.

Fazer qualquer curso serve?

Ribeiro afirma que os cursos de curta duração ou ainda os treinamentos online, não acrescentam conhecimentos sólidos, apenas uma informação ou ideia a ser desenvolvida. Para ter conhecimento profundo para atuar no atendimento, é básico ser especializado em farmácia clínica. “Participar de programas de residência, ou ainda de especializações mais específicas em determinadas patologias e acompanhamentos farmacoterapêuticos pode trazer uma base mais sustentável para o profissional atuar no campo clínico”, diz ele.

Eniana concorda com Ribeiro: “vejo muitos cursos que existem para dar o diploma aos alunos, com conteúdos imensos, mas pouca prática e exercício para o preparo do profissional. A meu ver, a prática clínica farmacêutica exigiria uma residência, uma vivência interativa para trazer segurança aos profissionais em formação”. Ela gostaria muito de estar mais preparada e especializada para poder trabalhar atuante dentro da clínica com segurança.

Abreu acredita que o conteúdo teórico adquirido nos cursos de qualificação e pós-graduação em farmácia clínica é muito importante para a atuação prática do farmacêutico, mas de forma complementar. “A formação do farmacêutico para a prática clínica, de forma descontextualizada de seu local de trabalho, tem se mostrado uma forma ineficaz de tornar o cuidado farmacêutico uma realidade. Os profissionais, às vezes, até têm formação e conhecimento suficientes para a atuação em um consultório. O que falta a eles é justamente saber aliar esses conhecimentos a sua realidade dentro do varejo. Nesse contexto, a prática sempre será soberana”.

Superando os obstáculos

Abreu diz que os farmacêuticos precisam estar motivados com a ideia dessa nova atividade clínica, e buscar, de forma incansável, aliar essa clínica à prática do dia a dia. “É fundamental eles entenderem sua importância dentro do plano de cuidado e estimulando a interação entre a categoria de clínicos para alavancar sua implantação. Eu observo que apenas com a união, a motivação e o esforço coletivo é possível mostrar a importância do trabalho clínico e a implantação de sua prática no sentido de ocupar seu lugar no cuidado ao paciente no varejo farmacêutico”.

É preciso levar em consideração o reconhecimento das fronteiras de atuação dentro do consultório, jamais a avaliação farmacêutica deve ser fragmentada e restritiva. Pelo contrário, uma avaliação integral do paciente pelo farmacêutico permite a identificação da necessidade do compartilhamento do caso com outros profissionais de saúde, gerando um cuidado interdisciplinar e até transdisciplinar.

Os 9 desafios que o farmacêutico clínico precisa vencer em 2017

1 - Descrédito sobre a validade, no médio e longo prazo, das resoluções acerca das atribuições clínicas do farmacêutico;

2 - Ausência de conhecimento no que se refere às patologias e farmacologia;

3 - Ausência de exercício prático em aulas de campo ou residências;

4 - Falta de autoconfiança para a prática dos serviços farmacêuticos;

5 - Acomodação na zona de conforto e ausência de empreendedorismo para se propor a realização dos serviços clínicos aos gerentes e empregadores;

6 - Medo das críticas por parte dos profissionais de medicina;

7 - A visão e entendimento estreito de que terá que trabalhar mais, com maiores responsabilidades e com o mesmo salário;

8 - Falta de condições físicas e falta de investimentos por parte de empregadores, para a realização da prática clínica na farmácia;

9 - Ausência de harmonização entre regulamentações do Conselho Federal de Farmácia e ANVISA, principalmente na classificação dos medicamentos e funcionamento dos consultórios farmacêuticos.

Matéria publicada no Portal do ICTQ

SAIBA DE QUE MANEIRA OS CONSULTÓRIOS VIRARAM REALIDADE PARA FARMACÊUTICOS

SAIBA DE QUE MANEIRA OS CONSULTÓRIOS VIRARAM REALIDADE PARA FARMACÊUTICOS

 

Embora parte dos pacientes e clientes de farmácias ainda desconheça o atendimento personalizado realizado por farmacêuticos em seus consultórios, desde 2014 muitas farmácias no Brasil passaram a dispor de espaço para esse serviço, o que já é uma realidade comum em muitos países. Nos consultórios farmacêuticos, o profissional tem autonomia para avaliar os medicamentos que o paciente está tomando, se há riscos de interações medicamentosas, indicar medicamentos isentos de prescrição (MIP), entre outras atribuições.

“A consulta farmacêutica é uma alternativa para melhorar a saúde dos pacientes baseada em critérios científicos e mediante protocolos firmados entre outros prescritores habilitados – no caso de medicamentos que demandam prescrição médica, sendo tudo isso feito por meio de registros documentados. Tendo em vista que, segundo as resoluções do Conselho Federal de Farmácia (CFF) 585 e 586, o farmacêutico clínico pode fazer parte da equipe multidisciplinar de saúde”, conta o farmacêutico, aluno da pós-graduação de Farmacologia Clínica e Prescrição Farmacêutica do ICTQ – Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico, João Alves.

Dessa forma, mediante registro no respectivo Conselho Regional de Farmácia, o farmacêutico fica legalmente habilitado a proceder consulta farmacêutica. Alves é considerado um profissional de sucesso em seu setor. Ele afirma que sempre tenta antever aquilo que a população necessita. Ele ouve as pessoas com atenção e está em permanente busca por informação e conhecimento. O Portal de Conteúdo do ICTQ publicou matéria sobre ele, intitulada Ele foi balconista da farmácia e hoje tem uma clínica farmacêutica (leia aqui).

O conceito de consultório farmacêutico foi definido em duas portarias do CFF publicadas em 2013 e a existência desse espaço é também apoiada pela Lei 13.021, de agosto de 2014, que dispõe sobre o exercício das atividades farmacêuticas. Assim, legalmente os farmacêuticos estão preparados para exercer atividades em consultório, no entanto, a qualificação é fundamental.

Anamnese

Uma das habilidades que o farmacêutico precisa desenvolver, constantemente, para a realização de consultas é a anamnese. Essa habilidade de usar a informação para obter conhecimento e tomar decisões deve acompanhar o profissional em todos os momentos de sua atuação nesse segmento. A capacidade de raciocínio clínico em saúde se conhece por semiologia, que, em outras palavras, refere-se ao ato de investigar e estudar sinais e sintomas apresentados pelo paciente, à luz dos conceitos da profissão. A semiologia é base para se formular um diagnóstico clínico.

Muitos farmacêuticos têm dúvidas sobre o processo de semiologia. Mas, afinal, ele pode colocar a mão sobre o paciente? “Na verdade, o farmacêutico, para fazer um processo de semiologia, ele necessita de instrumentos para tal. Um desses instrumentos é o estetoscópio, para poder verificar a pressão arterial, para poder fazer a ausculta – se esse paciente tem algum problema pulmonar, que acho não ser simplesmente falta de um xarope para tosse, e eu poder encaminhá-lo de forma inscrita para um médico. O farmacêutico tem que utilizar, não só esse, como outros instrumentos para visualizar os sinais e sintomas desse paciente”, explica o farmacêutico especialista em Atenção Farmacêutica e professor do ICTQ, André Schmidt.

Segundo Schmidt, para fazer a anamnese existem métodos que o farmacêutico deve adotar. O mais utilizado é o SOAP, cuja sigla indica as etapas do atendimento: é algo subjetivo (vem da história relada pelo paciente) e objetivo. Para isso é necessário conhecimento de habilidades clínicas para solicitar exames clínicos e físicos; em seguida o profissional faz a avaliação, a partir da síntese dos dados, para, ao final, traçar um plano terapêutico.

Serviços e exames

Alves detalha, à reportagem, os serviços que podem ser realizados em consultório farmacêutico. “Além da dispensação de medicamentos, uma farmácia pode oferecer os serviços farmacêuticos de perfuração de lóbulo auricular, aferição de parâmetros fisiológicos (pressão arterial e temperatura corporal) e bioquímicos (glicemia capilar), administração de medicamentos”, conta. Além disso, o farmacêutico pode também solicitar exames para fins de monitoramento terapêutico ou até mesmo para uma triagem e encaminhamento aos profissionais médicos, quando necessário.

Testes rápidos

Em julho de 2019, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) promoveu uma consulta dirigida com o objetivo de levantar dados sobre a prestação de serviços de assistência à saúde em farmácias do País. Entretanto, o segmento tem demandado outros serviços que podem ser feitos nas farmácias, como os exames realizados próximo ao paciente, apelidados de testes rápidos, os chamados Testes Laboratoriais Portáteis (TLPs) – do inglês Point-of-Care Testing (POCT).

Os TLPs são definidos como exames que podem ser executados fora do espaço físico de um laboratório. Uma vez que não necessitam de transporte ao laboratório, os TLPs proporcionam rapidez, agilizando a abordagem ao paciente, bem como possibilitando intervenções imediatas em situações em que há risco de morte.

“A legislação atual, apesar de obsoleta, só permite teste de glicemia capilar. Então, dentro da bioética, devemos seguir a lei. Não praticamos outros testes rápidos, solicitamos ao laboratório quando necessário. Inclusive a RDC 44/09 está na agenda da Anvisa para revisão urgente, onde temos a expectativa da ampliação dos parâmetros farmacêuticos a serem ofertados nas farmácias”, fala Alves.

“O futuro da profissão é a prática clínica. Eu tenho certeza de que conseguiremos galgar muito espaço, assim como afirmo que o farmacêutico é uma das profissões do futuro”, destaca Schmidt. Para esse futuro, não tão distante, Alves considera que o farmacêutico necessita de qualificação profissional, reciclagem técnica, aplicação correta da anamnese farmacêutica, estrutura adequada para garantir a integridade, individualidade, sigilo e conforto do paciente.

A seguir, confira a entrevista exclusiva com o farmacêutico e professor do ICTQ, André Schmidt, falando sobre consulta farmacêutica.

ICTQ - A resolução 585, de 2013, do CFF, menciona que o farmacêutico deve atender em consultório farmacêutico para privacidade do atendimento. Mas o farmacêutico pode ter um consultório?

André Schmidt – A resolução 585 fala claramente sobre as atribuições clínicas do farmacêutico e nela prevê que o farmacêutico deve prover consultas farmacêuticas em ambiente privado, e esse ambiente privado é um consultório. Farmacêutico deve, com certeza, atender dentro de um consultório.

ICTQ - Além disso, a norma diz que ele está autorizado a realizar anamnese e verificar sinais e sintomas do paciente. Essa anamnese é a mesma realizada por médicos?

André Schmidt – Isso mesmo. Eu costumo sempre brincar que a anamnese é um processo de trazer à tona tudo aquilo que o paciente irá nos informar. Ele vai explicar qual é a queixa principal, quanto tempo ele se encontra com essa patologia, com esse problema de saúde, e, após isso, irei fazer um processo de semiologia – avaliar os sinais e sintomas dele. É o mesmo processo para a medicina, para a fisioterapia, para nutrição, para enfermagem. É o mesmo processo tanto para farmacêutico como para médico.

ICTQ - O farmacêutico pode solicitar alguns exames laboratoriais para acompanhamento farmacoterapêutico? Esses exames podem ser realizados dentro do estabelecimento farmacêutico?

André Schmidt – O farmacêutico pode solicitar vários exames para acompanhamento farmacoterapêutico. Por exemplo, se o paciente for diabético, pode ser solicitado uma hemoglobina glicada e glicemia de jejum. Para pacientes com perfil lipídico, com dislipidemia, eu vou pedir todo o perfil lipídico, HDL, LDL e triglicérides para poder avaliar. Posso pedir também exames complementares para avaliar a farmacocinética desse paciente para ver como que está a função renal e a função hepática. O farmacêutico tem uma gama de exames que ele pode solicitar no âmbito de sua profissão.

ICTQ - Qual o cenário atual dos farmacêuticos assumindo o papel de profissional da saúde após a publicação das resoluções 585 e 586?

André Schmidt – Essa publicação, que é desde 2013, está dando autonomia para o farmacêutico não estar focado no produto, ou seja, no medicamento, e ficar focado no serviço e no paciente, fazendo com que esse paciente recupere a saúde, faça uma promoção da saúde e melhore os seus hábitos de vida, inclusive.

Matéria publicada no Portal do ICTQ 

UM DOS EMPRESÁRIOS BILIONÁRIOS DO MUNDO FALA DE EMPREENDEDORISMO EM LIVE

Por Wandy Ribeiro

Para revelar os segredos do sucesso no empreendedorismo, um dos empresários citados pela Revista Forbes como um dos bilionários mundiais irá participar de uma live do ICTQ no YouTube, em 23/07, que será mediada pela diretora de Conteúdo da Vitae Editora, Egle Leonardi. Ele é o fundador da escola de inglês Wise Up e dono do Orlando City, Flávio Augusto da Silva. Além disso, outro empreendedor também vai estar na transmissão:  o presidente do grupo Farmarcas, Edison Tamascia, cuja empresa tem sob sua administração 11 redes com 1.100 lojas, em 24 Estados brasileiros.

A ideia é fomentar o empreendedorismo e apresentar alternativas aos farmacêuticos para o desenvolvimento de uma carreira promissora no mundo dos negócios. A transmissão é promovida pelo ICTQ – Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico e ocorrerá na quinta-feira (23/07), às 19 horas, no canal do YouTube da instituição.

Por meio de suas experiências de sucesso, esses empresários vão debater aspectos técnicos e apresentar ideias para o farmacêutico que deseja ser empreendedor e ter sucesso. Um ponto importante é que a transmissão irá abordar o sucesso na administração de empresas de alta performance.

Vale ressaltar que, nesse sentido, o ICTQ conseguirá tirar boas dicas desses empresários, já que a instituição é referência em aprendizagem para o setor. Fundada em dezembro de 2008, pelo empreendedor Marcus Vinicius de Andrade, a entidade tem atuação exclusiva nas áreas de graduação, pesquisa e pós-graduação para profissionais do mercado farmacêutico.

Inclusive, um dos cursos da instituição é, justamente, a graduação em Administração com ênfase no mercado farmacêutico, que aborda desde metodologias científicas até contabilidade, gestão de pessoas, economia, logística, entre outros aspectos fundamentais para o desenvolvimento de um gestor.

“Ao se formar pelo ICTQ, o administrador de empresas tem o seu currículo reconhecido, automaticamente, por toda a cadeia nacional do segmento farmacêutico: indústria, distribuidores, importadores, varejo (farmácias e drogarias), hospitais, laboratórios e centros de pesquisas”, destaca a instituição, por meio de seu Portal oficial.

Mais vantagens

Durante a transmissão, ainda haverá sorteio de livros para os internautas, que também poderão fazer perguntas e interagir com os entrevistados.

Aspectos interessantes

Um detalhe importante da transmissão é que o ICTQ escolheu alguns profissionais que tiveram histórias de superação. Silva, por exemplo, foi criado na periferia do Rio de Janeiro. Aos 19 anos, ele teve seu primeiro emprego em uma escola de inglês.

Com um capital avaliado em R$ 20 mil, ele fundou a primeira unidade da Wise Up, que, atualmente, conta com mais de 500 escolas distribuídas por todo o território nacional.

Já Tamascia, que nasceu em Paranapuã, interior de São Paulo, saiu da roça aos 12 anos para trabalhar em uma farmácia local. Aos poucos, ele adquiriu conhecimento nesse mercado e, anos depois, abriu sua própria farmácia em Piracicaba. Em 1995, o executivo começou a se associar com outras pequenas drogarias para negociar o preço de insumos e trocar ideias sobre gestão.

Com perseverança, ele foi criando sistemas para negócios, marketing e serviços. Com esse conceito, ele fundou a Federação Brasileira das Redes Associativistas e Independentes de Farmácias (Febrafar). Posteriormente, ele criou a rede Super Popular e, depois, assumiu a presidência da Farmarcas, uma administradora de redes independentes, que saiu do zero e chegou a mil farmácias em sete anos, cuja a história foi tema do seu livro (veja aqui). O canal no YouTube do ICTQ pode ser acessado aquifaça sua inscrição e ative as notificações, para não perder a transmissão.

Fonte: ICTQ

5 CURIOSIDADES SOBRE COMO FUNCIONA A PROFISSÃO FARMACÊUTICA NA FRANÇA

5 CURIOSIDADES SOBRE COMO FUNCIONA A PROFISSÃO FARMACÊUTICA NA FRANÇA

Por Egle Leonardi

Em uma sociedade culturalmente distante de nossa realidade no Brasil, o farmacêutico francês, atua em um ambiente favorável às práticas integrativas nas farmácias comunitárias, com monopólio de suas atividades comerciais assegurado por lei centenária.

A farmacêutica Lauren Vernan é brasileira, mas mora em Paris, na França. Ela trabalha na farmácia Monge e trás com exclusividade, curiosidades sobre a atuação do farmacêutico por lá, que se diferencia ou que as vezes se aproxima de nossa realidade por aqui. Confira!

1 - Responsabilidade do farmacêutico na farmácia comunitária

É na farmácia comunitária que trabalha a maioria dos farmacêuticos franceses. E apenas as sociedades integralmente constituídas por farmacêuticos podem ser proprietários de farmácia. Na França, a indivisibilidade da propriedade e da direção técnica de farmácia consta do artigo L.575º do Código de Saúde Pública, e tem mais de dois séculos.

2 - Permanência do profissional na farmácia

Todo estabelecimento que vende medicamentos tem, obrigatoriamente, de ser dirigido por um farmacêutico, que é obrigado a estar presente na farmácia durante o seu funcionamento. No caso de impedimento ou ausência ocasional do profissional, terá de haver um farmacêutico substituto (artigo L.579; a. 24 de setembro de 1976). As farmácias fecham no período de férias do profissional ou quando este não está presente – ou seja, quando o farmacêutico vai ao banco, ao almoço e etc.

3 - Quantidade de farmácias no país

Com mais de 20 mil estabelecimentos no país, não há leis que impeçam a montagem de farmácias no que tange à localização ou proximidade entre estabelecimentos.

As farmácias são discretas, identificadas por uma cruz verde, e deixam somente os produtos de higiene, cosméticos e pessoais ao alcance do público. Os medicamentos ficam atrás do balcão. Outro aspecto interessante é que quase todas as farmácias comercializam medicamentos homeopáticos.

4 - Possibilidade de prescrição?

Na França, o farmacêutico efetua serviços de atenção básica e, por meio de entrevistas com o paciente, indica, se necessário, medicamentos isentos de prescrição ou orienta sobre cuidados à saúde. É comum que a população procure seu farmacêutico local para orientação e aconselhamento. No entanto não há prescrição documentada.

5 - Remuneração

O farmacêutico é remunerado única e exclusivamente por uma margem fixa e única sobre o preço de venda estabelecido. Os medicamentos são reembolsados pela seguridade social. As despesas com medicamentos correspondem a 19% dos gastos com saúde por parte da população.

Matéria publicada no Portal do ICTQ

SAIBA COMO FUNCIONA A PROFISSÃO FARMACÊUTICA NOS ESTADOS UNIDOS

SAIBA COMO FUNCIONA A PROFISSÃO FARMACÊUTICA NOS ESTADOS UNIDOS

Por Egle Leonardi

O farmacêutico Henri Manasse foi vice-presidente executivo da American Society of Health-System Pharmacists (ASHP). Atualmente é professor da Faculdade de Farmácia da Universidade de Illinois, Chicago, nos Estados Unidos (EUA).  Em um diálogo exclusivo com o ICTQ – Instituto de Pesquisa e Pós-graduação para farmacêuticos, Manasse conta e enumera 07 aspectos da profissão farmacêutica em seu país. Confira a seguir:

1 - Responsabilidade do farmacêutico na farmácia comunitária

O controle e a dispensação dos medicamentos são a principal responsabilidade do farmacêutico norte-americano. O aparecimento da farmácia clínica contribuiu decisivamente para tornar cada vez mais frequente a relação farmacêutico-paciente. Assim, é comum o profissional dar suporte ao tratamento medicamentoso e prestar assistência farmacêutica.

O sistema de atendimento à saúde é impulsionado pelo setor privado. Todos têm planos de saúde, já que não há atendimento social a todos os cidadãos (exceto em condições especiais, como para idosos carentes e doentes crônicos). Nos últimos anos o país está passando por mudanças na área de saúde, com a implementação do sistema chamado Obama Care, para assegurar que todos tenham acesso ao atendimento junto aos planos.

Os farmacêuticos são muito valorizados pelos planos de saúde (e pelos empregadores) na medida em que minimizam os custos com médicos. Por isso, há programas de bem-estar ligados às farmácias para reduzir os custos com o plano, manter a saúde dos funcionários e, assim, torná-los mais produtivos.

Nos EUA o farmacêutico pode dar assistência, prescrever alguns medicamentos, aplicar vacinas, fazer limpeza de ouvido, remoção e renovação de curativos, avaliação física completa, entre outros tipos de atendimento. Para cada serviço há um preço. As consultas com os farmacêuticos costumam ser documentados eletronicamente e o programa gera um relatório que segue para o responsável por seu tratamento (no caso de acompanhamento médico).

2 - Propriedade da farmácia

Nos EUA estão concentradas na mão do farmacêutico a direção técnica, a responsabilidade profissional e, na maioria dos estados, a propriedade das farmácias.

3 - Permanência do profissional na farmácia

Na competência do farmacêutico, 49% do seu tempo são usados na dispensação de medicamentos. Vale lembrar que 75% desses farmacêuticos trabalham nas farmácias comerciais, como proprietários ou integrados a redes de lojas (chain drugstores). Os 300 mil farmacêuticos dos Estados Unidos trabalham nas 20 mil farmácias independentes e nos 40 mil pontos ligados às grandes redes.

Lá é obrigatória a presença física do farmacêutico durante o funcionamento das farmácias e também nas cadeias de lojas, nas quais os medicamentos que forem de receituário são vendidos em zonas bem definidas dentro do estabelecimento, e sempre sob a direção e supervisão do farmacêutico.

4 – Acerca da quantidade de farmácias no país

Não há legislação que impeça as farmácias de funcionarem próximas umas das outras. Vale a livre concorrência.

5 – A prescrição farmacêutica nos Estados Unidos

As leis são diferentes em cada estado americano. Há 45 estados que permitem que o farmacêutico emita receitas com acordos firmados com profissionais habilitados pela pratica médica. O país acredita que é necessário o farmacêutico ser parte do sistema de saúde. Em alguns estados da federação o farmacêutico prescreve medicamentos de uma lista fornecida pelos serviços de saúde.

6 - Localização dos medicamentos

Nos EUA existem as drugstores e as pharmacies (farmácias). As drugstores podem ou não ter uma farmácia anexa. Elas são estabelecimentos comerciais que vendem desde produtos de higiene pessoal e de ambiente até artigos de eletricidade, roupas, calçados, artigos de escritório, material escolar, vitaminas, alguns analgésicos, suplementos etc. No seu setor farmacêutico - pharmacy (que funciona numa área fechada ou reservada) - são aviadas e preparadas as receitas. Além, disso, no local são dispensados medicamentos industrializados. Neste setor, o farmacêutico, que é o seu superintendente, está presente durante todo o horário de funcionamento do estabelecimento. Há farmácias dentro de drugstores onde funciona também uma clínica farmacêutica e onde o farmacêutico faz a anamnese e a prescrição.

7 – A remuneração do farmacêutico clínico nos Estados Unidos

Nas farmácias em que há clínicas de prescrição, os profissionais cobram a consulta, que varia de R$ 60,00 a R$ 360,00 (reembolsáveis). Além disso, os farmacêuticos ligados aos programas de saúde recebem em modelo de coparticipação do governo, do seguro saúde e do paciente, que paga cerca de R$ 40,00.

Matéria publicada no Portal do ICTQ

FARMACOTERAPIA E FISIOPATOLOGIA DA DOR E INFLAMAÇÃO

FARMACOTERAPIA E FISIOPATOLOGIA DA DOR E INFLAMAÇÃO

Por Egle Leonardi

A dor é conceituada pela Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP) como uma experiência sensorial, emocional e subjetiva, que está ligada a um dano real ou potencial. Seu conhecimento teórico e prático aprofundado se faz necessário, pelo fato de a dor constituir um dos principais sintomas de uma desordem orgânica, sendo assim, uma queixa muito frequente de pacientes que buscam assistência e cuidado no ambiente de saúde.

Já a inflamação pode ser definida como uma reação circulatória induzida por uma injúria aos tecidos, com o consequente extravasamento de fluidos, células e moléculas, para o espaço extravascular. Ela é caracterizada pela vasodilatação, com consequente aumento do fluxo sanguíneo, acarretando aumento da permeabilidade vascular e saída de células e moléculas dos vasos para os tecidos e migração de leucócitos, onde ocorreu a injúria.

“Destaca-se que o processo inflamatório apresenta cinco sinais cardinais importantes, sao eles: edema, calor, rubor, dor e perda de função. A agressão tecidual é o agente desencadeador da resposta inflamatória, podendo ser de origem biológica (induzida por microrganismos), física ou química”, ressalta o professor de Farmacoterapia e Fisiopatologia da Dor e Inflamação do ICTQ – Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico, Matheus Tavares.

Conhecimento usado na prática clínica

A dor e a inflamação estão presentes em grande parte dos atendimentos farmacêuticos na atualidade. Muitas vezes, estas condições clínicas estão associadas a problemas de saúde autolimitados, e são motivos de automedicação com analgésicos e anti-inflamatórios.

Em outras situações, esses medicamentos são empregados por meio da prescrição farmacêutica, cuja atividade foi incluida no rol de atribuições clínicas relativas ao cuidado à saúde e regulada pela Resolução/ CFF 586/2013, que a define em seu artigo 3º como sendo o ato pelo qual o farmacêutico seleciona e documenta terapias farmacológicas e não farmacológicas, e outras intervenções relativas ao cuidado à saúde do paciente, visando à promoção, proteção e recuperação da saúde, e à prevenção de doenças e de outros problemas de saúde.

De acordo com Tavares, a avaliação e o acompanhamento da farmacoterapia da dor e da inflamação requerem conhecimentos multidisciplinares de anatomia, fisiologia, fisiopatologia, semiologia e farmacologia desses processos. Munido de tais conhecimentos, o farmacêutico pode oferecer uma concreta contribuição à saúde dos pacientes nessas condições, avaliando e monitorando a farmacoterapia de maneira efetiva.

Fatores críticos

“Estudos recentes apontam a dor crônica como um dos fatores críticos na determinação de patologias como depressão e ansiedade, e sua coexistência tende a agravar ainda mais tais transtornos. Nos últimos anos, os estudos encontraram consideráveis ​​sobreposições entre a dor e as alterações de neuroplasticidade, que resultaram em alterações neurobiológicas”, menciona Tavares.

Estudos epidemiológicos relatam que a dor crônica constitui um grande problema de saúde pública, nos Estados Unidos e na Europa, onde aproximadamente um quinto da população em geral é afetado. Além disso, como um dos transtornos mentais mais comuns e incapacitantes, a depressão tem sido relatada como o terceiro maior contribuinte para o ônus global. Alguns estudos clínicos revelaram que a dor crônica, como estado de estresse, frequentemente induz à depressão e que até 85% dos pacientes com dor crônica são afetados por depressão grave e, os que apresentam tal sobreposição, evoluem pior do ponto de vista prognóstico.

“Até o presente momento, não temos bem caraterizado os mecanismos fisiopatológicos correspondentes (dor e depressão), nem a sua correlação mútua, o que representa um enorme desafio para o tratamento da dor acompanhada por depressão e outros distúrbios psíquicos”, relata o professor.

Em particular, as vias sensoriais envolvidas na dor compartilham as mesmas regiões cerebrais envolvidas no controle do humor, incluindo o córtex insular, córtex pré-frontal, cíngulo anterior, tálamo, hipocampo e amígdala, que formam uma base estrutural histológica para a coexistência de dor e depressão. Além disso, os volumes do córtex pré-frontal (CPF) e do hipocampo têm sido relatados em muitos estudos como significativamente menores em pacientes deprimidos e estão intimamente relacionados à gravidade da depressão.

Sendo assim, Tavares conclui que o estudo contínuo das bases fisiopatológicas da dor constitui um constante desafio e pode contribuir de forma direta para o melhor entendimento das alterações neuropsíquicas observadas no contexto da dor, bem como favorecer a descoberta de novas abordagens terapêuticas.

Classificação da dor

Dor Nociceptiva - Compreende dor somática (que se origina da pele, dos ossos, das articulações, dos músculos ou do tecido conectivo) e visceral (que surge de orgãos internos, como intestino e outras vísceras). Tem como característica ocorrer diretamente por estimulação de terminações nervosas livres (nociceptores), encontradas em estruturas somáticas e viscerais, por estímulos de origem mecânica, térmica ou química.

“A liberação de substâncias, como bradicinina, prostaglandinas, histamina, interleucinas, fator de necrose tumoral alfa, serotonina e substância P pode ativar os nociceptores. Essa ativação desencadeia potenciais de ação que se propagam do local do estímulo nocivo até a medula dorsal, ascendendo até o tálamo e, através das radiações talâmicas, chega a estruturas centrais (cortex sensorial), em que o processamento da dor continua”, explica o professor.

Dor Neuropática - Resulta de alguma lesão ou de alteração funcional nervosa em nível central - Sistema Nervoso Central (SNC) ou Sistema Nervoso Periférico (SNP) -, apresentando como característica o curso crônico, de difícil tratamento, marcada pela presença de hiperalgesia (respostas dolorosas exageradas a estímulos normalmente nocivos) e alonidia (repostas dolorosas a estímulos geralmente não nocivos).

Dor Aguda - Apresenta como característica o início súbito, estando relacionada a injúrias de origem traumáticas, infecciosas ou inflamatórias. Quanto à sua duração, ela tende a desaparecer com a intervenção na causa – resposta à terapia medicamentosa, cura da lesão ou ainda a imobilização. “A dor aguda pode levar a manifestações como aumento da pressão arterial, crise de ansiedade, alteração da frequência cardíaca, taquipnéia (elevação da frequência respiratória) e agitação psicomotora. Geralmente é relatado pelo paciente ser de intensidade forte, impactando diretamente nas atividades laborais e sociais”, explica Tavares.

Dor crônica - É marcada por estímulos nociceptivos repetidos que determinam uma variedade de modificações no SNC. Enquanto dor aguda é marcada por alterações que cursam com resposta do sistema nervoso autônomo simpático, com taquicardia, hipertensão e midríase, a dor crônica permite uma adaptação a esta condição. Apresenta-se mal delimitada no tempo e no espaço, tem carater persistente e recorrente. A despeito da ausência de respostas neurovegetativas associadas, observa-se respostas emocionais e afetivas (ansiedade e depressão) frequentes.

Protocolo de atendimento

Importante salientar que a prescrição da farmacoterapia pelo farmacêutico deve estar apoiada nas Resoluções 585 e 586, do Conselho Federal de Farmácia (CFF), de 29 de agosto de 2013, se limitando ao uso dos medicamentos constantes na Lista de Medicamentos Isentos de Prescrição (LMIP), instituída na Instrução Normativa – I.N. 11, de 29 de setembro de 2016, bem como nas apresentações disponíveis em território nacional.

O algoritmo para tratamento da dor aguda pode ser usado com o objeto norteador da conduta, possibilitando o melhor entendimento da intensidade e dos diferentes níveis de dor, bem como seus respectivos tratamentos.

Por meio dele, o farmacêutico deve fazer o acompanhamento da dor do paciente e realizar a prescrição de MIPs, quando necessário. Além disso, pode realizar o encaminhamento do paciente fora de condições autolimitadas, cujo diagnóstico e prescrição médica de medicamentos (não MIPs) são necessários.

Destaca-se ainda que, além do exposto, o farmacêutico, em suas atribuições, apresenta um papel fundamental no acompanhamento farmaterapêutico de pacientes em utilização de fármacos analgésicos opioides, uma vez que tal terapia poderá acarretar múltiplos efeitos adversos importantes, como náuseas, vômito, constipação, retenção urinária, prurido, sedação profunda e até mesmo depressão respiratória.

 

Algoritmo para o tratamento da dor aguda. Fonte: Manual de farmacoterapia, 9ª ed., Barbara G. Wells

Obs.: Utilizada escala numérica de avaliação da dor

A Escala Numérica consiste numa régua dividida em onze partes iguais, numeradas sucessivamente de 0 a 10. Pretende-se que o doente faça a equivalência entre a intensidade da sua dor e uma classificação numérica, sendo que 0 corresponde à classificação “Sem Dor” e 10 à classificação “Dor Máxima” (dor de intensidade máxima imaginável).  (https://www.dor.com.pt/node/549).

Desafio de Caso 1

J.D., um adolescente de 15 anos, sofreu graves queimaduras ao tentar escapar de um incêndio em um prédio. As queimaduras extensas, de primeiro e segundo graus, estenderam-se por grande parte do corpo, incluindo uma queimadura local de terceiro grau no antebraço direito. J.D. chegou ao setor de emergência com dor intensa e foi tratado com morfina intravenosa em doses crescentes até relatar o desaparecimento da dor. Essa dose de morfina foi, então, mantida.

No dia seguinte, o paciente foi submetido a um debridamento cirúrgico das feridas causadas pela queimadura. Durante a operação, o anestesista administrou uma infusão intravenosa contínua de remifentanila e adicionou uma dose intravenosa em bolo de morfina, próximo ao término do procedimento. No final da cirurgia e nos quatro dias seguintes, J.D. recebeu morfina intravenosa por meio de um dispositivo de analgesia controlado pelo paciente.

À medida que as queimaduras foram cicatrizando, a dose de morfina foi reduzida de modo gradual e, por fim, substituída por um comprimido oral contendo a associação de codeína/paracetamol. Três meses depois, J.D. queixou-se de acentuada perda da sensação ao toque na área do enxerto cutâneo. Descreveu também uma sensação de formigamento persistente nessa área, com surtos ocasionais de dor aguda em facada. Após encaminhamento a uma clínica especializada em dor, J.D. recebeu gabapentina oral, que reduziu parcialmente os sintomas. Entretanto, retornou à clínica dois meses depois, ainda com dor intensa.

“Naquela ocasião, acrescentou-se amitriptilina à gabapentina, e o alívio da dor foi ainda maior. Três anos depois, a dor remanescente de J.D. desapareceu, e ele não necessitou mais dos medicamentos. A falta de sensibilidade no antebraço, no entanto, persistiu”, contou Tavares.

Questionamentos do caso - Que mecanismos produziram e mantiveram a dor de J.D., que durou desde sua exposição ao incêndio até o tratamento inicial?

A sensação inicial de dor foi mediada pelo calor por meio da ativação de neurônios periféricos de alto limiar termossensíveis que expressam nociceptores (receptores de dor). Tal estímulo nocivo (queimadura) levou à formação de mediadores inflamatórios como bradicinina, prostaglandina E2/I2 e outros agentes pró-inflamatórios, que contribuíram para a manutenção e amplificação da resposta inflamatória.

Importante o farmacêutico tentar avaliar os mecanismos que poderiam produzir dor espontânea na região da queimadura de terceiro grau no intervalo de meses a anos após a cicatrização do enxerto cutâneo, bem como o fundamento lógico para o uso da gabapentina no tratamento da dor crônica de J.D.

A lesão nervosa de J.D. culmina em alterações de sinais no neurônio responsável pela captação de dor e altera a fisiologia do sistema nociceptivo (responsável pela captação do estímulo doloroso). Alterações na expressão de genes, induzidas por esse processo, resultam no aumento da sensibilidade e atividades das fibras de dor e, por conseguinte, na percepção continuada da lesão, que é característica da dor neuropática.

A percepção desse processo, por parte do farmacêutico, é de suma importância, uma vez que diversos pacientes acometidos por essa complicação tardia se automedicam com MIPs, analgésicos (dipirona e paracetamol) e AINEs (Ibuprofeno e naproxeno). Assim, não conseguem obter êxito em sua terapia, se expondo a efeitos adversos e complicações associadas à terapia com AINEs (gastrite, úlceras gastroduodenais, distúrbios renais e complicações cardiovasculares).

Destaca-se que cabe ao profissional farmacêutico - no exercício de suas atribuições clínicas e munido de conhecimentos semiológicos, fisiopatológicos e farmacológicos - encaminhar o seu paciente ao serviço médico para tratamento da dor neuropática com medicamentos anticonvulsivantes (ex. citado no caso de J.D., a gabapentina) e antidepressivos (amitriptilina, duloxetina etc.).

Apesar de o caso reportar um episódio de dor neuropática pós-queimadura de terceiro grau, é necessário o estudo de diversos tipos de dor neuropática, bastante incidentes na população, como neuropatia diabética dolorosa, neuralgia pós-herpética, fibromialgia, entre outros.

“Por que a morfina teve sua dose reduzida gradualmente e foi substituída por um comprimido com associação de codeína e paracetamol?”, indagou o professor, que lança esse desafio para os profissionais farmacêuticos afetos da atuação clínica.

Ele mesmo explica que o uso de analgésicos opioides está frequentemente associado ao desenvolvimento de tolerância, em que o uso repetido de uma dose constante do fármaco resulta em diminuição do efeito terapêutico, requerendo aumento da dose ou frequência para manutenção da analgesia.

Também pode ocorrer dependência física, de modo que a interrupção abrupta do tratamento resulta no desenvolvimento de uma síndrome de abstinência característica. A adição, em que a dependência física é acompanhada de uso abusivo de substância ou de comportamento de busca da substância, constitui um efeito adverso potencial da administração de opioides.

Uma questão complexa no controle da dor, bem como um assunto de considerável controvérsia, é confrontar o risco de adição de opioides com o tratamento insuficiente da dor. Várias estratégias estão sendo investigadas para reduzir o potencial de uso abusivo, dentre eles o uso de profármacos, que são lentamente metabolizados ao agonista opioide ativo. No caso de J.D., a morfina intravenosa foi desmamada (reduzida gradualmente) e substituída por uma associação de analgésicos orais (codeína e paracetamol) para evitar o início dos sintomas de abstinência de opioides.

Curiosidade: famosos internacionais que foram vítimas de opioides

Prince - Cantor e compositor - Um dos reis do pop mundial, Prince foi encontrado morto em sua mansão em Minneapolis, estado de Minnesota, em 2016. A causa foi overdose de Fentanil, um analgésico opioide potente de efeito narcótico.

Elvis Presley – Cantor - A causa oficial da morte de Elvis foi arritmia cardíaca, mas o exame toxicológico comprovou a existência de 14 outras substâncias prescritas em seu corpo, incluindo morfina, barbitúricos, codeína e diazepam.

Anna Nicole Smith - Modelo e estrela de reality show - A polêmica ex-Playboy foi encontrada morta em um quarto de hotel na Flórida, em 2007. A causa foi uma mistura explosiva de remédios para dormir e metadona (opioide).

Philip Seymour Hoffman – Ator - Ele estava em filmagem de Jogos Vorazes e foi encontrado morto em seu apartamento em Manhattan, em 2014, devido a um coquetel letal de drogas legais e ilegais, que incluía heroína, cocaína, anfetaminas e tranquilizantes.

Desafio de Caso 2

A jovem, F.M.S., de 16 anos, foi recebida em consultório devido a cólicas menstruais. Sua menarca ocorreu aos 13 anos. Sua menstruação dura quatro a cinco dias, e ela tem ciclos de 28 dias.

Durante os primeiros dois a três dias de sua menstruação, ela afirma ter cólicas muito fortes. As cólicas têm ocorrido desde a menarca e parecem ter piorado no último ano. Elas são tão fortes, às vezes, que F.M.S. perde suas atividades de rotina.

Ela toma, por conta própria, parecetamol para cólica menstrual, sem alívio adequado. A jovem não tem nenhuma história clínica significativa de cirurgia prévia, uso de DIU, não toma medicamentos regularmente e não é sexualmente ativa. O problema foi avaliado como dismenorreia primária e foi prescrito Ibuprofeno pelo farmacêutico para o manejo dessa condição, o que resultou em controle das dores reportadas pela paciente.

Informações quanto à farmacoterapia da dismenorreia primária: para o tratamento farmacológico da dismenorreia, os principais medicamentos isentos de prescrição são os AINEs (Ibuprofeno, naproxeno e cetoprofeno), paracetamol e antiespasmódico (butilbrometo de escopolamina).

“No caso em questão, podemos observar a atuação do farmacêutico, desde a identificação até o tratamento farmacológico, de um problema de saúde autolimitado – dismenorreia primária, por meio da prescrição farmacêutica de um MIP”, explica o professor Tavares.

Em tempo, de acordo com a Resolução 585, de 29 de agosto de 2013, a prescrição farmacêutica é ato pelo qual o farmacêutico seleciona e documenta terapias farmacológicas e não farmacológicas, e outras intervenções relativas ao cuidado à saúde do paciente, visando à promoção, proteção e recuperação da saúde e à prevenção de doenças e de outros problemas de saúde.

Já o problema de saúde autolimitado é a enfermidade aguda de baixa gravidade, de breve período de latência, que desencadeia uma reação orgânica a qual tende a cursar sem dano para o paciente e que pode ser tratada de forma eficaz e segura com medicamentos e outros produtos com finalidade terapêutica, cuja dispensação não exija prescrição médica, incluindo medicamentos industrializados e preparações magistrais - alopáticos ou dinamizados -, plantas medicinais, drogas vegetais ou com medidas não farmacológicas.

Modelos de documentação

PRONTUÁRIO: a documentação do processo de cuidado deve ser feita em prontuário próprio para cada paciente, organizado de forma a manter o registro dos atendimentos e, portanto, a história farmacoterapêutica e clínica do paciente. Uma das formas mais comuns de registro, adotada por diferentes profissionais da saúde, é o modelo SOAP (do inglês subjective, objective, assessment, plan), que organiza as informações em dados subjetivos (S), objetivos (O), avaliação (A) e plano (P). O CFF (Conselho Federal de Farmácia) apresenta um modelo que permite a organização das informações dos pacientes e o registro de evolução.

Clique aqui e acesse o modelo de PRONTUÁRIO (Com indicações de preenchimento)

RECEITA: durante a prestação de serviços farmacêuticos, o profissional utiliza um raciocínio que culmina com a seleção da(s) melhor(es) conduta(s) que será(ão) documentada(s) por meio da receita e entregue ao paciente. Ela deve ser redigida em português, por extenso, de modo legível, observando-se a nomenclatura e o sistema de pesos e medidas oficiais, sem emendas ou rasuras, incluindo os componentes previstos no artigo 9º da Resolução 586, de 29 de agosto de 2013.

Clique aqui e acesse o modelo de RECEITA (Com indicações de preenchimento)

ENCAMINHAMENTO: quando o farmacêutico decide como conduta encaminhar o paciente a outro profissional da saúde, ele precisa garantir que tanto o usuário quanto o profissional compreendam o motivo da recomendação feita por ele. Entende-se que com esse procedimento o outro profissional compreende o raciocínio clínico utilizado pelo farmacêutico, bem como a conduta selecionada. O documento formaliza a comunicação com outros profissionais.

Clique aqui e acesse o modelo de ENCAMINHAMENTO (Com indicações de preenchimento)

Matéria publicada no Portal do ICTQ

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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