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POR EGLE LEONARDI

No Brasil, os consultórios clínicos farmacêuticos já são uma realidade. Claro que ainda não se pode afirmar que seja muito comum encontrá-los em todas as farmácias e drogarias. No entanto, desde a publicação das Resoluções 585 e 586 de 2013, do Conselho Federal de Farmácia (CFF); e da Lei 13.021/14 deu-se início um movimento, ainda que insipiente, entre os farmacêuticos e empresários do setor para montar suas clínicas e passar a fazer atendimentos à população e a prescrever medicamentos.

Para a superintendente da Rede de Drogarias São Bento, Flavia Buainain Thomazi França, os consultórios farmacêuticos dentro das drogarias são uma grande evolução nos serviços clínicos prestados: “Estamos em um momento especial na valorização do profissional farmacêutico e no atendimento à saúde da população nas drogarias. Isso é um diferencial no mercado, mas acredito que daqui pouco tempo quem não estiver dentro dessa revolução estará fora do mercado”.

Ela conta que o programa da São Bento, chamado Saúde em Dia, oferece serviços clínicos, como orientação personalizada sobre medicamentos, testes rápidos de saúde, avaliações preventivas e acompanhamento personalizado, realizados em um espaço privativo e personalizado da farmácia. “Nosso objetivo é ajudar as pessoas a controlar melhor seus problemas de saúde e a fazer uso seguro de seus medicamentos, de maneira cômoda, rápida e acessível. Fica mais fácil cuidar da saúde quando se tem acesso a um farmacêutico clínico de confiança”, defende ela.

Nova realidade

Além da Rede São Bento, empresas de diferentes estruturas e posicionamentos estão acreditando no conceito e se lançando nesse novo universo. Bons exemplos são encontrados também em unidades da Rede Pague Menos (com 630 salas) e na Agafarma (com o apoio da Automatiza Sistemas em mais de 60 implantações programadas), entre outros.

A concepção de um consultório farmacêutico ainda é insipiente no Brasil, se comparada à estrutura das farmácias americanas, canadenses e algumas europeias, por exemplo. Nos Estados Unidos, as grandes redes costumam dedicar alas separadas com mais de uma clínica destinada ao atendimento à população. Esse serviço é prestado de maneira contínua, com hora marcada e acompanhamento personalizado.

Naquele país o farmacêutico pode dar assistência, prescrever alguns medicamentos, aplicar vacinas, fazer limpeza de ouvido, remoção e renovação de curativos, avaliação física completa, entre outros tipos de atendimento. Para cada um deles há um preço. Os encontros com os farmacêuticos costumam ser documentados eletronicamente e o programa gera um relatório que segue para o responsável por seu tratamento (no caso de acompanhamento médico).

Contornando obstáculos

Para Flavia, o desafio atual é criar a cultura no Brasil em que as pessoas podem contar com um farmacêutico para ajudar a controlar seus problemas de saúde. Para isso, a farmácia deve investir em ações de divulgação, envolver toda a equipe da drogaria e fazer visitas em postos de saúde e clínicas médicas. “Na minha visão, implementar a parte física do consultório farmacêutico é a mais simples, pois basta escolher um espaço na drogaria, montar uma sala e deixá-la confortável e agradável”, diz ela.

Sobre isso, Flavia afirma que uma adequação do espaço interno é possível. “Lógico que nem todas as drogarias vão ter lugar para implantar o consultório farmacêutico. Na nossa rede, escolhemos as filiais que têm espaço suficiente, sem prejudicar a exposição de alguma categoria. Os nossos consultórios têm, em média, seis metros quadrados”.

E a qualificação?

Para atuar nas consultas, formar uma equipe de farmacêuticos talvez seja o maior desafio, segundo Flavia. O profissional tem nas mãos o sucesso e o fracasso do atendimento. É ele quem vai fazer os serviços acontecerem, por isso deve estar altamente preparado e devidamente qualificado. “Vejo que esses desafios podem ser enfrentados, assim como estamos fazendo. Investimos em treinamento dos farmacêuticos e hoje tenho na minha equipe uma coordenadora técnica do Saúde em Dia, que é responsável em formar esses profissionais”. Ela complementa dizendo que também fez um coaching com os profissionais para estarem aptos a acolher com empatia os clientes, pois seu objetivo é também surpreender as pessoas com o atendimento de excelência.

Aceito os desafios. E agora?

De acordo com o farmacêutico, Lincoln Cardoso, se o empreendedor decidir por estabelecer um consultório farmacêutico dentro de uma farmácia ou drogaria, ele certamente precisará de menores investimentos, claro que dependendo da infraestrutura do estabelecimento. Em se tratando de um consultório independente, fora do ambiente da farmácia, esse empreendimento irá requerer maior investimento inicial, considerando que precisará ser submetido a todo o processo de abertura e regulamentação de uma nova empresa, o que envolve diversos custos com processos e documentação.

“Com relação à estrutura necessária, ambos os modelos podem ser muito semelhantes. Isso dependerá dos serviços a serem realizados e do potencial de atendimento pretendido. Essas decisões também dependem da avaliação crítica do plano de negócio”, ressalta Cardoso.

Importante salientar que a estrutura geral de uma clínica, seja ela dentro de uma farmácia ou não, se assemelha muito a de qualquer outro consultório de cuidado à saúde, o que inclui cadeiras, mesas, computadores, maca, pia com água corrente, entre outros, respeitando a legislação sanitária específica.

No entanto, Cardoso alerta para outros gastos, que dependem do tipo de atividade oferecida. Os serviços farmacêuticos compreendem basicamente análise da farmacoterapia, conciliação de medicamentos prescritos, manejo de doenças autolimitadas e acompanhamento farmacoterapêutico. Para isso bastam o conhecimento e a expertise clínica do profissional, além de um aplicativo informatizado para a gestão dos trabalhos e pesquisas bibliográficas. “Já os serviços de saúde demandam instrumentos específicos para a sua realização, como esfignomanômetro com estetoscópio, aparelho determinador de glicemia, insumos para aplicação e administração de medicamentos, refrigerador com controle de temperatura para armazenamento de vacinas, entre outros”.

Palavra de quem já se estabeleceu

Flavia conta que escolheu para seu primeiro consultório uma de suas filiais onde já havia o projeto Cantinho da Saúde implantado para os clientes diabéticos. Até o momento são seis unidades na Rede. “Nossos consultórios farmacêuticos têm uma estrutura simples, porém confortável para atender nossos pacientes. Decidimos não fazer um investimento inicial tão alto para termos retorno financeiro. Em média, cada um custou cerca de R$ 6 mil”.

A Rede São Bento tem 50 lojas atualmente, estando no Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Conta com cinco consultórios em Campo Grande (MS) e um em Dourados (MS). Seu plano de expansão prevê chegar a 12 consultórios em 2018.

“Hoje estou muito realizada e feliz com nosso projeto Saúde em Dia, pois estamos conseguindo levar aos nossos clientes que têm algum problema de saúde crônico, como diabetes e hipertensão, maior qualidade de vida e maior controle”, fala Flavia. Como consequência desse trabalho, ela diz que conquistou a fidelização dos clientes e o aumento da receita em serviços e produtos, pois cobra por todas as atividades oferecidas (consulta farmacêutica, teste de glicemia, aferição de pressão, avaliação corporal). “Aumentamos principalmente a venda dos aparelhos de glicemia, pressão, produtos naturais e diet. O serviço, quando bem divulgado e bem-feito, traz rentabilidade à farmácia”.

Outros exemplos de sucesso

A Pague Menos tem 1.080 lojas em todas as unidades da Federação, distribuídas por 346 municípios. Seus consultórios se chamam Clinic Farma e já somam cerca de 630 clínicas em suas lojas, onde oferecem consultas farmacêuticas e outros serviços.

O serviço farmacêutico prestado inclui acompanhamento do tratamento prescrito pelo médico, revisão da medicação e esclarecimento de dúvidas. O farmacêutico também pode realizar testes de aferição de pressão arterial e glicemia, além de acompanhamento e orientação para perda de peso, controle de colesterol e combate ao tabagismo, tudo como benefício adicional aos clientes, sem custo adicional.

“É um serviço de grande valor para a saúde pública e é a valorização do profissional farmacêutico. Requer muita dedicação e estudo do profissional para esse cuidado, e também investimento por parte das empresas. O serviço de atenção farmacêutica é de grande relevância para a saúde pública e tem valor agregado altíssimo e institucional”, fala o fundador e presidente do Conselho da Pague Menos, Deusmar Queirós.

Para ele, o maior investimento fica mesmo por conta da capacitação, contratação, mudança de layout e documentação sanitária.

“A busca por um profissional de saúde na farmácia é essencial para a efetividade de alguns tratamentos e para a garantia da adesão. O farmacêutico é capacitado para orientar e conscientizar o paciente para um correto controle das patologias e uso adequado do medicamento. E, por ser um profissional de mais fácil acesso, pode realizar um acompanhamento de frequência diária, semanal ou até mensal, auxiliando na qualidade de vida dos clientes, de acordo com a necessidade de cada um e seu entendimento da doença ou tratamento”, afirma Queirós.

Sobre isso, Flavia, da Rede São Bento, complementa: “Os farmacêuticos precisam se preparar para atender às consultas e buscar pós-graduação e cursos, pois não saem da faculdade preparados para prestar esse serviço. Investimos muito na nossa equipe, pois acreditamos que farmacêuticos com maior conhecimento e prática vão trazer mais resultados ao projeto”.

Um dos mais relevantes players desse segmento é a Automatiza Sistemas, que implementou em diferentes farmácias e redes cerca de 150 consultórios farmacêuticos (incluindo aqui algumas unidades em fase final de implantação). “Para se ter uma ideia da importância do projeto, no dia de inauguração, os consultórios da Automatiza Sistemas atingem números expressivos, ou seja, de 260 a 300 atendimentos no dia. Já os atendimentos em rotina normal variam na faixa de 1.000 a 1.200 atendimentos por mês, desconsiderando os finais de semana”, comenta o diretor da empresa, Guilherme Torres. Os consultórios da Automatiza fazem diversos atendimentos de acompanhamento e controle de doenças crônicas como dislipidemias, hipertensão e obesidade, sendo estes o maior público de novo atendimento e de retornos.

O que ter em mente ao decidir por uma clínica farmacêutica

1- Ter um plano de negócios e disposição para enfrentar os desafios que virão;
2 – Pesquisar a demanda sobre quais serviços farmacêuticos deverão ser requisitados pela comunidade;
3 – Manter uma equipe de farmacêuticos treinada, comprometida, dedicada e com vontade de fazer algo diferente;
4 – Estabelecer uma metodologia de trabalho eficiente e validada;
5 – Escolher bem um espaço na farmácia e montar o consultório;
6 – Divulgar seu projeto para a cidade, comunidade;
7 – Realizar ações de saúde atraindo os clientes.

CALCULE O INVESTIMENTO

Consultório de atendimento básico – R$ 5 mil a R$ 15.

Estrutura: Biombo, mesa, cadeiras, computador, instrumentos de mensuração de parâmetros etc. O tamanho médio de um consultório nestes parâmetros é de 6 m2.

Consultório com estrutura média – muito utilizado pela classe médica – R$ 20 mil a R$ 30 mil.

Estrutura: Paredes (divisórias), revestimento interno, lavatório, mesa, cadeiras, computador, sistema automatizado de farmácia clínica, maca, acessórios e equipamentos.  O tamanho médio de um consultório nestes parâmetros é de 9 m2.

Consultório de alto padrão para atendimento de clientes classe A em bairros nobres – R$ 50 mil a R$ 80 mil, dependendo do tipo de acabamento.

Estrutura: Espaço totalmente privativo, piso porcelanato, gesso com iluminoteca, mobiliário branco (mesa, armários, cadeiras), maca, sistema de farmácia clínica, lavatório, geladeira para vacinas, acessórios e equipamentos etc. O tamanho médio de um consultório nestes parâmetros é de 12 m2.  Neste caso, é necessário um refrigerador especial para vacinas (com gerador de energia). Este item custa entre R$ 8 mil e R$ 15 mil, dependendo da capacidade do refrigerador. .Já um refrigerador comum com gerador custa entre R$ 3 mil e R$ 4 mil, dependendo da marca e capacidade do refrigerador e potência do gerador.

Matéria publicada no Portal do ICTQ

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