All for Joomla All for Webmasters

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ANÁLISE DE TENDÊNCIAS DAS FARMÁCIAS COMUNITÁRIAS INDEPENDENTES AMERICANAS E SEU POSSÍVEL IMPACTO NAS BRASILEIRAS

 

 

 *POR MARCELO POLACOW E EGLE LEONARDI

 

 

“Se você não pode medir, você não pode gerenciar”. Esta é uma das citações mais famosas de Peter Drucker, considerado o pai da administração moderna, que chama à reflexão sobre a importância das métricas na gestão do negócio.

Com esse foco, em novembro de 2017 a National Community Pharmacists Association (NCPA) (uma associação americana de farmacêuticos comunitários) e a Cardinal Health (empresa com sede em Dublin, Ohio, EUA) publicaram o Digest NCPA de 2017. É uma espécie de sumário contendo um retrato da farmácia comunitária nos Estados Unidos. No entanto, o documento é tão atual e preciso, que também pode ser interpretado sob a ótica das farmácias comunitárias brasileira, guardadas as devidas proposições.

Digest NCPA ajuda os proprietários de farmácias comunitárias a gerenciar melhor seus negócios, fornecendo dados, números e perfis. Essas informações essenciais descrevem o impacto que as farmácias comunitárias têm nos pacientes e nas comunidades onde estão inseridas. E é justamente nesse público que a farmácias independentes têm seu maior impacto, não só econômico, mas também por meio de sua contribuição social, que ajudam a tornar esses lugares opções melhores para se viver.

De acordo com o artigo desenvolvido pelo CEO da National Community Pharmacists Association, B. Douglas Hoey, por mais de oito décadas, o Digest tem fornecido o mais abrangente relatório sobre a farmácia comunitária independente. Isso permite que seus proprietários tomem decisões empresariais prudentes e municiem seus funcionários com a informação que eles precisam para elaborar políticas sólidas.

O cenário dos cuidados de saúde ao redor do mundo mudou drasticamente desde o primeiro Digest. Por conta disso, a devoção e os cuidados dos farmacêuticos independentes mostram aos seus pacientes e a sua comunidade que eles permaneceram firmes em seus propósitos.

Segundo Hoey, a publicação do Digest exigiu intenso trabalho ao longo de vários meses. Além disso, consumiu despesas significativas. A concretização do projeto não seria possível sem o patrocínio da Cardinal Health, em benefício da NCPA e de todos os farmacêuticos ao redor do mundo.

Digest é essencialmente uma compilação de dados fornecidos por proprietários independentes de farmácias comunitárias dos Estados Unidos, que respondem à pesquisa anual da NCPA. Os membros dessa entidade obtiveram acesso antecipado ao Digest na Convenção Anual da NCPA, ocorrida em outubro de 2017.

Saiba mais sobre o tema no link: http://www.ncpanet.org/home/ncpa-digest

 

ALGUNS DADOS DO SUMÁRIO

Digest NCPA de 2017 é uma visão abrangente da farmácia comunitária independente de 2016, com foco em três áreas principais: escopo do mercado, serviços de saúde oferecidos e envolvimento de proprietários e funcionários da farmácia local.

 

  1. O MERCADO INDEPENDENTE DA FARMÁCIA COMUNITÁRIA

As farmácias comunitárias independentes nos Estados Unidos continuam sendo um dos principais segmentos, com um mercado de US$ 80 bilhões. Esses players representam 36% do varejo americano. No total, há 22.041 farmácias, incluindo aquelas de lojas únicas e múltiplas, redes regionais de administração familiar e franqueados de propriedade individual.

Vinte e nove por cento dos proprietários de farmácias comunitárias independentes são donos de duas ou mais unidades. Porém, a média de propriedades por cada empreendedor do segmento é de 1,96.

Mais de 250 mil pessoas são empregadas por essas farmácias em tempo integral ou por período parcial, reforçando as economias estaduais e locais e as receitas fiscais. Os medicamentos prescritos são seu ponto focal, representando 92% da receita total de vendas.

Vale ressaltar o importante volume de farmácias comunitárias independentes que cuidam de populações com carência de atendimento em saúde: 81% desses estabelecimentos estão situados em áreas populacionais de até 50 mil habitantes.

Outros destaques:

  • O volume de receita diminuiu de 60.493 prescrições em 2016 para 59.746 em 2017, provavelmente devido, em parte, aos requisitos de renovação das receitas por mais 90 dias (comum nos Estados Unidos) em casos de pacientes crônicos e/ou atendidos por PBMs.
  • Os medicamentos genéricos compreendem 84% de todas as prescrições dispensadas.
  • 52% das receitas totais são cobertas pelos programas Medicare Part D e Medicaid.
  • 90% das farmácias comunitárias estão oferecendo algum tipo de programa de adesão ao tratamento com medicamentos.
  • Os reembolsos abaixo do custo, exacerbados pelas taxas da DIR na Part D do Medicare contribuíram para a queda de 5% nas margens brutas nos últimos cinco anos.

 

  1. SERVIÇOS PRESTADOS PARA ATENDER ÀS NECESSIDADES LOCAIS DE SAÚDE

Farmácias comunitárias independentes são provedores acessíveis de medicamentos prescritos, aconselhamento de medicação e outros serviços importantes de cuidados de saúde. O NCPA Digest de 2017 relacionou os tipos de serviços que esses estabelecimentos normalmente oferecem.

Serviços de cuidados prolongados

Os farmacêuticos comunitários independentes desempenham um papel importante no cuidado com os 46,2 milhões de idosos dos Estados Unidos. Nesse segmento, eles fornecem cuidados farmacêuticos em lares de idosos, instalações de assistência de saúde, hospitais psiquiátricos e em cuidados domiciliares.

Entre os serviços especializados para idosos estão a avaliação e suporte nutricional, terapia intravenosa, equipamentos médicos duráveis, suprimentos de ostomia e gerenciamento de dor. De acordo com Hoey, pensando de forma inovadora, vale lembrar que os farmacêuticos comunitários independentes fornecem os serviços necessários à população e, com isso, melhoram seus rendimentos.

Em 2016, 44% dos farmacêuticos comunitários independentes forneceram serviços de cuidados de longa duração (que nos Estados Unidos são chamados de LTC – Long Term Condition) para pacientes que são identificados pelas seguradoras (planos de saúde) com dificuldade para realizarem seus tratamentos por diversos motivos, inclusive adesão ao tratamento.

 Serviços de adesão

Os gastos associados às doenças crônicas são um dos principais impulsionadores do aumento dos custos dos cuidados de saúde nos Estados Unidos. Para a maioria dessas doenças crônicas, os medicamentos são o tratamento mais econômico, mas muitos pacientes não tomam sua medicação de forma correta.

Para ajudar a combater o problema da não adesão aos medicamentos da ordem de US$ 290 bilhões nos EUA, e ainda melhorar a saúde do paciente, 90% das farmácias comunitárias independentes daquele país implantaram programas abrangentes de adesão, com quase 77% delas oferecendo serviços de sincronização de medicamentos aos seus pacientes.

O modelo de sincronização de medicamentos (nos Estados Unidos chamado de med sync) é o processo de alinhamento de todos os medicamentos que o paciente deve utilizar no dia. Isso é estabelecido em uma consulta com o farmacêutico.

Medicação Especializada

A farmácia independente está desempenhando um papel importante no varejo farmacêutico especializado e está em franco crescimento. Para se ter uma ideia, vale citar que 39% das farmácias comunitárias independentes dispensam medicamentos especiais. Os principais medicamentos dispensados ​​por incluem os destinados a tratar artrite reumatoide (85%), HIV (55%) e hepatite C (45%). Essas farmácias fornecem cuidados de alto valor aos pacientes que precisam desses medicamentos em suas comunidades.

Outros serviços oferecidos pelas farmácias comunitária independentes incluem:

  • 44% fornecem serviços de acolhimento de pacientes em parceria com hospitais e clínicas;
  • 87% oferecem gerenciamento de terapia de medicamentos;
  • 76% fazem imunização;
  • 72% realizam entregas;
  • 62% proporcionam serviços de mensuração de pressão arterial.

* Os dados acima são específicos de lojas que oferecem linha completa, mas não estão, necessariamente, presentes em todas as farmácias pesquisadas.

 

  1. ENVOLVIMENTO DA COMUNIDADE

As farmácias independentes são, muitas vezes, consideradas pilares de suas comunidades locais, e o NCPA Digest de 2017 fez o registro dessa percepção. Quase 70% de todos os donos de farmácias comunitárias fizeram doações para, pelo menos, cinco organizações locais, com 43% doando para dez ou mais organizações locais.

Essas pequenas empresas afetam a economia regional por meio da criação de empregos e da geração de receitas fiscais. Assim, desempenham um papel importante em sua comunidade por meio de suas contribuições sociais, visando à prosperidade das suas comunidades.

Outros destaques do envolvimento social e beneficente das farmácias independentes:

  • 51% dos proprietários ou funcionários têm relações pessoais diretas com um representante do estado ou um membro chave dessa equipe;
  • 64% dos proprietários ou funcionários têm relações pessoais diretas com um prefeito ou membro chave de sua equipe;
  • 4% de todos os proprietários ou funcionários ocupam um cargo eleito;
  • 23% dos proprietários e 9% dos funcionários são membros de uma associação comercial local;
  • 59% dos proprietários e 12% dos funcionários são membros da Câmara de Comércio.

 

VISÃO DOS AUTORES SOBRE O PARALELO COM O BRASIL

            No Brasil, assim como nos Estados Unidos, as farmácias independentes sofrem com a concorrência das grandes redes. Para se diferenciarem no mercado optaram por focar nos serviços clínicos (em especial o gerenciamento da farmacoterapia) e na dispensação de medicamentos genéricos com benefícios para os pacientes. A interlocução com entidades, sejam elas governamentais ou não, é fundamental para a definição de políticas que atendam ao segmento em consonância com as necessidades da população.

Os serviços de imunização em farmácias no Brasil, agora regulamentados pelo CFF, MS e ANVISA possibilitam aumentar o rol de serviços, como acontece nos EUA.

No Brasil, diferentemente do que ocorre nos Estados Unidos, os planos de saúde não têm a prática e o hábito de manter farmácias conveniadas para prestar serviços clínicos, em especial de adesão ao tratamento, focando-se somente nos descontos (PBMs).

É importante frisar que não é só o custo que afasta os pacientes da adesão aos seus tratamentos. Com essas medidas, as farmácias independentes têm enfrentado a concorrência de melhor forma.

Observa-se também a necessidade no Brasil de estatísticas confiáveis e ferramentas de organização/gestão para melhorar os resultados.

 

CONCLUSÃO

Na maioria das cidades americanas, as farmácias comunitárias independentes tratam pacientes como família, promovem o uso seguro e eficaz de medicamentos e participam ativamente da vida comunitária.

Ao mesmo tempo, tanto o volume de receita decrescente como a redução do reembolso de medicamentos prescritos refletem um mercado em mudança, no qual os proprietários de farmácias comunitárias devem ajustar seu modelo de negócios. Assim, os proprietários devem considerar, mais do que nunca, todas e quaisquer opções para diversificar sua receita, enquanto continuam a se concentrar na avaliação da economia de reembolsos de terceiros.

É extremamente necessário que as farmácias independentes brasileiras se realinhem às tendências internacionais e, em especial, ao varejo americano, pois suas realidades são, de certa forma, muito próximas.

 

AUTORES:

*Marcelo Polacow – Farmacêutico pela USP/Ribeirão Preto, mestre e doutor em Farmacologia pela UNICAMP, coordenador e professor de Pós-Graduação, autor de livros e consultor empresarial.

*Egle Leonardi – Jornalista especializada no segmento farmacêutico, MBA em Gestão de Comunicação Corporativa, especializada em Marketing Digital. Recebeu o Prêmio Abrafarma de Melhor Jornalista na Categoria Imprensa Especializada no Segmento de Saúde. Diretora da Vitae Editora.

Deixe seu comentário