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POR EGLE LEONARDI

 

Até pouco tempo era inimaginável pensar na manipulação da matéria numa escala atômica e molecular. Isso já é uma realidade e é conhecida como nanotecnologia. Quando aplicada ao segmento farmacêutico, ela apresenta novas propriedades radicais que tem o potencial de revolucionar as atuais tecnologias de entrega de fármacos e oferecer muitas oportunidades para criar novos sistemas de liberação para fármacos pouco solúveis e com outras dificuldades técnicas.

Além das vantagens de aumentar o potencial para administração, os sistemas de liberação de fármaco em escala nano podem também ser utilizados para promover a entrega do fármaco ao alvo específico, aliviando, assim, a toxicidade indesejada. Isso melhora a adesão do paciente e proporciona resultados clínicos favoráveis.

Para a professora da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal de Minas Gerais, Mônica Cristina de Oliveira, de acordo com o design dos nanossistemas desenvolvidos, pode-se alterar a distribuição dos fármacos no organismo: “Isso contribui para a sua ação no local acometido pelo processo patológico, como por exemplo, no caso do tratamento do câncer com nanossistemas, tendo acoplados na sua superfície ligantes que podem interagir com receptores que são super expressos em células tumorais e tendo associados a esses nanossistemas o fármaco antitumoral”. Ela diz ainda que esse produto poderá então atuar de forma seletiva nas células tumorais, preservando as saudáveis, o que resulta no aprimoramento da eficácia terapêutica e redução de efeitos adversos indesejáveis.

Desafios

Monica ressalta os principais desafios no desenvolvimento da nanotecnologia para a indústria farmacêutica:

1. Formação de corpo técnico devidamente qualificado na área de nanotecnologia;

2. Estabelecimento de infraestrutura física para o organização e caracterização dos nanossistemas preparados nas etapas de pré-formulação, assim como em escala industrial;

3. Garantia de fornecimento das matérias-primas e seu custo, de acordo com os nanossistemas a serem preparados;

4. Interlocução com as agências de regulação sanitária para o registro e comercialização dos produtos nanotecnológicos.

Benefícios para as indústrias

A professora afirma que tanto as indústrias como os usuários são beneficiados com essa tecnologia. Ela destaca como benfeitorias para a indústria a inserção no seu portfólio de produtos inovadores e portadores de maior eficácia terapêutica, com menor produção de efeitos adversos e, portanto, melhor qualidade de vida para os pacientes. Outras vantagens são a viabilização de administração de fármacos pouco solúveis em água mediante sua incorporação em nanossistemas e o aumento de estabilidade de certos fármacos, como por exemplo, peptídeos, proteínas e ácidos nucléicos em meios biológicos. “Eu citaria como vantagem também o aumento de permeação de substâncias bioativas hidrofílicas mediante administração por via tópica”, fala ela.

Claro que as indústrias já vislumbraram o avanço que essa tecnologia irá proporcionar ao seu processo produtivo, tanto é que o Laboratório Aché e a companhia suíça Ferring Pharmaceuticals anunciaram, no final de 2016, um acordo de colaboração em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). A parceria é destinada ao desenvolvimento de plataformas tecnológicas que visam melhorar a disponibilidade dos medicamentos no organismo, transformando, por exemplo, princípios ativos que atualmente são formulados em produtos injetáveis em formulações que poderão ser administradas por via oral, de forma mais prática e sem dor. As pesquisas nesta área proporcionam a redução de efeitos adversos, o aumento da aderência do paciente ao tratamento e a comodidade na administração posológica.

Para isso, no início de 2017, um laboratório conjunto de P&D, batizado de Nanotechnology Innovation Laboratory Enterprise (NILE), financiado por ambas as empresas e administrado por um comitê diretor conjunto, foi construído no Instituto de Ciências Tecnológica do Aché, no Núcleo de Inovação Incremental em sua fábrica em Guarulhos (SP). O laboratório irá explorar a nanotecnologia para sistemas de liberação de fármaco, que é o mecanismo pelo qual o medicamento é disponibilizado no organismo.

Para a Aché, a plataforma é estratégica para acelerar o desenvolvimento de Novas Entidades Terapêuticas, com o objetivo de desenvolver melhores alternativas tecnológicas para produtos existentes. Para a Ferring, a plataforma poderá ser aplicada para formulações baseadas em peptídeos e proteínas que poderão ser administradas por via oral, sendo aplicadas pela empresa em soluções para Saúde Reprodutiva, Gastroenterologia e Urologia.

“O desenvolvimento de novas formulações terapêuticas melhorará as características de liberação de drogas. Isso representa uma forte ferramenta estratégica para proporcionar mais vida às pessoas, onde quer que elas estejam”, afirma o presidente do Aché, Paulo Nigro. “Atuando conjuntamente em P&D, por meio de colaboração e compartilhamento de recursos e habilidades, criaremos um ambiente científico único e capaz de enfrentar os principais desafios em formulações de medicamentos”.

Já o vice-presidente executivo e chefe científico da Ferring, Per Falk, afirma: “Nossa colaboração está focada no desenvolvimento de novos tratamentos farmacêuticos baseados em nanotecnologia para resolver desafios de biodisponibilidade e atender melhor às necessidades de nossos pacientes”.

Melhor resposta terapêutica

Segundo Monica, entre os benefícios que o usuário de medicamentos irá perceber, estão:

1. A interação mais seletiva do fármaco com o local acometido pela doença, o que pode refletir numa melhor resposta terapêutica e, consequentemente, redução da dose do fármaco a ser administrada e menor incidência de efeitos adversos;

2. Alguns nanossistemas podem liberar o fármaco de forma prolongada, o que permite aumentar o intervalo de administração do medicamento, trazendo maior conforto ao paciente;

3. Certos nanossistemas podem permitir o uso de vias não invasivas de administração de fármacos, como a via tópica, conferindo também alívio ao paciente.

“Considero de extrema importância conhecer de maneira aprofundada a biologia envolvida na patologia para a qual se deseja implementar um tratamento, pois isso auxilia na definição de características importantes para o design de um nanossistema adequado para a incorporação do fármaco a ser utilizado, levando em consideração as vias de administração possíveis e barreiras biológicas a serem transpostas”, destaca a professora, que afirma ser fundamental a interação e discussão entre os institutos de ciência e tecnologia, setor privado e agências de vigilância sanitária para a disponibilização de medicamentos de base nanotecnológica.

 

Matéria publicada no Portal do ICTQ

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