All for Joomla All for Webmasters

O SUCESSO DOS CONSULTÓRIOS DE ENFERMAGEM NO BRASIL

Por Egle Leonardi

Quase um ano após a regulamentação do funcionamento dos consultórios e clínicas de enfermagem no Brasil, esses estabelecimentos ainda não têm o pleno reconhecimento pela população, mas é questão de tempo. A consulta em enfermagem, que pode ser feita em clínicas especializadas e consultórios - já autorizada em legislações anteriores - foi regulamentada pela Resolução 568 do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), em fevereiro de 2018.

De acordo com a coordenadora da Câmara Técnica de Educação e Pesquisa do Cofen, Dorisdaia Humerez, o Conselho avalia que a Resolução deve assegurar ao enfermeiro a regulamentação de consultórios, pois, a consulta de enfermagem tem respaldo legal, previsto no Decreto 94.406/87. “A norma estabeleceu marcos importantes para assegurar a qualidade do serviço de enfermagem prestado e para dirimir dúvidas que possam afetar a segurança jurídica dos profissionais”, afirma.

Realizar consulta de enfermagem é um direito do enfermeiro, assegurado pela Lei 7.498/86, art. 11, inciso I, alínea “i”, pelo Decreto 94.406/87, art. 8º, inciso I, alínea “e”, pelo Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem. Com essa base, foi normatizada a Resolução Cofen 358/09.

Para o presidente do Conselho Regional de Enfermagem do Acre (Coren-AC), Areski Peniche, a enfermagem é uma profissão liberal, autônoma do ponto de vista laboral. O seu foco está no cuidar. Ele lamenta o fato de que, erroneamente, muitas pessoas confundem o papel da enfermagem e a identifiquem como mera executora de ordens médicas.

“Por ser uma profissão científica, liberal e autônoma, é lícito que desenvolva suas atividades em consultórios e clínicas. É óbvio que tal atuação deve estar obediente aos preceitos legais, regulamentares e éticos da profissão, sem extrapolar os limites estabelecidos na Lei 7498/86 e demais dispositivos legais, regulamentares e éticos”, lembra Peniche.

Essa norma assegura a qualidade da assistência?  Na verdade, para Dorisdaia, a qualidade do serviço de enfermagem representa um conjunto de atributos que inclui um nível de excelência profissional, o uso eficiente de recursos, o mínimo de risco e alto grau de satisfação por parte dos usuários, considerando essencialmente os valores sociais. Os indicadores eleitos para mensurar qualitativa e quantitativamente essa qualidade estão sendo criados na medida da ampliação dos consultórios. “A normativa é o primeiro passo para assegurar a qualidade da assistência. No entanto, ainda estão sendo elaborados instrumentos para valorar o cumprimento dos objetivos e metas que darão subjetivamente como produto a qualidade”, afirma a coordenadora do Cofen.

A ciência do cuidar

Por ser chamada de arte e ciência do cuidar, torna-se fácil compreender, na enfermagem, o porquê de se ter, de maneira natural, o atendimento individual e domiciliar. Peniche defende que, para cuidar de alguém, não é preciso estar em um hospital ou clínica. O cuidado pode acontecer em casa. Ele usa uma alegoria para ilustrar a questão:

“Uma mãe, ao amamentar seu filho, trocar a fralda, limpar o berço e oferecer uma medicação prescrita, está atendendo às necessidades de seu bebê. Está cuidando dele. A enfermagem faz o mesmo com seus pacientes. Como? Aplicando a ciência da enfermagem em prol de seus pacientes; identificando as necessidades humanas básicas; nomeando os problemas; planejando o que fazer para resolver um a um; executando o que foi planejado; e, por último, avaliando o que surtiu efeito e o que necessita aprimoramento”.

Ele acredita que a norma assegure a qualidade do serviço de enfermagem, já que o sistema Cofen/Conselhos Regionais dispõe de diversas Resoluções, Pareceres e Decisões que dão segurança aos profissionais para atuar em consultórios e clínicas de enfermagem.

Autonomia

A Resolução 568/18 regulamenta a ação autônoma do enfermeiro, ampliando o atendimento à clientela no âmbito individual e domiciliar, e valorizando o profissional. “A norma, ao explicitar a autonomia do enfermeiro no seu processo de trabalho, é componente fundamental para a manutenção das conquistas legais da profissão e, portanto, para a valorização e expansão do papel do enfermeiro”, cita Dorisdaia.

A valorização da Enfermagem também depende da postura do profissional diante dos problemas que emergem da sua prática. As habilidades para a tomada de decisão compõem-se do pensamento crítico sobre as situações com base na análise e julgamento sobre as perspectivas de cada proposta de ação e de seus desdobramentos.

A presidente da Associação Brasileira de Estomaterapia, Maria Angela Boccara, tem certas ressalvas com relação à clínica e consultórios, principalmente para o tratamento de feridas. Ela já teve uma clínica por 20 anos, que cuidava de estomaterapia, mas ela tem formação para isso.

Seu receio é que, como qualquer enfermeiro tem autonomia para atuar em consultório, ele precisa ser capacitado para isso. Não basta um diploma. É preciso capacitação.

“Tratar feridas não é simplesmente fazer um curativo. Temos que avaliar esse indivíduo na sua totalidade e entender a sua doença de base, entender porque aquela ferida está ali para saber a indicação do tratamento correto”, ressalta Maria Angela.

Experiências de sucesso

A enfermeira, Marta Lira, tem um consultório há dez anos em São Paulo (SP), que funciona dentro de uma clínica multidisciplinar. Ela realiza diversos procedimentos, mas grande parte de sua assistência envolve a área de estomaterapia, que lida com a incontinência de feridas em pacientes ostomizados, além de procedimentos ligados à medicina chinesa, como a acupuntura, ventosa etc. Na clínica onde ela atua, há outro consultório independente com uma enfermeira que atende à área de podiatria, o que mostra o crescimento da atuação da enfermagem nesses estabelecimentos autônomos.

Marta é multifacetada. Além do consultório, ela também tem uma loja de produtos cirúrgicos e trabalha em um hospital, além de ser prestadora de serviços em outra clínica. “Os consultórios ainda não são plenamente reconhecidos pela população. As pessoas, geralmente, só ficam sabendo de nossa atuação quando elas têm a necessidade”, diz Marta, mas ela acha que, com o tempo e mais dedicação, a atividade será mais divulgada. Apesar disso, sua agenda não tem nenhuma janela, ela atende todos os dias e não reclama de suas conquistas profissionais, que não são poucas.

Já a enfermeira, Soraia Rizzo, tem um escritório em São Paulo, com uma equipe de enfermeiros e técnicos que prestam serviços assistenciais. Seu foco maior é estomaterapia e em feridas e ela também atende por convênio ou particular. Ela atende no hospital, clínica ou na casa do paciente.

A grande maioria de seus atendimentos é de doentes crônicos, com hipertensão, diabetes ou pessoas acamadas, com lesões por pressão. “Muitos pacientes que nós atendemos ficam admirados e encantados com o nosso trabalho. Isso se dá pelo desconhecimento dessa atuação. Há, até mesmo, hospitais que desconhecem a atividade e não sabem que podemos dar esse apoio na casa do paciente. É um trabalho compensatório em termos profissionais e financeiros”, revela Soraia.

Ousadia de enfermeiros competentes

Tradicionalmente, o enfermeiro atua sob a empregabilidade pública ou privada. Essa é a visão histórica da população sobre a ação do enfermeiro. Para Dorisdaia, a população já compreende e usa consultórios de enfermeiros obstetras, de enfermeiros especialistas em ostomias, feridas, entre outros. “A norma remete à ampliação dos consultórios e à ousadia de enfermeiros competentes, que farão a população reconhecer, cada vez mais, o importante papel do enfermeiro na qualidade da sua saúde”. Para ela, existe uma demanda crescente pela assistência de enfermagem nos consultórios, nos domicílios e na assistência primária.

A enfermagem ainda tem um longo caminho a ser seguido, mas, por conta das estratégias governamentais, a importância da profissão tem crescido muito no seio da sociedade brasileira, segundo Peniche. Isso se dá, especialmente, no que tange às ações básicas de saúde e situações em que o cuidado é mais importante do que o tratamento da doença, como na oncologia, nefrologia, ginecologia e obstetrícia (acompanhamento da gestante) e pediatria (acompanhamento do crescimento e desenvolvimento). “Logo, há que se esperar que o reconhecimento seja cada vez mais evidenciado por pessoas buscando consultas de enfermagem em detrimento de consultas de outros profissionais”, defende ele.

Como cobrar pelos serviços? O primeiro passo é descobrir qual é o valor que esses serviços têm para a vida do cliente. Sabe-se que preço e valor são conceitos diferentes. No entanto, quanto maior o valor agregado de um serviço, maior poderá ser o seu preço, pois o usuário estará mais disposto a pagar por ele.

“Em outras palavras, valor agregado refere-se à percepção que o cliente tem de um serviço que possa suprir a uma necessidade, levando em conta a relação custo X benefício da operação em comparação com a concorrência. Por mais que seus serviços tenham um grande valor agregado, se os preços forem muito altos, poderá perder a vantagem no custo X benefício”, conclui Dorisdaia.

Publicado no Portal PGE 

Deixe seu comentário

Falar Agora
Precisa de Ajuda ?
Olá, como podemos te ajudar ?