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6 INDICAÇÕES DE MÉDICOS SOBRE COMO OS FARMACÊUTICOS PODEM AJUDAR NO TRATAMENTO DOS PACIENTES

6 INDICAÇÕES DE MÉDICOS SOBRE COMO OS FARMACÊUTICOS PODEM AJUDAR NO TRATAMENTO DOS PACIENTES

Apesar das resoluções 585/2013 (que regulamenta as atribuições clínicas do farmacêutico) e 586/2013 (que regula a prescrição farmacêutica no Brasil), já é de se esperar que os profissionais médicos sintam certa insegurança com relação à atuação farmacêutica na área clínica. Mesmo assim, é fato que há o reconhecimento do valor do farmacêutico entre os médicos mais esclarecidos com relação aos cuidados do paciente, principalmente no que se refere à adesão ao tratamento e aos problemas relacionados aos medicamentos.

O médico e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Alberto de Castro Pochini (CRM 83428-SP), comenta que tudo depende da qualificação do profissional envolvido: “Os farmacêuticos são habilitados e conhecem medicamentos até melhor que os médicos, porém, eles necessitam de mais formação clínica”.

Já o oncologista, Ricardo Caponero (CRM 51600-SP), afirma que o farmacêutico pode agregar um valor inestimável na qualidade dos serviços públicos de saúde: “Na grande maioria das vezes, o médico informa ao paciente apenas a posologia, e não alerta para eventos adversos, interações medicamentosas etc”.

Palavra dos médicos para os farmacêuticos clínicos

Com base nas entrevistas exclusivas com os médicos Caponero e Pochini, foram eleitas seis dicas a serem seguidas pelos farmacêuticos clínicos interessados no trabalho multidisciplinar e na parceria entre médicos, farmacêuticos e pacientes.

1 – Precisamos de ajuda com a receita – O farmacêutico, após ter certeza de que o paciente fez uma consulta e que já tem um diagnóstico, pode nos ajudar solicitando a receita e conferindo a prescrição, principalmente com relação à apresentação mais adequada dos medicamentos prescritos para aquele paciente (cápsulas, comprimidos, fracionáveis, solúveis etc).

2 – Auxilie na pesquisa do histórico clínico do paciente – Após checar a receita, investigue todos os medicamentos prescritos por outros especialistas, já que esses pacientes podem ser polimedicados. Esse fato é pouco explorado nos consultórios médicos, principalmente nas emergências hospitalares, o que produz interações medicamentosas que podem ser evitadas com o apoio do colega farmacêutico. Tendo em mãos a lista de todos os medicamentos já utilizados pelo paciente, cruze possíveis duplicidades. Nem sempre o paciente relata ao médico sobre outros medicamentos em uso.

3 – Acione-nos quando necessário  Precisamos que o colega farmacêutico alerte sobre as interações potenciais entre os medicamentos da receita emitida e entre os itens combinados da prescrição com outras receitas anteriores de dos demais especialistas. Se for o caso, podemos fazer as substituições cabíveis ou orientar para que o farmacêutico as faça, dentro de suas atribuições legais.

4 – Dê suporte na orientação ao paciente – Em caso de interações medicamentosas, o paciente precisa ser orientado sobre o motivo da possível troca de prescrição e necessita ainda ser esclarecido sobre a ocorrência de eventos adversos. Muitas vezes, o paciente abandona o tratamento ou altera a posologia por conta própria, deixando de tomar alguma dose do dia por causa desses eventos. Lembre a ele de que, em sua grande maioria, esses eventos adversos já são esperados. Por isso, é fundamental colocar-se a disposição para fazer um acompanhamento farmacoterapêutico junto a esses pacientes.

5 – Explique sobre cada medicamento – Para garantir a adesão ao tratamento, é fundamental que o colega farmacêutico oriente sobre a melhor forma de uso de cada item da receita e de sua lista de medicamentos (em casos de polimedicados). Explique sobre a forma e os horários de tomada, principalmente para os medicamentos de uso oral. Se for o caso, faça uma tabela de horários para cada dia da semana. É fundamental o reforço da informação e o detalhamento feito pelo farmacêutico, inclusive com o fornecimento de informações específicas por escrito para que o paciente possa consultá-las posteriormente.

6 – Acompanhe o paciente  O colega farmacêutico precisa ser incisivo no sentido de avisar ao paciente que retorne em caso de problemas inesperados relacionados aos medicamentos, pois ele é o profissional de saúde que está na ponta da cadeia e que, na grande maioria das vezes, recebe esses pacientes primeiramente. Com o retorno, o farmacêutico pode verificar periodicamente se o paciente continua tomando seus medicamentos e averiguar, se for o caso, eventos adversos por toxicidade crônica cumulativa. Assim, o colega farmacêutico poderá efetuar os ajustes necessários ou encaminhar o paciente para o atendimento médico.

Pesquisa aponta necessidade de integração entre médicos e farmacêuticos

Pesquisa coordenada por farmacêuticos do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP), de 2011, acompanhou 28 pacientes da enfermaria do Hospital Universitário (HU) da USP, com idade média de 70 anos. Eles estavam hospitalizados devido às complicações relacionadas às doenças crônicas ou acometidos por infecção, com internação de cerca de dez dias e fazendo uso de extensa polifarmácia. O objetivo do estudo era identificar eventuais problemas com as receitas.

Nas prescrições, os erros mais frequentes encontrados eram terapêuticos (46,5%) e de procedimento (42,7%). No primeiro caso destacavam-se as interações medicamentosas potenciais (28,7% do total) e no segundo, erros de caráter geral (28,0%), como o não cumprimento das regras de prescrição segura, como faltas de espaço entre dose e unidade, receitas fora do sistema internacional de medidas, itens rasurados, entre outros. Além disso, medicamentos potencialmente inapropriados para idosos foram administrados a 21,4% dos enfermos.

Como resultado, a pesquisa apontou a necessidade de integração do profissional farmacêutico às equipes médicas, com destaque para a importância da atuação farmacêutica no cuidado da população e no processo de gerenciamento das receitas para minimizar os problemas relacionados a medicamentos, especialmente os erros de medicação e as possíveis reações adversas.

Para Pochini, o farmacêutico tem conhecimento específico sobre medicamentos e auxilia de maneira fundamental o trabalho do médico no cuidado do paciente e ainda garante a adesão ao tratamento. “Quero destacar a atuação do farmacêutico nas questões que envolvem o medicamento genérico e a eficácia da medicação. Além disso, ele pode realizar uma dupla checagem de efeitos colaterais e das alterações clínicas que prejudiquem o uso da medicação especifica”, comenta.

Já Caponero afirma que o farmacêutico completa o trabalho médico na medida em que esclarece as dúvidas, mas também pode colher dados de eventos adversos, ou seja, de farmacovigilância. “Acho que de todas essas potenciais atribuições, a mais importante e significativa seja a análise das interações medicamentosas e dessas com substâncias utilizadas em tratamentos complementares”.

Matéria publicada no Portal do ICTQ

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SAIBA O QUE É NECESSÁRIO PARA SER UM FARMACÊUTICO CLÍNICO NA PRÁTICA

SAIBA O QUE É NECESSÁRIO PARA SER UM FARMACÊUTICO CLÍNICO NA PRÁTICA

No Brasil há cerca de 76 mil farmácias e drogarias, de acordo com o Censo Demográfico Farmacêutico realizado pelo ICTQ – Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico. Nelas atuam quase 177 mil farmacêuticos!

O fato é que com a resolução 13.021/14, que constitui as farmácias como estabelecimentos de saúde, há, cada vez mais, vagas para farmacêuticos que atuem clinicamente nesses locais. O desafio não se dá apenas pela falta de profissionais no País, mas também pelo despreparo e inexperiência da maioria deles na atenção farmacêutica à população.

As mudanças históricas nos processos produtivos voltados para a produção de medicamentos e a influência dessas mudanças nos currículos acadêmicos convergiram para um profissional tecnicista, de conhecimentos adquiridos em blocos e desconexos e descontextualizados no que se refere à relação com a população, mantendo uma relação mais íntima com o produto (medicamento) do que com o usuário dele (paciente). “Com isso, o farmacêutico tornou-se um mero dispensador de medicamentos. Com esse novo contexto de farmacêutico clínico, esse profissional tem que ampliar seus conhecimentos para além dos medicamentos. O foco agora é o paciente. E isso demanda maior conhecimento por parte do profissional”, defende o professor do ICTQ, Clezio Rodrigues de Carvalho Abreu.

Falta preparo?

O farmacêutico clínico da Clinifar – Farmácia Escola do ICTQ em São Paulo-SP, Ronaldo Ribeiro, comenta que a formação do profissional na universidade não mantém na grade curricular uma farmácia clínica atuante na anamnese ou interpretação de exames laboratoriais. Ele pensa que um farmacêutico recém-formado não está apto a desenvolver a clínica nas farmácias e drogarias, nem mesmo na farmácia hospitalar.

“Se ele tiver interesse de exercê-la, uma pós-graduação em farmácia clínica é a base e princípio de preparo e formação. Apesar de os Conselhos de Farmácia não exigirem uma residência em farmácia, é fundamental procurar um curso que ofereça no mínimo aulas práticas, pois assim o farmacêutico terá bagagem de conhecimento teórico e prático”, ressalta ele. Vale lembrar que o mesmo Censo citado no início dessa matéria, descobriu que apenas 38,5% dos farmacêuticos entrevistados cursaram ou estão cursando uma pós-graduação.

Abreu observa ainda que falta formação que inclua conhecimentos e habilidades em boas práticas de prescrição farmacêutica, fisiopatologia, semiologia, comunicação interpessoal, farmacologia clínica e terapêutica. Esses conhecimentos podem promover o reencontro entre farmacêutico e paciente, para que possa novamente se responsabilizar pelo seu bem-estar e tornar-se um dos provedores de cuidados em saúde.

Sobram desafios

Para Ribeiro, o principal desafio é ser reconhecido pela classe médica, que não entende que o farmacêutico soma os serviços e não divide ou disputa o paciente. Para vencer esse desafio, é preciso demonstrar na prática para outros profissionais de saúde, o ganho no atendimento multidisciplinar, para o paciente e para todos os profissionais envolvidos no tratamento. Outro desafio importante é ser reconhecido pela população que perdeu ao longo dos últimos anos, a percepção de um farmacêutico voltado para os cuidados essenciais de saúde.

“Vejo outros colegas tendo dificuldade na atuação em grandes redes, onde não se reconhece o farmacêutico clínico. Isso evidencia que as vezes os proprietários assumem um posicionamento estritamente comercial, o que vão na contra mão das resoluções do Conselho federal de Farmácia (CFF)”, diz Ribeiro.

Ele lembra que, mesmo nas farmácias onde já se existe um consultório, há uma atuação muito rasa no âmbito clínico. Isso ocorre porque o perfil do farmacêutico que atua nessas drogarias não corresponde a necessidade de conhecimento e expertise para a atividade. “Hoje temos como aliar um bom faturamento a um atendimento ético, principalmente por meio de acompanhamento farmacoterapêutico, entre outras atividades”, relata.

O desafio de voltar à sala de aula!

Abreu descreve como um dos principais desafios encontrados pelos farmacêuticos a dificuldade em voltar a estudar depois da graduação. Muitas redes não liberam ou não flexibilizam a escala, outras vezes o próprio profissional avalia exaustivo trabalhar durante a semana e estudar no sábado a cada 15 dias. “O profissional farmacêutico precisa ter a consciência de que o processo de auto capacitação é um trabalho árduo, porém indissociável do profissional que trabalha com clínica e atendimento ao paciente. E é importante salientar que cursinhos online, mesmo aqueles vendidos como especialização, são insuficientes por não trazerem a oportunidade de aprendizado coletivo e prático”.

Existem ainda as dúvidas sobre a legalidade e durabilidade das resoluções do CFF, uma vez tão questionada pela classe médica. Abreu acredita que não há incertezas na legislação farmacêutica porque as resoluções disponíveis sobre a atuação clínica (Resoluções 585 e 586/13) já são uma realidade irreversível. “Já no tocante à insegurança, isso é o que predomina somente no meio farmacêutico que está em cima do muro. Não há insegurança nas resoluções, mas nas atividades de natureza técnica e na capacidade de fazer algo que no Brasil era feito só por médicos”, alerta.

Palavra de quem vive o dilema

A farmacêutica da rede de Drogarias Pacheco, em Rio das Ostras (RJ), Eniana Campolina, já teve certa prática clínica no passado pelo atendimento no balcão, que ela considerou um grande aprendizado, mas sente que o farmacêutico precisa de mais qualificação para isso. Por isso, atualmente ela não faz mais esse atendimento.

“Hoje, a todo o momento, somos procurados para fazer uma indicação, confirmar prescrição...e, sinceramente, não temos preparo para este tipo de atuação em saúde. Somos ainda muito despreparados para essa abordagem. Existe uma insegurança e muito pouco embasamento para que possamos nos movimentar livremente neste universo da clínica”, lamenta Eniana.

Para a profissional, é preciso mais conhecimento sobre patologia e diagnóstico, além de interações medicamentosas e alimentares, sem contar com a conscientização, por parte do farmacêutico, do seu papel educativo e psicossocial junto à população.

A maioria dos profissionais tem uma atuação deficiente pela falta de incentivo dos empresários e também porque grande parte deles ainda não se especializou, e prefere se esquecer da responsabilidade. “Precisamos também divulgar e dar mais credibilidade a esta vertente de nossa formação profissional”, acredita ela.

Fazer qualquer curso serve?

Ribeiro afirma que os cursos de curta duração ou ainda os treinamentos online, não acrescentam conhecimentos sólidos, apenas uma informação ou ideia a ser desenvolvida. Para ter conhecimento profundo para atuar no atendimento, é básico ser especializado em farmácia clínica. “Participar de programas de residência, ou ainda de especializações mais específicas em determinadas patologias e acompanhamentos farmacoterapêuticos pode trazer uma base mais sustentável para o profissional atuar no campo clínico”, diz ele.

Eniana concorda com Ribeiro: “vejo muitos cursos que existem para dar o diploma aos alunos, com conteúdos imensos, mas pouca prática e exercício para o preparo do profissional. A meu ver, a prática clínica farmacêutica exigiria uma residência, uma vivência interativa para trazer segurança aos profissionais em formação”. Ela gostaria muito de estar mais preparada e especializada para poder trabalhar atuante dentro da clínica com segurança.

Abreu acredita que o conteúdo teórico adquirido nos cursos de qualificação e pós-graduação em farmácia clínica é muito importante para a atuação prática do farmacêutico, mas de forma complementar. “A formação do farmacêutico para a prática clínica, de forma descontextualizada de seu local de trabalho, tem se mostrado uma forma ineficaz de tornar o cuidado farmacêutico uma realidade. Os profissionais, às vezes, até têm formação e conhecimento suficientes para a atuação em um consultório. O que falta a eles é justamente saber aliar esses conhecimentos a sua realidade dentro do varejo. Nesse contexto, a prática sempre será soberana”.

Superando os obstáculos

Abreu diz que os farmacêuticos precisam estar motivados com a ideia dessa nova atividade clínica, e buscar, de forma incansável, aliar essa clínica à prática do dia a dia. “É fundamental eles entenderem sua importância dentro do plano de cuidado e estimulando a interação entre a categoria de clínicos para alavancar sua implantação. Eu observo que apenas com a união, a motivação e o esforço coletivo é possível mostrar a importância do trabalho clínico e a implantação de sua prática no sentido de ocupar seu lugar no cuidado ao paciente no varejo farmacêutico”.

É preciso levar em consideração o reconhecimento das fronteiras de atuação dentro do consultório, jamais a avaliação farmacêutica deve ser fragmentada e restritiva. Pelo contrário, uma avaliação integral do paciente pelo farmacêutico permite a identificação da necessidade do compartilhamento do caso com outros profissionais de saúde, gerando um cuidado interdisciplinar e até transdisciplinar.

Os 9 desafios que o farmacêutico clínico precisa vencer em 2017

1 - Descrédito sobre a validade, no médio e longo prazo, das resoluções acerca das atribuições clínicas do farmacêutico;

2 - Ausência de conhecimento no que se refere às patologias e farmacologia;

3 - Ausência de exercício prático em aulas de campo ou residências;

4 - Falta de autoconfiança para a prática dos serviços farmacêuticos;

5 - Acomodação na zona de conforto e ausência de empreendedorismo para se propor a realização dos serviços clínicos aos gerentes e empregadores;

6 - Medo das críticas por parte dos profissionais de medicina;

7 - A visão e entendimento estreito de que terá que trabalhar mais, com maiores responsabilidades e com o mesmo salário;

8 - Falta de condições físicas e falta de investimentos por parte de empregadores, para a realização da prática clínica na farmácia;

9 - Ausência de harmonização entre regulamentações do Conselho Federal de Farmácia e ANVISA, principalmente na classificação dos medicamentos e funcionamento dos consultórios farmacêuticos.

Matéria publicada no Portal do ICTQ

CONFIRA 10 PASSOS NA SEMIOLOGIA E ANAMNESE PARA PRESCRIÇÃO EM CLÍNICA FARMACÊUTICA

CONFIRA 10 PASSOS NA SEMIOLOGIA E ANAMNESE PARA PRESCRIÇÃO EM CLÍNICA FARMACÊUTICA

Por Egle Leonardi

A prescrição farmacêutica está regulamentada pela Resolução 586, do Conselho Federal de Farmácia (CFF), de 29 de agosto de 2013. É fato que as leis, decretos, portarias e resoluções cumprem dois aspectos: são disciplinadores (agindo preservando direitos e deveres) ou são documentos que ensejam um desafio a ser cumprido. Para o professor de Atenção Farmacêutica na pós-graduação do ICTQ, Alexandre Massao Sugawara, a Resolução 586 se encaixa na última classificação: “é o produto histórico de luta dos farmacêuticos e se configura como uma carta de desafio posta a nós mesmos para a sua plena execução”. Assim, a Resolução 586 deve ser vista de forma provocativa, desafiando o farmacêutico para a sua plena capacitação e a plena execução dessa atividade clínica, que tanto beneficia a população.

Alguns players do mercado varejista já dispõem de consultórios prontos para a prática de prescrição dentro da farmácia. Para a coordenadora técnica farmacêutica das Farmácias Pague Menos e responsável técnica pelos programas Clinic Farma e SAC Farma, Cristiane Feijó, a população entende perfeitamente a finalidade e o objetivo das clínicas farmacêuticas. Ela diz que o acompanhamento e a orientação de saúde e do tratamento prescrito são uma necessidade real da comunidade, e as linhas que separam as competências devem ser sempre respeitadas e enaltecidas para que a equipe multidisciplinar possa ajudar a recuperação da saúde e a diminuição dos agravos. “O farmacêutico, na maioria das vezes, consegue conversar por mais vezes e ter maior contato com o cliente após a prescrição médica, e os serviços farmacêuticos; como o Clinic Farma, das Farmácias Pague Menos; ajudam muito na adesão ao tratamento e na melhoria do quadro de saúde do cliente”, ressalta

Atenção a cada passo

Dentro de um consultoria farmacêutico de drogaria, para uma semiologia e anamnese seguras, responsáveis e documentadas por meio de uma prescrição, são necessários alguns passos. O International Pharmaceutical Federation (FIP) elaborou um documento para padronizar as Boas Práticas de Farmácia, que abrange atividades para incentivar o autocuidado, incluindo o aconselhamento aos usuários e, quando apropriado, a indicação de tratamentos medicamentosos para aliviar desconfortos e enfermidades leves.

O farmacêutico deve estar atento ao histórico médico do usuário, para dispensar medicamentos seguros, eficazes e de qualidade em colaboração com os outros profissionais para promover saúde. A anamnese, tanto feita por médicos ou por farmacêuticos segue o mesmo princípio inicial, que é conhecer a história clínica do paciente. E começa sempre com:

1. Identificação do paciente: nome, idade, data de nascimento, filiação, estado civil, raça, sexo, religião, profissão, naturalidade, procedência, endereço e telefone;

2. Queixa principal: descrição sucinta da razão da consulta;

3. História da doença atual: relato do adoecimento, início, principais sinais e sintomas, tempo de duração, forma de evolução, consequências, tratamentos realizados, internações e outras informações relevantes;

4. História familiar: doenças pregressas na família, estado de saúde dos pais, se falecidos, a idade e a causa, principal ocupação dos pais, quantos filhos na prole e forma de relacionamento familiar. Nas avaliações psiquiátricas é fundamental registrar a existência de doença mental na família;

5. História pessoal: informações sobre gestação, doenças intercorrentes da mãe durante a gestação, doenças fetais, parto, condições de nascimento, evolução psicomotora com informações sobre idade em que falou e andou; doenças intercorrentes na infância, ciclo vacinal, aprendizado na escola, sociabilidade em casa, na escola e na comunidade; trabalho, adoecimento no trabalho, relações interpessoais na família, no trabalho e na comunidade; puberdade, vida sexual e reprodutiva, menopausa e andropausa; se professa alguma religião e qual; doenças preexistentes relacionadas ou não ao atual adoecimento; situação atual de vida;

6. História médica pregressa: focar em doenças ou medicamentos que podem causar os sintomas;

7. Revisão por sistemas: outros órgãos que podem ser afetados e que sinalizem casos de maior gravidade e complexidade;

8. Quais os medicamentos que o paciente está fazendo uso no momento:

  • Data em que iniciou a utilização
  • Para medicamentos, recomenda-se documentar por princípios ativos, em vez de especialidades farmacêuticas. Em sessões clínicas, podem-se
  • utilizar as especialidades dentro da documentação interna.
  • Posologia (por ex. se o paciente toma um comprimido pela manhã e um a noite, deve-se registrar da seguinte forma 1-0-1).

Após a análise dos dados, o farmacêutico pode chegar a uma das conclusões:

9. O paciente necessita de atendimento médico;

  • Isso acontece se o paciente pertencer a um grupo de risco (gestantes, lactantes, recém-nascidos, crianças, idosos);
  • Se o problema relatado não poder ser tratado pelo farmacêutico com a utilização de medicamento isento de prescrição (MIP);
  • Se estiver ocorrendo reação adversa a outro medicamento que o paciente utiliza;
  • Se os sintomas estiverem associados à outra doença.

10. O paciente não necessita de atendimento médico.

  • O farmacêutico deve fazer uso de medidas não farmacológicas ou tratamento com MIPs.

Uma nova visão clínica

Sugawara faz o alerta aos farmacêuticos de que as farmácias precisam mudar de uma visão puramente mercadológica para uma visão clínica, entendendo não como um ponto de venda, mas como um estabelecimento de saúde. “Mudanças organizacionais, operacionais e estruturais devem ocorrer em toda a farmácia, onde a tomada de decisão passa a ser mais amplamente baseada não só numa visão financeira, mas também clínica e humanística. Para fazer cumprir a demanda da sociedade necessitamos de um farmacêutico forte, clínico e prescritor”, lembra ele.

No curto prazo, de acordo com Sugawara, a clínica farmacêutica passa pela sensibilização da classe farmacêutica em busca de sua plena capacitação à demanda. Ele considera importante a sensibilização dos players do mercado varejista farmacêutico por esta nova atividade e tudo que ela acarretará em mudanças organizacionais, operacionais e estruturais na nova farmácia. Também é fundamental dialogar com várias entidades e outras classes profissionais para entender sobre o que se trata a farmácia clínica e a prescrição farmacêutica.

Para Cristiane, a prática farmacêutica requer muito estudo, comprometimento e cuidado verdadeiro com o outro. O nível técnico será cada vez mais determinante para valorização e remuneração do profissional e não mais apenas a necessidade de ter a presença física de um farmacêutico por imposição legal para evitar multas. O caminho já está sendo construído e não existe volta. O bom prescritor médico terá no cuidado farmacêutico a certeza de acompanhamento eficaz e maior probabilidade de adesão ao tratamento prescrito. “Essa parceria libera o prescritor para novas consultas e o presenteia com os relatórios de acompanhamento necessários para a melhoria da saúde do cliente realizado pelo farmacêutico, conforme a RDC 44 pois, a cada consulta farmacêutica o cliente receberá a declaração do serviço prestado, e as informações devem ser compartilhadas com seu médico ou outro profissional da saúde que o acompanhe”, afirma ela.

O farmacêutico precisa resgatar a habilidade de ser um excelente ouvinte e a entender que o aumento do volume de trabalho e as responsabilidades vêm da demanda da comunidade e de imposições legais. “Todos os deveres são compartilhados e, independentemente da função exercida na farmácia, os profissionais que têm a formação de farmacêutico clínico são corresponsáveis por tudo que ocorre no ambiente de trabalho e que possa ser um risco sanitário. Quem acredita, trabalha e cresce!”, finaliza Cristiane.

Matéria publicada no Portal do ICTQ

FARMÁCIAS: DRUGSTORE OU ESTABELECIMENTOS DE SAÚDE?

FARMÁCIAS: DRUGSTORE OU ESTABELECIMENTOS DE SAÚDE?

Em um dia típico de afazeres domésticos, uma dona de casa anota em sua lista de compras os locais que deverá visitar e os itens (ou serviços) necessários para abastecer sua casa:

- Supermercado - biscoitos, macarrão instantâneo, sorvetes, lasanha congelada, bebida láctea, chá, refrigerante, frutas, gelo e energético;

- Petshop – ração, petiscos, coleira e medicamento para o puppy;

- Loja de suplementos – whey protein. Lembrete: perguntar ao nutricionista da loja se pode usar antes e depois da musculação;

- Papelaria – tirar xerox, enviar fax, plastificar o caderno e imprimir as fotos do passeio de final de semana;

- Farmácia - medicamentos previstos em prescrição médica e medicamentos que serão prescritos pelo farmacêutico para desconforto estomacal.

Eu pergunto: pareceria absurdo se esta dona de casa decidisse simplesmente ir a uma drogaria para resolver todas estas pendências de sua família? Pode parecer, mas não é. Empreendimentos no mercado farmacêutico com conceito de drugstores já são uma realidade no País e eles avançam na medida em que o consumidor busca por mais conveniência, além da devida atenção farmacêutica - obrigatória nesses estabelecimentos.

Eu diria àqueles que acreditam que na farmácia deve-se apenas vender produtos e serviços estritamente ligados à saúde de um paciente: não se assustem! O portfólio de itens vendidos em algumas drogarias no Brasil, essas drugstores, inclui a lista da dona de casa citada no início desta matéria, e muito mais. Já é possível comprar brinquedos, produtos de limpeza doméstica, itens veterinários, produtos eróticos, livros, equipamentos de academia, além dos tradicionais produtos de perfumaria em geral e os dermocosméticos em áreas especificas. Ah...esses estabelecimentos vendem medicamentos também!

Curiosidades à parte, as drugstores têm a comercialização de produtos não farmacêuticos protegida por leis específicas de cada Estado. Redes como a Pague Menos (com atuação nacional, mas presença mais expressiva no Nordeste) e a Araújo (com grande projeção em Minas Gerais) são exemplos de estabelecimentos fortemente baseados na venda dos produtos citados na lista da dona de casa do início da matéria.

Vale lembrar que esse modelo foi importado e é muito difundido em vários países desenvolvidos, especialmente nos Estados Unidos, onde o Food and Drug Administration (FDA - órgão governamental americano parecido com a Anvisa) exerce controle rígido nas farmácias locais, mas libera a venda de artigos de conveniência de maneira muito ampla. No entanto, o controle da venda de medicamentos é extremamente acirrado e a dispensação efetuada em área reservada, com a presença obrigatória de farmacêuticos prescritores. As gigantes farmacêuticas americanas Wallgreens e CVS não têm o menor problema em vender itens de hortifruti em seus estabelecimentos. No entanto, seria quase impossível comprar um anti-inflamatório sem uma conversa com um farmacêutico em seu balcão especial identificado ou em sua clínica reservada dentro do estabelecimento.

A CVS (que entrou no Brasil por meio da compra da Rede Onofre) já tenta também implementar em nosso País, o conceito de drugstore premium, privilegiando artigos de luxo, destinados às classes mais altas. Claro que os modelos brasileiros praticados atualmente estão longe dos utilizados nos Estados Unidos, mas os negócios nacionais estão a caminho com bons empreendimentos neste sentido.

Drugstore versus estabelecimento de saúde

No Brasil, mesmo em Estados onde a venda de macarrão instantâneo não é permitida nas farmácias, os empresários gostariam de rentabilizar seus negócios com esse tipo de produto. O rígido controle que o Governo Federal mantém sobre a política de preços dos medicamentos praticada pelo setor, reduz drasticamente sua margem de lucro, levando os estabelecimentos farmacêuticos a buscar alternativas que minimizem o impacto da política governamental.

Assim, ao longo dos anos, para viabilizar suas atividades, as farmácias e drogarias passaram a prestar serviços de interesse do consumidor, tais como recebimentos de contas de água, luz e telefone, revelação de fotos, disponibilização de terminais de bancos 24 horas, entre outros. É uma estratégia de mercado adotada também como forma de sobrevivência, principalmente nos Estados onde o conceito de loja drugstore ainda é um tabu.

É importante a ressalva de que o modelo de negócios de uma farmácia conhecida drugstore não é antagônico à proposta de uma drogaria como estabelecimento de saúde. Aliás, como acontece nos países desenvolvidos, a drugstore e o conceito de estabelecimento de saúde se convergem e vivem em plena harmonia no mesmo ambiente.

A Pague Menos é outro exemplo. Mesmo se posicionando como drugstore, a Rede não negligencia os serviços de atenção farmacêutica aos seus clientes. Prova disso é que vem implementando em suas unidades, clínicas de consulta farmacêutica, cujo objetivo é assessorar o cliente para conseguir a máxima efetividade da farmacoterapia. “Atenção farmacêutica é uma arma poderosa que transforma e melhora a qualidade da saúde de uma comunidade, resultando em benefícios para os clientes, como um atendimento personalizado, melhor controle da doença e maior facilidade em seguir o plano de cuidado elaborado”, fala o presidente da rede, Deusmar Queirós.

Ele enfatiza que as clínicas, do ponto de vista do farmacêutico, proporcionam fidelização do cliente e satisfação ao aplicar conhecimentos e habilidades. Para a farmácia, acarretam em maior fluxo de clientes e diferenciação perante os concorrentes. Para os médicos, há a certeza de que terão pacientes mais cumpridores do tratamento e acompanhados com maior frequência por profissional de saúde e a promoção do uso racional de medicamentos.

Essas clínicas da Pague Menos incluem sala com layout específico para consulta farmacêutica, programa na intranet para os farmacêuticos que vão prestar este serviço aos clientes, capacitação e muitas ações em saúde. Elas já foram implantadas em todo o País em mais de 30 filiais da rede e a previsão é que cheguem a mais de 200 até o final do ano. “A população vem respondendo de maneira positiva e sempre procurando os serviços farmacêuticos. Não sentimos resistência nem desconfiança. São mais de cinco mil clientes satisfeitos com os resultados do acompanhamento farmacêutico”, ressalta o presidente da rede.

Opinião pública sobre as drugstores

“Eu uso medicamentos para controlar a pressão arterial e venho frequentemente à farmácia. Para mim é muito prático poder comprar também a ração para meu gato e ainda levar o molho de tomate para completar o almoço”, comenta a aposentada Berenice de Souza, de Belo Horizonte (MG), cliente da Drogaria Araújo. Esta é uma percepção comum em Estados como Minas Gerais.

No entanto, é fundamental citar que pesquisas do ICTQ/Datafolha, em 2012 e 2014, revelam uma profunda transformação na percepção do consumidor sobre o que é o estabelecimento farmacêutico.

Em 2012, apenas 16% da população brasileira viam a farmácia como estabelecimento de saúde. Em 2014 este índice saltou para 87%. Em contrapartida, em 2012, 84% da população viam as farmácias como drugstores - minimercados, lojas de conveniência e de cosmético e perfumaria. Em 2014 este índice caiu para 65%.

De acordo com o diretor de Pesquisa do ICTQ, Marcus Vinicius de Andrade, esse substancial crescimento de 33 pontos percentuais na visão do consumidor, tendo a farmácia como estabelecimento de saúde, se deve também aos debates sobre o tema nos principais veículos de imprensa do País; à resolução do Conselho Federal de Farmácia (CFF), que autoriza o farmacêutico a prescrever determinados tipos de medicamentos; e à aprovação da Lei Federal 13.021, de agosto de 2014, que garante a presença do farmacêutico nas farmácias e ainda conceitua o local como estabelecimento de saúde.

Mediante a flutuação da opinião pública sobre o melhor modelo de farmácia a ser adotada no Brasil, Andrade dá uma dica aos farmacêuticos e empresários do setor: convergir o conceito drugstore com o conceito de estabelecimento de saúde em farmácias e drogarias é a forma mais inteligente de rentabilizar os negócios e ainda valorizar a posição do profissional farmacêutico frente à população que, cada vez mais, anseia por prestação de serviços em saúde.

Matéria publicada no Portal do ICTQ

SAIBA DE QUE MANEIRA OS CONSULTÓRIOS VIRARAM REALIDADE PARA FARMACÊUTICOS

SAIBA DE QUE MANEIRA OS CONSULTÓRIOS VIRARAM REALIDADE PARA FARMACÊUTICOS

 

Embora parte dos pacientes e clientes de farmácias ainda desconheça o atendimento personalizado realizado por farmacêuticos em seus consultórios, desde 2014 muitas farmácias no Brasil passaram a dispor de espaço para esse serviço, o que já é uma realidade comum em muitos países. Nos consultórios farmacêuticos, o profissional tem autonomia para avaliar os medicamentos que o paciente está tomando, se há riscos de interações medicamentosas, indicar medicamentos isentos de prescrição (MIP), entre outras atribuições.

“A consulta farmacêutica é uma alternativa para melhorar a saúde dos pacientes baseada em critérios científicos e mediante protocolos firmados entre outros prescritores habilitados – no caso de medicamentos que demandam prescrição médica, sendo tudo isso feito por meio de registros documentados. Tendo em vista que, segundo as resoluções do Conselho Federal de Farmácia (CFF) 585 e 586, o farmacêutico clínico pode fazer parte da equipe multidisciplinar de saúde”, conta o farmacêutico, aluno da pós-graduação de Farmacologia Clínica e Prescrição Farmacêutica do ICTQ – Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico, João Alves.

Dessa forma, mediante registro no respectivo Conselho Regional de Farmácia, o farmacêutico fica legalmente habilitado a proceder consulta farmacêutica. Alves é considerado um profissional de sucesso em seu setor. Ele afirma que sempre tenta antever aquilo que a população necessita. Ele ouve as pessoas com atenção e está em permanente busca por informação e conhecimento. O Portal de Conteúdo do ICTQ publicou matéria sobre ele, intitulada Ele foi balconista da farmácia e hoje tem uma clínica farmacêutica (leia aqui).

O conceito de consultório farmacêutico foi definido em duas portarias do CFF publicadas em 2013 e a existência desse espaço é também apoiada pela Lei 13.021, de agosto de 2014, que dispõe sobre o exercício das atividades farmacêuticas. Assim, legalmente os farmacêuticos estão preparados para exercer atividades em consultório, no entanto, a qualificação é fundamental.

Anamnese

Uma das habilidades que o farmacêutico precisa desenvolver, constantemente, para a realização de consultas é a anamnese. Essa habilidade de usar a informação para obter conhecimento e tomar decisões deve acompanhar o profissional em todos os momentos de sua atuação nesse segmento. A capacidade de raciocínio clínico em saúde se conhece por semiologia, que, em outras palavras, refere-se ao ato de investigar e estudar sinais e sintomas apresentados pelo paciente, à luz dos conceitos da profissão. A semiologia é base para se formular um diagnóstico clínico.

Muitos farmacêuticos têm dúvidas sobre o processo de semiologia. Mas, afinal, ele pode colocar a mão sobre o paciente? “Na verdade, o farmacêutico, para fazer um processo de semiologia, ele necessita de instrumentos para tal. Um desses instrumentos é o estetoscópio, para poder verificar a pressão arterial, para poder fazer a ausculta – se esse paciente tem algum problema pulmonar, que acho não ser simplesmente falta de um xarope para tosse, e eu poder encaminhá-lo de forma inscrita para um médico. O farmacêutico tem que utilizar, não só esse, como outros instrumentos para visualizar os sinais e sintomas desse paciente”, explica o farmacêutico especialista em Atenção Farmacêutica e professor do ICTQ, André Schmidt.

Segundo Schmidt, para fazer a anamnese existem métodos que o farmacêutico deve adotar. O mais utilizado é o SOAP, cuja sigla indica as etapas do atendimento: é algo subjetivo (vem da história relada pelo paciente) e objetivo. Para isso é necessário conhecimento de habilidades clínicas para solicitar exames clínicos e físicos; em seguida o profissional faz a avaliação, a partir da síntese dos dados, para, ao final, traçar um plano terapêutico.

Serviços e exames

Alves detalha, à reportagem, os serviços que podem ser realizados em consultório farmacêutico. “Além da dispensação de medicamentos, uma farmácia pode oferecer os serviços farmacêuticos de perfuração de lóbulo auricular, aferição de parâmetros fisiológicos (pressão arterial e temperatura corporal) e bioquímicos (glicemia capilar), administração de medicamentos”, conta. Além disso, o farmacêutico pode também solicitar exames para fins de monitoramento terapêutico ou até mesmo para uma triagem e encaminhamento aos profissionais médicos, quando necessário.

Testes rápidos

Em julho de 2019, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) promoveu uma consulta dirigida com o objetivo de levantar dados sobre a prestação de serviços de assistência à saúde em farmácias do País. Entretanto, o segmento tem demandado outros serviços que podem ser feitos nas farmácias, como os exames realizados próximo ao paciente, apelidados de testes rápidos, os chamados Testes Laboratoriais Portáteis (TLPs) – do inglês Point-of-Care Testing (POCT).

Os TLPs são definidos como exames que podem ser executados fora do espaço físico de um laboratório. Uma vez que não necessitam de transporte ao laboratório, os TLPs proporcionam rapidez, agilizando a abordagem ao paciente, bem como possibilitando intervenções imediatas em situações em que há risco de morte.

“A legislação atual, apesar de obsoleta, só permite teste de glicemia capilar. Então, dentro da bioética, devemos seguir a lei. Não praticamos outros testes rápidos, solicitamos ao laboratório quando necessário. Inclusive a RDC 44/09 está na agenda da Anvisa para revisão urgente, onde temos a expectativa da ampliação dos parâmetros farmacêuticos a serem ofertados nas farmácias”, fala Alves.

“O futuro da profissão é a prática clínica. Eu tenho certeza de que conseguiremos galgar muito espaço, assim como afirmo que o farmacêutico é uma das profissões do futuro”, destaca Schmidt. Para esse futuro, não tão distante, Alves considera que o farmacêutico necessita de qualificação profissional, reciclagem técnica, aplicação correta da anamnese farmacêutica, estrutura adequada para garantir a integridade, individualidade, sigilo e conforto do paciente.

A seguir, confira a entrevista exclusiva com o farmacêutico e professor do ICTQ, André Schmidt, falando sobre consulta farmacêutica.

ICTQ - A resolução 585, de 2013, do CFF, menciona que o farmacêutico deve atender em consultório farmacêutico para privacidade do atendimento. Mas o farmacêutico pode ter um consultório?

André Schmidt – A resolução 585 fala claramente sobre as atribuições clínicas do farmacêutico e nela prevê que o farmacêutico deve prover consultas farmacêuticas em ambiente privado, e esse ambiente privado é um consultório. Farmacêutico deve, com certeza, atender dentro de um consultório.

ICTQ - Além disso, a norma diz que ele está autorizado a realizar anamnese e verificar sinais e sintomas do paciente. Essa anamnese é a mesma realizada por médicos?

André Schmidt – Isso mesmo. Eu costumo sempre brincar que a anamnese é um processo de trazer à tona tudo aquilo que o paciente irá nos informar. Ele vai explicar qual é a queixa principal, quanto tempo ele se encontra com essa patologia, com esse problema de saúde, e, após isso, irei fazer um processo de semiologia – avaliar os sinais e sintomas dele. É o mesmo processo para a medicina, para a fisioterapia, para nutrição, para enfermagem. É o mesmo processo tanto para farmacêutico como para médico.

ICTQ - O farmacêutico pode solicitar alguns exames laboratoriais para acompanhamento farmacoterapêutico? Esses exames podem ser realizados dentro do estabelecimento farmacêutico?

André Schmidt – O farmacêutico pode solicitar vários exames para acompanhamento farmacoterapêutico. Por exemplo, se o paciente for diabético, pode ser solicitado uma hemoglobina glicada e glicemia de jejum. Para pacientes com perfil lipídico, com dislipidemia, eu vou pedir todo o perfil lipídico, HDL, LDL e triglicérides para poder avaliar. Posso pedir também exames complementares para avaliar a farmacocinética desse paciente para ver como que está a função renal e a função hepática. O farmacêutico tem uma gama de exames que ele pode solicitar no âmbito de sua profissão.

ICTQ - Qual o cenário atual dos farmacêuticos assumindo o papel de profissional da saúde após a publicação das resoluções 585 e 586?

André Schmidt – Essa publicação, que é desde 2013, está dando autonomia para o farmacêutico não estar focado no produto, ou seja, no medicamento, e ficar focado no serviço e no paciente, fazendo com que esse paciente recupere a saúde, faça uma promoção da saúde e melhore os seus hábitos de vida, inclusive.

Matéria publicada no Portal do ICTQ 

POR QUE OS MEDICAMENTOS SÃO FATOR DE SOBERANIA NACIONAL? ENTENDA!

POR QUE OS MEDICAMENTOS SÃO FATOR DE SOBERANIA NACIONAL? ENTENDA!

O medicamento é um fator primordial de soberania nacional. É um dos pontos mais sensíveis na saúde de qualquer nação, já que protagoniza o processo da cura. Apesar da disponibilização de qualquer tecnologia em hospitais, laboratórios e farmácias, sem o medicamento adequado não há, na maioria das vezes, um tratamento. Por conta disso, os laboratórios oficiais exercem uma função primordial no acesso da população à saúde, na medida em que fornecessem medicamentos que suprem necessidades específicas da população, tendo o farmacêutico como peça-chave nesse processo.

O professor, PhD, Marcos Antônio Salvo Coimbra, ilustra bem isso: "São condições básicas para um País ser independente no mundo de hoje: a autossuficiência em alimentos, energia, transporte e medicamentos". Considerando que, por mais moderna que seja qualquer tipo de estrutura hospitalar, após a conclusão de um diagnóstico médico, o medicamento prescrito se constituirá no vetor da cura, já que será o responsável pelas ações farmacológicas previstas e necessárias em qualquer tipo de substrato orgânico, seja humano ou animal.

O medicamento, portanto, se traduz como um dos elementos mais sensíveis nos programas de saúde pública de qualquer nação, já que protagoniza o processo da cura, ou seja, se o medicamento certo não for oportunamente ofertado para aquela doença ou ocorrência específica, o tratamento será inconsistente. É o que afirma, com exclusividade ao Portal do ICTQ - Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico, o coronel farmacêutico da Aeronáutica, Manoel Rodrigues Martins, com a propriedade de quem já dirigiu o Laboratório Químico-Farmacêutico da Aeronáutica (LAQFA), entre 2003 e 2007.

Para ele, a aquisição de medicamentos, sejam de referência ou genéricos, produzidos pelas multinacionais farmacêuticas, está amplamente comprometida em função do alto preço praticado nas farmácias no Brasil (principalmente no caso de doenças que exigem tratamento continuado, como as doenças cardiovasculares, metabólicas, inflamatórias e psiquiátricas). A demanda é rigidamente inelástica em relação ao preço.

“Por conta disso, e sem visar qualquer lucro, os laboratórios farmacêuticos oficiais federais (onde estão inseridos o Laboratório Farmacêutico da Marinha (LFM), o Laboratório Químico e Farmacêutico do Exército (LQFEX) e o LAQFA, além dos laboratórios farmacêuticos oficiais estaduais), têm exercido uma função primordial, pois têm permitido o acesso da população a diversas classes de medicamentos, suprindo necessidades específicas nesse aspecto. Imperioso, aqui, destacar a participação do profissional farmacêutico como peça-chave no contexto desse processo”, ressalta Rodrigues.

Mesmo o Brasil tendo o maior número de farmácias e drogarias do mundo, e uma população de mais de 216 milhões de habitantes, o País não participa do ranking dos principais laboratórios produtores de marcas, ou seja, de princípios ativos farmacológicos, entre os quais: Abbot, Astra Zeneca, Bayer, Boehringer Ingelheim, Bristol-Meyers-Squib, Eli Lilly, Glaxo-Smithkline, Johnson & Johnson, Merck & Co, Merck Sharp & Dome, Pfizer, Roche, Sanofi-Aventis, Takeda e Teva.

“Convém lembrar que a indústria farmacêutica é de transformação e atua no processamento dos princípios ativos e de insumos farmacêuticos para a obtenção de uma fórmula e de uma forma farmacêutica específicas. Já a indústria de química fina, de tecnologia de ponta, trabalha na obtenção de princípios farmacêuticos ativos, os quais irão operacionalizar a ação farmacológica necessária em um substrato orgânico específico”, comenta Rodrigues.

O Brasil é, atualmente, um grande importador de princípios ativos farmacêuticos, uma vez que sua indústria de química fina é ainda incipiente. Isso remete a riscos de desabastecimento de alguns medicamentos, como já aconteceu no passado, incluindo os chamados ‘produtos órfãos’ (drugs negleted for diseases), correspondendo àqueles medicamentos para tratamento de doenças típicas de um país tropical, mas sem incidência em países europeus.

Produtores de Insumos dominam mercado mundial

De acordo com Rodrigues, a pesquisa de um único farmoquímico exige tecnologia de ponta, profissionais multidisciplinares e robôs de alta complexidade até a finalização do produto. Destaca que, em cada cinco mil linhas de pesquisa, em torno de apenas duas chegam ao consumidor como produto pronto. Essa tecnologia poderá consumir entre oito a dez anos de pesquisa para ser sintetizada, com um custo médio estimado em torno de US$ 2 bilhões (R$ 8,9 bilhões).

Ainda segundo ele, para que o Brasil se torne, em algum momento, referência como indústria de química fina - indústria farmacêutica para a fabricação de princípios farmacologicamente ativos -, serão necessárias a implantação de gestões políticas governamentais, a criação de uma massa crítica para profissionais multidisciplinares nessa área específica, o redirecionamento de verbas e a definição de prioridades, principalmente, com foco em doenças típicas de um país tropical.

Mercado farmacêutico

Além da dependência crônica de farmoquímicos, um fato que atua negativamente no mercado farmacêutico brasileiro é o excessivo número de farmácias e drogarias no Brasil, que não obedece a qualquer tipo de critério para sua abertura, de acordo com Rodrigues. “Qualquer pessoa, em qualquer lugar, independentemente da existência de outras drogarias e farmácias, pode abrir um novo estabelecimento dessa categoria, ou seja, existe total facilidade para se abrir uma nova drogaria ou farmácia. Além disso, não é avaliado pelos órgãos municipais e até sanitários o impacto que isso irá gerar em estabelecimentos já em funcionamento”, lamenta ele.

O militar reforça que o profissional farmacêutico possui uma formação acadêmica que o qualifica para o trato com o medicamento, além das orientações pertinentes sobre o seu uso, defendendo a criação dos ambulatórios de farmácias para a orientação ao paciente sobre o uso correto do medicamento no momento do aviamento da receita.

Esse procedimento, certamente, será um fator decisivo para evitar riscos no uso inadequado dos medicamentos. Com isso, certamente, o risco do uso inadequado da medicação será minimizado.

Protagonismo farmacêutico

Reiterando ao que fala o coronel Rodrigues, da importância seja da produção de medicamentos para a soberania nacional, quanto do protagonismo farmacêutico nos tratamentos de saúde, oferecendo, principalmente, orientação técnica para melhor efetividade de determinado tratamento, o diretor do Departamento de Gestão Hospitalar (DGH), do Ministério da Saúde, Marcelo Lambert, responsável por coordenar os seis hospitais federais do Rio de Janeiro, aproveitou para abordar as oportunidades recentes que os farmacêuticos vêm tendo ao se colocar como peça importante e indispensável nas equipes de saúde.

Segundo Lambert, o Ministério tem muitas oportunidades para este profissional, passando inclusive por um processo de aposentadorias e recomposição de equipes de Recursos Humanos, o que é fundamental e também uma estratégia de recomposição do farmacêutico.

“Ele é peça fundamental no serviço de saúde, porque a ele temos a confiança de todo o preparo e da farmacologia clínica interagindo, interdisciplinarmente, com toda a equipe para que possamos entregar medicamentos de qualidade, fracionado, individualizado e com a discussão clínica associada. Isso engrandece, não só o aprendizado da equipe, como oferece o melhor tratamento para o paciente. Isso é fundamental na estratégia do tratamento”, ressalta.

A interação multidisciplinar tem sido bastante estimulada, tanto em redes públicas como nas privadas no mundo inteiro, e ela designa que todos os atores que participam do processo de cuidado do paciente estejam integrados e compartilhando as informações a fim de que se possa entregar o melhor produto e serviço.

Relevância dos laboratórios públicos

Segundo Lambert, os laboratórios farmacêuticos públicos, como o próprio LAQFA, que têm plantas desenvolvidas, com certeza contribuíram à repactuação no fornecimento de medicamentos para a rede federal. “A ideia é que esses medicamentos sejam produzidos fazendo a contratualização pelo Ministério da Saúde e autorização dos demais entes ministeriais, para que nós possamos produzir medicamentos nesses laboratórios, provendo os nossos hospitais com medicamentos de qualidade e uma planta de alta tecnologia”, diz.

O foco atual para a produção nos laboratórios oficiais são medicamentos oncológicos - por apresentarem alto custo, e aqueles que constam na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (Rename) - que apresentam patente quebrada e podem ser produzidos pelas unidades do Ministério da Saúde.

Só no Rio de Janeiro, há seis laboratórios da Associação dos Laboratórios Oficiais do Brasil (Alfob), e a força aérea tem uma planta nova extremamente capaz de produzir os oncológicos, inclusive, com o fracionamento. “Nós aproveitaríamos muito essa oportunidade de reduzir custos e oferecer qualidade aos nossos pacientes”, ressalta Lambert.

Recorde de produção do LAQFA

Com especializações em Análises Clínicas, Indústria Farmacêutica e mestrado em Recursos Humanos, o coronel farmacêutico Rodrigues foi responsável, enquanto diretor do LAQFA, pelo primeiro planejamento estratégico daquela instituição militar fabril, culminando com a inauguração, à época, de novas instalações atendendo ao preconizado pela Anvisa, com destaque para a conquista do recorde em sua produção, no ano de 2006.

O LAQFA foi criado em 1971, como uma indústria farmacêutica militar e, desde então, tem atuado como um dos laboratórios farmacêuticos oficiais produtores de medicamentos no Brasil, atendendo às demandas do Comando da Aeronáutica (COMAER) e dos programas de assistência farmacêutica do Ministério da Saúde.

“A história do LAQFA está ligada à inovação, tendo se destacado ao longo de sua trajetória, por projetos inovadores em sua área de atuação. Exemplos disso foram a fabricação de insulina de 40 e 60 UI, a partir de 1976, por ocasião do desabastecimento nacional daquele medicamento, pegando de surpresa o País e os usuários do produto”, lembra Rodrigues.

Para suprir a demanda, a Central de Medicamentos (CEME) importou, em caráter de urgência, a insulina bovina dos Estados Unidos. A partir daquele momento, o corpo técnico do LAQFA trabalhou diuturnamente durante dez meses, quando conseguiu sintetizar o primeiro lote de insulina de 40 e 60 UI, suprindo a demanda nacional. Em 1983, surge novo problema de desabastecimento, dessa vez em relação às soluções de hemodiálise, quando o LAQFA, mais uma vez, cumpriu sua missão estratégica e institucional, produzindo milhares de litros daquele produto.

No primeiro semestre de 2002 o medicamento iodeto de potássio 130 mg, utilizado pela Fundação Eletro Nuclear em Angra dos Reis, para a proteção da glândula tireóide no caso de acidentes envolvendo o vazamento de radiações ionizantes, teve seu fornecimento interrompido pela França. O diretor e o corpo técnico do LAQFA foram convocados pelo Ministério da Saúde para a fabricação do produto, em caráter de urgência, até o vencimento dos prazos de validade dos comprimidos ainda em estoque, oriundos da França.

“Vale destacar que, naquele mesmo ano, o LAQFA conseguiu produzir o primeiro lote do produto, suprindo oportunamente a Fundação Eletro Nuclear. O reconhecimento foi imediato. Uma prova disso foi o agraciamento do LAQFA pela United State Pharmacopeia (USP) pela produção do produto”, diz o coronel.

Ao jornalismo do Portal do ICTQ, o militar exemplificou suas considerações citando Israel que, sem nenhuma biodiversidade, tem se destacado em tecnologia de ponta, incluindo os farmoquímicos - molécula farmacêutica farmacologicamente ativa. Ele entende que faltou ao Brasil ações políticas com foco na produção de farmoquímicos, apesar da magnífica biodiversidade existente.

Matéria publicada no Portal do ICTQ


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