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CONFIRA: OPORTUNIDADES DA FARMÁCIA 4.0 EMPODERA O FARMACÊUTICO

Por Egle Leonardi

A 4ª Revolução Industrial, ou Indústria 4.0, está baseada nos sensores, de todos os tipos e para todas as aplicações. Eles são a base da internet das coisas (IoT) e da inteligência artificial. Quando a inteligência artificial afeta a indústria, obviamente ela atinge toda a rede, portanto, inclui-se também, toda a cadeia farmacêutica. É uma realidade mundo afora, entretanto, caminha a passos não tão rápidos no Brasil.

A Indústria 4.0 trata da convergência das tecnologias da informação, da inteligência artificial, da nanotecnologia e da biotecnologia para aplicações produtivas em tempo real, descentralizadas e automatizadas, e envolve a convergência de pessoas, dados, sistemas, de criação e implementação de processos informatizados autônomos. Esse quarto grande avanço tecnológico é sobre como automatizar e integrar todos os aspectos de um negócio.

Oriunda dessa era, a Farmácia 4.0 é uma tendência que deve ser acompanhada muito de perto pelos profissionais farmacêuticos. A modalidade de compra on-line, o e-commerce está aí para mostrar que as relações mudaram. Aplicativos já são capazes de fazer renovação de receita de paciente e colocá-lo em contato direto com o farmacêutico, sem a necessidade contato presencial.

Aderir a esse tipo de tecnologia permite que, até mesmo, o farmacêutico – dono da pequena drogaria de bairro, seja capaz de criar múltiplos canais de atendimento e estar presente quando e onde o cliente desejar. O mercado passa por mudanças, e adaptar-se a elas é essencial para se manter presente e competitivo no meio.

Tendências

Engine publicou artigo apontando quais serão as três grandes áreas de atuação para as indústrias farmacêuticas nesse cenário de revolução, baseado em estudo da KPMG, intitulado Indústria Farmacêutica 2030. São elas:

  • Genética:as empresas de biotecnologia já evoluíram a ponto de propor novas drogas e novos tratamentos para prevenir ou curar doenças. O estudo da KPMG aposta que os avanços serão ainda maiores nas próximas duas décadas, chegando a novas terapias para câncer, ELA, Parkinson e Alzheimer.
  • Imunoterapia: os tratamentos que buscam potencializar o sistema imunológico para que o próprio organismo possa prevenir ou combater infecções e doenças também deverão ganhar mais espaço.
  • Biotechs:as empresas de tecnologia irão colaborar cada vez mais e se tornarão parte da cadeia de valor de ciências da vida, especialmente, das farmacêuticas, seja para coletar informações que ajudam a melhorar as formulações, seja como parte do próprio tratamento.

Na prática

Segundo o farmacêutico, vice-presidente do Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo (CRF-SP) e palestrante do ICTQ – Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico, Marcelo Polacow, as novas tecnologias estão impactando diretamente a área da saúde, seja a inteligência artificial, seja a internet das coisas, Big Data, conectividade 24 horas. Tudo isso é chamado de ‘Onda 4.0’ ou ‘Saúde 4.0’.

“Os impactos são enormes e serão maiores nos próximos anos. Isso envolve uma melhor qualificação dos profissionais e necessidade de estarem adaptados a essa realidade, onde a tecnologia é quem dita as normas de trabalho e de atuação dos profissionais”, reflete o Polacow.

O diretor de tecnologia na T2 Software, empresa especializada no rastreamento de produtos, Rodrigo Klein, acredita que se está começando no Brasil a entrar na era dos werables (dispositivos vestíveis) – relógios que podem ter sensores e se comunicar em tempo real são um exemplo disso.

“Estamos na era dos dados e cada vez mais vamos descobrir formas de utilizá-los em nosso favor. Recentemente, tivemos um episódio no Brasil de um pai que perdeu a filha por uma infecção hospitalar e desenvolveu um software que, conectado às maquinas, avisava aos médicos caso a pessoa entrasse em determinado estado que indicasse infecção. Isso só é possível hoje porque temos de um lado os dados disponíveis, fáceis de obter das máquinas e, principalmente, porque temos a disponibilidade de fazer o processamento em nuvem, coisa impensada no passado”, ressalta Klein.

Ele reforça que a conectividade 24 horas favorece os atendimentos e o bem-estar dos pacientes, principalmente em casos de cuidados de idosos, destacando-se aqui o envelhecimento populacional na atualidade.

“Apesar de entender que existe certa resistência, acho que tanto a medicina como a farmácia em determinado momento vão começar a entender remotamente seu papel no âmbito tecnológico. Inicialmente não em todos os casos, mas certamente nos locais onde temos difícil acesso”, diz Klein.

Qualificação profissional

Polacow entende que a tecnologia e a inovação têm que estar no DNA do farmacêutico. Se não está, ele tem que procurar literatura atualizada, estar sempre ‘se ligando’, lendo e buscando informações, seja na internet, seja em canais de contato, ou em portais de conhecimento, como o próprio ICTQ ou de outros institutos, e buscar o que está acontecendo no mundo, ‘estar antenado’.

“Acredito que essa é a grande dica. Você olhar o que acontece lá fora e o que acontece em outros segmentos. Hoje, muitas vezes, você tem uma tecnologia que é para a área automobilística, mas que pode ter uma aplicação na área da saúde. É preciso acompanhar todos os avanços que estão acontecendo no mundo atualmente”, destaca o professor.

De acordo com Polacow, na área da saúde o farmacêutico ainda está muito distante da ‘Onda 4.0’. Na vida cotidiana, por exemplo, o uso de tecnologia como streaming para diversão, o uso do smartphone por meio dos aplicativos, o brasileiro de maneira geral está inserido nesta era tecnológica. Mas profissionalmente, com relação às tecnologias voltadas para a saúde ele está muito defasado.

“É necessário que o farmacêutico conheça o que tem à disposição, e muitas vezes o custo estimado não é tão caro como o farmacêutico pensa. É possível investir na sua farmácia, na sua farmácia hospitalar, no segmento industrial... a tecnologia, com o passar do tempo, vai disseminando e vai barateando, mas o farmacêutico, de maneira geral, não tem tanto acesso a essas informações”, afirma o palestrante.

Em pauta

A seguir, confira na íntegra as opiniões de Marcelo Polacow sobre Tecnologia e Farmácia 4.0 concedidas com exclusividade ao jornalismo do ICTQ.

ICTQ – Você acha que as indústrias e área hospitalar estão adotando mais tecnologias para a saúde do que o próprio varejo?

Marcelo Polacow – O que está acontecendo hoje no Brasil?  Nós temos realidades totalmente diferentes. Hospitais que têm um nível de automação praticamente nulo, zero, e hospitais que não ficam nada a dever aos maiores hospitais dos Estados Unidos e da Europa. Ainda, em regra geral, os hospitais não investem em tecnologia, não entendem o retorno que isso vai trazer em termos de economia de escala, de produtividade ou de evitar erros, principalmente, na área de medicamentos e segurança do paciente. Muitas vezes essas tecnologias são subdimensionadas frente à necessidade do hospital.

ICTQ – O que se tem de novidade em termos de tecnologia para segurança do paciente na área hospitalar?

Marcelo Polacow – Eu entendo que a principal tecnologia é a inteligência artificial, que são os programas onde você coloca os dados do paciente e ele irá calcular os riscos de dosagem errada, via de administração não adequada, interação medicamentosa e até mesmo em termos de diagnóstico – mas isso é uma área mais voltada ao médico, que é conferir se aquele diagnóstico está correto. No nosso caso, como farmacêuticos, o trabalho é mais conferir se o tratamento farmacológico está correto de fato. Essas tecnologias estão disponíveis e o número de profissionais que as utilizam ainda é muito pequeno,  e isso impacta negativamente na segurança do paciente.

Os grandes hospitais que são acreditados, seja pela ONU, seja pela Joint Commission International, já estão mais preocupados com isso, já usam a tecnologia, sejam os programas como da IBM ou da Siemens – que são líderes na área de tecnologia de saúde atualmente, ou da Voster Cluster, que é outra empresa holandesa que também tem base de dados, e o custo, muitas vezes, não é tão alto como o farmacêutico pensa. Existe certo preconceito em relação à tecnologia, acha-se que é cara. Caro é não usar a tecnologia. Isso que impacta diretamente na segurança e nos gastos do hospital.

ICTQ – E a internet das coisas, como ela pode ser aplicada em pequenos dispositivos ou outros que facilitem a vida do farmacêutico?

Marcelo Polacow – Eu sempre cito o exemplo do Apple Watch, que você consegue fazer um eletrocardiograma no pulso e ele se conecta automaticamente sem o paciente precisar fazer intervenção nenhuma em um centro clínico. Se houver uma arritmia cardíaca, por exemplo, ele automaticamente disparará um alarme, vai acionar uma rede de assistência à saúde. Essa tecnologia está inserida dentro de um telefone, que é uma tecnologia da Apple. E cada vez mais essas tecnologias wearables, que são vestíveis, na área da saúde vão ganhar destaque.

O nosso organismo será 24 horas monitorado. Os parâmetros bioquímicos, tipo glicemia e insulina – no caso do diabético, função cardíaca, o eletrocardiograma no caso... essas tecnologias já existem e nós precisamos acompanhar a popularização. O custo por ser algo que dificulta, mas quando você cria uma tecnologia para uso em massa, a tendência é que o preço realmente diminua.

ICTQ – Como o farmacêutico pode participar dessa ‘onda’ da Farmácia 4.0?

Marcelo Polacow – Existem já aplicativos que acompanham o uso do medicamento no horário correto, inclusive até mesmo há tecnologias em estudo em que, quando você tira um comprimido de um blister, por exemplo, automaticamente ele enviará uma informação que o paciente usou ou não usou. Trata-se de estudos experimentais, mas que cada vez estão mais próximos do farmacêutico, para que ele possa orientar os pacientes na utilização dessas tecnologias.

Em termos de dosagem bioquímica, isso já existe. Dispositivos que dosam glicemia no caso de paciente diabético são extremamente importantes para se conferir se o medicamento está fazendo efeito ou não, ou se o paciente necessita de uma nova dose. Essas tecnologias estão se popularizando. Eu entendo que daqui 10, 15 anos isso estará muito mais intenso. É uma necessidade o farmacêutico conhecer as tecnologias, avaliar se ela é cabível ou não, ou se está disponível – as vezes ela existe, está disponível, mas não no Brasil.

ICTQ – Essa conectividade pode estar ligada aos farmacêuticos do varejo, ou seja, enviando informações para o farmacêutico do bairro e que faz acompanhamento farmacoterapêutico?

Marcelo Polacow – Com certeza. Esse é um dos princípios da ‘onda 4.0’, que é a conectividade 24 horas. Você pode estar dormindo e mandando informações. Esses dispositivos que vão capturar essas informações e vão enviar para uma central, que seja enviar para o farmacêutico se o paciente está utilizando o medicamento corretamente, ou o nível do medicamento no sangue, no plasma. Essas tecnologias estão se difundindo, estão sendo pesquisadas e muitas empresas estão investindo nessa área, como a Siemens e a IBM, e hoje todos os dias estão nascendo milhares de startups, empresas que começam pequenas e, em um ano ou dois anos, já estão valendo um milhão de dólares, porque descobriram uma tecnologia nova. Até a maneira de você empreender é diferente. A tecnologia impacta até na velocidade em que sua empresa sai do zero para atingir um patamar elevadíssimo.

ICTQ – Quais próximas tendências você vislumbra nesse segmento?

Marcelo Polacow – Se falarmos no setor farmacêutico, a história construiu-se muito focada na farmácia, no estabelecimento farmacêutico que vende o medicamento. Com essas tecnologias hoje, até com a tendência de comércio eletrônico, no futuro o paciente não irá mais à farmácia, só que o farmacêutico tem que estar inserido nesse paciente. De que maneira? São os serviços. Ele tem que prestar um serviço, isso tem que ser valorizado, tem que ser valorado também. Como que vou prestar um serviço à distância, por exemplo? Aqui entramos em outra área da farmácia, que é a Telefarmácia.

Daqui a pouco, talvez, o número de atendimentos presenciais do farmacêutico seja pequeno ou talvez quase nem exista como nós conhecemos atualmente. Se compararmos o que se vendia de medicamento de maneira eletrônica no passado e hoje, a atividade não para de crescer. Nos Estados Unidos isso já é uma tendência. As grandes varejistas estão diminuindo o número de lojas presenciais e aumentando o comércio eletrônico. Como o farmacêutico vai prestar sua assistência? Ele precisa ter uma maneira de conectar com esse paciente, de dar as informações, dar orientações...e de cobrar por esse trabalho também.

Matéria publicada no portal do ICTQ

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