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CONFIRA: PLANO DE NEGÓCIOS PARA CONSULTÓRIO FARMACÊUTICO, DENTRO E FORA DA FARMÁCIA

CONFIRA: PLANO DE NEGÓCIOS PARA CONSULTÓRIO FARMACÊUTICO, DENTRO E FORA DA FARMÁCIA

 

Segundo dados do Censo Demográfico Farmacêutico, desenvolvido pelo ICTQ – Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico, de 2017, naquele ano já haviam mais de 1.400 consultórios farmacêuticos em todo o País, que funcionavam dentro e fora de farmácias.

Desde a publicação das Resoluções 585 e 586, em 2013, pelo Conselho Federal de Farmácia (CFF); e da Lei 13.021/14 surgiu uma forte tendência entre os farmacêuticos e empresários do setor para montar seus consultórios e passar a fazer atendimentos à população, prescrevendo medicamentos e aplicando vacinas, entre outros serviços farmacêuticos.

Devido a isso, consultórios farmacêuticos se tornaram empreendimentos que podem trazer bastante rentabilidade, além de facilitar o acesso da população à saúde de qualidade.

Entretanto, montar um consultório não é uma tarefa muito fácil. Para o professor do Centro Universitário do Rio Grande do Norte (UNI-RN), Marcelo Arcanjo, o planejamento estratégico auxilia o farmacêutico a estabelecer o rumo a ser seguido pelo seu estabelecimento de saúde, com vistas à otimização da relação do consultório farmacêutico com o ambiente em que se insere.

“A tradução do planejamento em ações estratégicas conduz o posicionamento da farmácia frente à concorrência e ao alcance da sua visão de futuro, ou seja, o seu estado desejável no mercado. Assim, é imprescindível que o profissional farmacêutico busque clareza e definição da identidade organizacional do consultório estabelecendo a sua missão, visão e valores, bem como realizando uma minuciosa análise de ambientes interno (forças e fragilidades - ou pontos de melhoria - do estabelecimento) e externo (oportunidades e ameaças do mercado)”, explica.

O farmacêutico, consultor e palestrante de Gestão e Marketing, dr. Amilson Alvares, complementa e enfatiza que, antes de tudo, para desenvolver um bom plano de negócios para um consultório farmacêutico, dentro e fora da farmácia, são necessários estudos por meio de uma empresa especializada no setor de estruturação e abertura de negócio e montagem de consultórios farmacêuticos, o que existe muito pouco no mercado brasileiro, por ser um segmento novo e estar em fase de implantação, testes e experiências.

“Inicialmente, para os mais conservadores, aconselho a começar seu consultório dentro de uma farmácia, principalmente porque grande parte do público da farmácia é formado por possíveis clientes transformados em pacientes para o consultório. No entanto, é necessário seguir detalhadamente a construção de um plano de negócios com planejamento estratégico e usar de todas as ferramentas que o mercado fornece para análise, evitando, assim, a maioria dos erros recorrentes na abertura de um novo estabelecimento”, enfatiza Alvares.

Já o advogado tributarista, Fernando Ribeiro, faz questão de lembrar sobre a importância do regime tributário ideal nesta fase inicial. “Para que o farmacêutico possa escolher o melhor regime para seu consultório, ele deve primeiro realizar projeções observando a atividade empresarial que será desenvolvida, o faturamento projetado, as mercadorias, a folha de pagamento esperada, entre outros fatores econômicos que forem relevantes ao resultado. A partir dessas informações será possível definir qual o melhor regime tributário”, complementa.

Indicadores no gerenciamento de um consultório farmacêutico

Mas, afinal, como tocar os primeiros dias do negócio? Arcanjo lembra um dos mais importantes autores sobre a administração moderna, Peter Drucker, que ajudou a disseminar o pensamento de que “o que não pode ser medido, não pode ser melhorado”. Sua frase remete à utilização de indicadores como ferramenta de medição de desempenho, de maneira quantificável, buscando entender se os objetivos estão sendo atingidos e identificando a necessidade de adoção de medidas corretivas.

Dessa forma, para a maximização de resultados de um consultório farmacêutico, podem ser adotados os indicadores de produtividade:

  • Número de consultas farmacêuticas agendadas;
  • Número de atendimentos realizados;
  • Tempo médio de duração da consulta;
  • Taxa de retorno de pacientes (número de retornos de pacientes após a realização da consulta; intervalo médio de agendamento de retorno; e nível de fidelização de pacientes);
  • Novos pacientes (número de novos atendimentos e identificação do meio pelo qual eles tiveram o conhecimento do serviço prestado pelo consultório farmacêutico);
  • Faltas e cancelamentos de consultas (número de consultas agendadas e não realizadas pela ausência do paciente ou pelo seu cancelamento); e
  • Nível de satisfação dos pacientes (o índice satisfatório dos pacientes com os serviços prestados no consultório farmacêutico pode ser compreendido por aspectos diversos que vão desde a limpeza do local à confiabilidade de entrega dos benefícios prometidos na execução da consulta).

“Essas ações poderão ajudar a definir e reforçar estratégias de propagação e consolidação do consultório no mercado. É importante ressaltar que estes não são os únicos indicadores existentes, e a métrica de avaliação e melhoria podem (e devem) ser ajustadas de acordo com a realidade de cada estabelecimento”, reforça Arcanjo.

Ele ainda lembra que, segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micros e Pequenas Empresas (Sebrae), a lógica do ponto de equilíbrio mostra que, quanto mais baixo for o indicador, menos arriscado é o negócio. Para ele, é natural que no início das atividades do consultório farmacêutico haja despesas elevadas em decorrência dos investimentos iniciais com reformas e adequações de layout e espaço físico do estabelecimento, como: aquisição de equipamentos e utensílios, capacitação e maximização de habilidades e competências profissionais, divulgação do serviço, dentre outros.

“Não obstante, o fluxo de adesão ao consultório pelos novos pacientes cresce de maneira gradativa e a entrada de dinheiro em caixa tende a acontecer neste mesmo ritmo. É relevante para a empresa o acompanhamento e controle contínuos dos parâmetros: receitas (valores recebidos) e despesas (custos fixo e variável). Portanto, um negócio revela-se mais competitivo e com melhor rentabilidade frente aos concorrentes quando apresenta um menor ponto de equilíbrio, ou seja, quando possui os seus custos mais relacionados à operação (custos variáveis) do que à sua manutenção (custos fixos)”, diz o professor.

Melhor local para se abrir um consultório farmacêutico

Segundo Alvares, para a escolha do lugar ideal para abrir o consultório farmacêutico, é necessário uma análise do cenário, como macroambiente e microambiente. “No macroambiente devemos estudar a região geográfica, as condições econômicas e sociais da população, o perfil do público-alvo, condições políticas, concorrência, definir nossas oportunidades, ameaças e tudo que vai interferir em nosso negócio, agora ou futuramente”, orienta.

“No microambiente, tenho que olhar para dentro do meu consultório, como colaboradores, equipamentos, serviços prestados, processos a serem desenvolvidos, estratégias do negócio para ter sucesso e acompanhar os indicadores, para manter ou mudar as estratégias”, comenta Alvares.

Sobre os produtos a serem oferecidos, o ele considera os serviços farmacêuticos, os procedimentos clínicos e os atos ali executados: “Acredito que para ter uma demanda satisfatória o farmacêutico terá que aproveitar todo portfólio de oportunidades que engloba as atividades farmacêuticas, garantidas nas resoluções do CFF e pelas RDC da Anvisa, para que possa ter ampla oferta de serviços na criação de uma carteira de clientes que venha a trazer equilíbrio e prosperidade financeira ao local”, define ele.

Planejamento financeiro do estabelecimento

Planejamento financeiro é indispensável para qualquer negócio e, para o bom desempenho de um consultório farmacêutico, a realidade não é diferente. A base para realização de um efetivo plano de um estabelecimento do segmento passa pela ciência e a atenção de tudo aquilo que entra e sai de dinheiro do estabelecimento.

“Desse modo, é intuitivo que, para a garantia da saúde financeira do consultório, esta balança apresente maior peso para a entrada de receita financeira em detrimento dos gastos. O bom controle e registro financeiro faz com que as finanças do consultório sejam medidas e, consequentemente, possam ser melhoradas e otimizadas”, ressalta Arcanjo.

De acordo com ele, os custos – que podem ser fixos e variáveis – devem ser bem monitorados e, sempre que possível, reduzidos. Assim, despesas fixas como aluguel, tarifas de energia, água, telefone, internet, materiais de expediente (papel, canetas, grampos etc.), publicidade e propagandas, serviços de informática, contábeis, dentre outros, devem se manter em níveis reduzidos e bem controlados, uma vez que, independentemente do farmacêutico estar trabalhando muito ou pouco, atendendo muitos pacientes ou não, estarão contabilizando gastos mensais à atividade.

“Já os custos variáveis são despesas que ocorrem proporcionalmente ao faturamento, ou seja, serão maiores ou menores, de acordo com o desenvolvimento da atividade no consultório”, enfatiza o especialista.

Quando o assunto é planejamento financeiro do consultório farmacêutico, muitas perguntas são comuns. Uma dúvida sempre frequente é sobre a questão das consultas. Alvares explica que primeiro o profissional farmacêutico precisa definir a tabela de preços a cobrar por tais serviços, procedimentos e consultas, pontuando a importância de que esses valores sejam determinados para cada serviço prestado.

“Para definir estes valores, o farmacêutico deve calcular o valor do salário, uso da infraestrutura, depreciação de equipamentos e imobilizados, todas as obrigações sociais, lucro almejado, impostos federais e municipais pagos pelos serviços, o valor do conhecimento e a responsabilidade de efetuar cada serviço, além de um seguro de possíveis ações por danos físicos e moral. Deve levar em consideração ainda a inadimplência, taxa de ocupação, entre outros”, analisa ele.

Já com relação aos valores, Arcanjo tem uma visão mais analítica e defende que o serviço de cobrança para consulta farmacêutica passa pela etapa de validação, de maneira que há uma verificação do funcionamento dos processos do serviço e dos benefícios percebidos ao final da prestação dele, sob a ótica do paciente (o verdadeiro consumidor do serviço).

“Assim, essa fase de testes pode ser caracterizada como uma etapa de pré-operação e é justamente neste momento que o farmacêutico poderá testar, ajustar, melhorar e definir o serviço de consulta farmacêutica a ser inserido no seu negócio”, defende ele. Passado o período de validação e havendo clareza do produto e do serviço entregues ao seu paciente, é hora de cobrar pelo serviço prestado. Neste sentido, é importante haver, não apenas a cobrança financeira do serviço ofertado, mas a certeza do valor (benefício) proporcionado ao paciente, comunicando, inclusive, tais benefícios para que haja a valorização do serviço. “Mas, quanto deve ser cobrado pela consulta? Neste momento é que deve ser resgatado o levantamento dos custos fixos e variáveis, assim como a estimativa da remuneração por hora de um farmacêutico clínico, capacitado e apto para o desenvolvimento de tal atividade para, então, definir o preço da consulta”, afirma Arcanjo.

Redes sociais, divulgação e tecnologia

Na era das novas tecnologias e de um mundo completamente conectado, a divulgação por meio das redes sociais pode ser um aspecto preponderante no sucesso do consultório farmacêutico. Afinal, a transformação digital e a internet têm revolucionado e impactado diretamente os negócios nos cinco continentes. As redes sociais oportunizaram o encurtamento das distâncias físicas e relacionamentos, não apenas entre pessoas, mas também entre empresas e seus consumidores, alavancando e estendendo a jornada e experiência dos clientes e pacientes com os profissionais de diversos setores.

Arcanjo acredita que o uso das redes sociais possibilita uma inserção e um alcance anteriormente inimagináveis, e que permite uma demonstração consistente da qualidade e da diversidade dos serviços oferecidos em um consultório farmacêutico. Ele lembra que o investimento para a adesão a esta prática é significativamente mais acessível do que as mídias tradicionais (comerciais em TV, por exemplo) e se adequam ao perfil atual dos consumidores que estão cada vez mais conectados.

“Divulgar as práticas realizadas no consultório, levar informação relevante à comunidade e ao paciente, consolidar uma marca atrativa do estabelecimento onde é ofertado o serviço e, principalmente, engajar o público a acompanhar as novidades e atrações por meio dos canais disponíveis são estratégias interessantes na busca de um segmento de clientes potenciais do negócio. Tais estratégias ajudam no posicionamento da marca, seja ela por baixo preço, diferenciação na construção de valor e entrega de benefícios aos clientes ou mesmo por enfoque, buscando atender a um nicho de mercado específico”, reforça o farmacêutico.

Ele ainda acrescenta e pontua que é importante ressaltar que algumas regras de etiqueta virtuais são sempre bem vistas e acabam por causar uma melhor impressão ao público, como o uso adequado da escrita e da fala da língua portuguesa; uma interação respeitosa e não invasiva, buscando vigiar sempre e cuidar para expressar os valores e a boa educação do negócio, evitando, também, conteúdos controversos e polêmicos.

A tecnologia, atualmente, fornece suporte cada vez mais robusto e assertivo às demandas pessoais e organizacionais. Para o consultório farmacêutico, Arcanjo exemplifica que tal apoio pode ser dado por meio de um bom conjunto de softwares e hardwares, como é o caso de um programa de CRM (Gestão de Relacionamento com o Cliente), que otimiza o relacionamento com o paciente, gerenciando, também, a agenda de consultas.

“Além disso, há um programa com amparo legal nas resoluções do Conselho Federal de Farmácia, de acompanhamento clínico do paciente, com o registro e monitoramento da anamnese clínica, farmacêutica, nutricional e de atividade física, além de avaliação de parâmetros, sinais e sintomas das mais diversas patologias, com o acompanhamento de exames e perfil clínicos do paciente. Oferece, ainda, orientações sobre o uso racional de medicamentos, indicações, contraindicações, reações adversas, intervalo posológico, formas farmacêuticas disponíveis, nome dos medicamentos de referência e similar, bem como os seus fabricantes”, aconselha.

O farmacêutico lembra que é imprescindível o fato de dos novos aparatos tecnológicos serem um “meio” de suporte e não uma atividade “fim”, oferecendo um direcionamento aos serviços clínicos farmacêuticos aplicados em consultórios, sendo, de suma importância, o desempenho das habilidades e competências técnicas do profissional no exercício da prática clínica.

A importância da capacitação do farmacêutico

Sobre a capacitação e qualificação em assuntos que o profissional farmacêutico ainda não domina plenamente, Alvares afirma que essa é a base do sucesso. Para ele, que é um profissional renomado, o farmacêutico deve ser muito bom no que faz, ser o melhor, oferecer o serviço de mais alto nível, ser referência na região, fazer com que o marketing boca a boca trabalhe para o profissional da melhor forma possível.

“É fundamental mostrar aos pacientes que é conhecedor do serviço que está prestando e descrever os procedimentos em voz alta aos pacientes nos primeiros atendimentos, como explicações fisiológicas e farmacológicas do porque é necessário para aquele procedimento. Assim o paciente começa a valorizar o valor pago e perceber a qualidade de seu serviço”, sugere ele.

Por fim, Alvares reforça que todo investimento feito em qualificação, treinamento e conhecimento, se colocado em prática, com certeza terá bons frutos, e o grande problema é “sair da teoria e chegar à prática”.

“Existe um start que é muito difícil de ser acionado, mas se tiver um acompanhamento de uma consultoria que conhece os processos corretos, com certeza a rentabilidade financeira é certeira. Como eu sempre digo, é um oceano azul de oportunidades a montagem de um consultório farmacêutico com um profissional qualificado para trabalhar. Demanda existe muita, só é preciso identificar os pacientes e solucionar suas carências de serviços e procedimentos para atender às necessidades e resolver as doenças já diagnosticadas e não tratadas (ou desprezadas) de cuidados de um profissional de saúde, como no caso do diabetes, hipertensão, dislipidemia e problemas respiratórios, entre tantos outros também com carência de atendimento e cuidados”, finaliza Alvares.

Matéria publicada no Portal do ICTQ 

SAIBA DE QUE MANEIRA OS CONSULTÓRIOS VIRARAM REALIDADE PARA FARMACÊUTICOS

SAIBA DE QUE MANEIRA OS CONSULTÓRIOS VIRARAM REALIDADE PARA FARMACÊUTICOS

 

Embora parte dos pacientes e clientes de farmácias ainda desconheça o atendimento personalizado realizado por farmacêuticos em seus consultórios, desde 2014 muitas farmácias no Brasil passaram a dispor de espaço para esse serviço, o que já é uma realidade comum em muitos países. Nos consultórios farmacêuticos, o profissional tem autonomia para avaliar os medicamentos que o paciente está tomando, se há riscos de interações medicamentosas, indicar medicamentos isentos de prescrição (MIP), entre outras atribuições.

“A consulta farmacêutica é uma alternativa para melhorar a saúde dos pacientes baseada em critérios científicos e mediante protocolos firmados entre outros prescritores habilitados – no caso de medicamentos que demandam prescrição médica, sendo tudo isso feito por meio de registros documentados. Tendo em vista que, segundo as resoluções do Conselho Federal de Farmácia (CFF) 585 e 586, o farmacêutico clínico pode fazer parte da equipe multidisciplinar de saúde”, conta o farmacêutico, aluno da pós-graduação de Farmacologia Clínica e Prescrição Farmacêutica do ICTQ – Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico, João Alves.

Dessa forma, mediante registro no respectivo Conselho Regional de Farmácia, o farmacêutico fica legalmente habilitado a proceder consulta farmacêutica. Alves é considerado um profissional de sucesso em seu setor. Ele afirma que sempre tenta antever aquilo que a população necessita. Ele ouve as pessoas com atenção e está em permanente busca por informação e conhecimento. O Portal de Conteúdo do ICTQ publicou matéria sobre ele, intitulada Ele foi balconista da farmácia e hoje tem uma clínica farmacêutica (leia aqui).

O conceito de consultório farmacêutico foi definido em duas portarias do CFF publicadas em 2013 e a existência desse espaço é também apoiada pela Lei 13.021, de agosto de 2014, que dispõe sobre o exercício das atividades farmacêuticas. Assim, legalmente os farmacêuticos estão preparados para exercer atividades em consultório, no entanto, a qualificação é fundamental.

Anamnese

Uma das habilidades que o farmacêutico precisa desenvolver, constantemente, para a realização de consultas é a anamnese. Essa habilidade de usar a informação para obter conhecimento e tomar decisões deve acompanhar o profissional em todos os momentos de sua atuação nesse segmento. A capacidade de raciocínio clínico em saúde se conhece por semiologia, que, em outras palavras, refere-se ao ato de investigar e estudar sinais e sintomas apresentados pelo paciente, à luz dos conceitos da profissão. A semiologia é base para se formular um diagnóstico clínico.

Muitos farmacêuticos têm dúvidas sobre o processo de semiologia. Mas, afinal, ele pode colocar a mão sobre o paciente? “Na verdade, o farmacêutico, para fazer um processo de semiologia, ele necessita de instrumentos para tal. Um desses instrumentos é o estetoscópio, para poder verificar a pressão arterial, para poder fazer a ausculta – se esse paciente tem algum problema pulmonar, que acho não ser simplesmente falta de um xarope para tosse, e eu poder encaminhá-lo de forma inscrita para um médico. O farmacêutico tem que utilizar, não só esse, como outros instrumentos para visualizar os sinais e sintomas desse paciente”, explica o farmacêutico especialista em Atenção Farmacêutica e professor do ICTQ, André Schmidt.

Segundo Schmidt, para fazer a anamnese existem métodos que o farmacêutico deve adotar. O mais utilizado é o SOAP, cuja sigla indica as etapas do atendimento: é algo subjetivo (vem da história relada pelo paciente) e objetivo. Para isso é necessário conhecimento de habilidades clínicas para solicitar exames clínicos e físicos; em seguida o profissional faz a avaliação, a partir da síntese dos dados, para, ao final, traçar um plano terapêutico.

Serviços e exames

Alves detalha, à reportagem, os serviços que podem ser realizados em consultório farmacêutico. “Além da dispensação de medicamentos, uma farmácia pode oferecer os serviços farmacêuticos de perfuração de lóbulo auricular, aferição de parâmetros fisiológicos (pressão arterial e temperatura corporal) e bioquímicos (glicemia capilar), administração de medicamentos”, conta. Além disso, o farmacêutico pode também solicitar exames para fins de monitoramento terapêutico ou até mesmo para uma triagem e encaminhamento aos profissionais médicos, quando necessário.

Testes rápidos

Em julho de 2019, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) promoveu uma consulta dirigida com o objetivo de levantar dados sobre a prestação de serviços de assistência à saúde em farmácias do País. Entretanto, o segmento tem demandado outros serviços que podem ser feitos nas farmácias, como os exames realizados próximo ao paciente, apelidados de testes rápidos, os chamados Testes Laboratoriais Portáteis (TLPs) – do inglês Point-of-Care Testing (POCT).

Os TLPs são definidos como exames que podem ser executados fora do espaço físico de um laboratório. Uma vez que não necessitam de transporte ao laboratório, os TLPs proporcionam rapidez, agilizando a abordagem ao paciente, bem como possibilitando intervenções imediatas em situações em que há risco de morte.

“A legislação atual, apesar de obsoleta, só permite teste de glicemia capilar. Então, dentro da bioética, devemos seguir a lei. Não praticamos outros testes rápidos, solicitamos ao laboratório quando necessário. Inclusive a RDC 44/09 está na agenda da Anvisa para revisão urgente, onde temos a expectativa da ampliação dos parâmetros farmacêuticos a serem ofertados nas farmácias”, fala Alves.

“O futuro da profissão é a prática clínica. Eu tenho certeza de que conseguiremos galgar muito espaço, assim como afirmo que o farmacêutico é uma das profissões do futuro”, destaca Schmidt. Para esse futuro, não tão distante, Alves considera que o farmacêutico necessita de qualificação profissional, reciclagem técnica, aplicação correta da anamnese farmacêutica, estrutura adequada para garantir a integridade, individualidade, sigilo e conforto do paciente.

A seguir, confira a entrevista exclusiva com o farmacêutico e professor do ICTQ, André Schmidt, falando sobre consulta farmacêutica.

ICTQ - A resolução 585, de 2013, do CFF, menciona que o farmacêutico deve atender em consultório farmacêutico para privacidade do atendimento. Mas o farmacêutico pode ter um consultório?

André Schmidt – A resolução 585 fala claramente sobre as atribuições clínicas do farmacêutico e nela prevê que o farmacêutico deve prover consultas farmacêuticas em ambiente privado, e esse ambiente privado é um consultório. Farmacêutico deve, com certeza, atender dentro de um consultório.

ICTQ - Além disso, a norma diz que ele está autorizado a realizar anamnese e verificar sinais e sintomas do paciente. Essa anamnese é a mesma realizada por médicos?

André Schmidt – Isso mesmo. Eu costumo sempre brincar que a anamnese é um processo de trazer à tona tudo aquilo que o paciente irá nos informar. Ele vai explicar qual é a queixa principal, quanto tempo ele se encontra com essa patologia, com esse problema de saúde, e, após isso, irei fazer um processo de semiologia – avaliar os sinais e sintomas dele. É o mesmo processo para a medicina, para a fisioterapia, para nutrição, para enfermagem. É o mesmo processo tanto para farmacêutico como para médico.

ICTQ - O farmacêutico pode solicitar alguns exames laboratoriais para acompanhamento farmacoterapêutico? Esses exames podem ser realizados dentro do estabelecimento farmacêutico?

André Schmidt – O farmacêutico pode solicitar vários exames para acompanhamento farmacoterapêutico. Por exemplo, se o paciente for diabético, pode ser solicitado uma hemoglobina glicada e glicemia de jejum. Para pacientes com perfil lipídico, com dislipidemia, eu vou pedir todo o perfil lipídico, HDL, LDL e triglicérides para poder avaliar. Posso pedir também exames complementares para avaliar a farmacocinética desse paciente para ver como que está a função renal e a função hepática. O farmacêutico tem uma gama de exames que ele pode solicitar no âmbito de sua profissão.

ICTQ - Qual o cenário atual dos farmacêuticos assumindo o papel de profissional da saúde após a publicação das resoluções 585 e 586?

André Schmidt – Essa publicação, que é desde 2013, está dando autonomia para o farmacêutico não estar focado no produto, ou seja, no medicamento, e ficar focado no serviço e no paciente, fazendo com que esse paciente recupere a saúde, faça uma promoção da saúde e melhore os seus hábitos de vida, inclusive.

Matéria publicada no Portal do ICTQ 

CONFIRA: FARMACÊUTICOS PODERÃO PRESCREVER MEDICAMENTOS TARJA VERMELHA

CONFIRA: FARMACÊUTICOS PODERÃO PRESCREVER MEDICAMENTOS TARJA VERMELHA

Por Egle Leonardi

Uma nova categoria de medicamentos – tarja azul - poderá ser criada a partir da aprovação no Congresso Nacional do projeto de lei (PL) 5443/19, do deputado Eduardo Bismarck (PDT-CE) (entrevista exclusiva abaixo). A partir da aprovação desse PL, a prescrição farmacêutica tomará outro rumo no País, e os farmacêuticos passarão a prescrever alguns medicamentos tarja vermelha.

O projeto prevê que receberão a tarja azul aqueles medicamentos que, atualmente, têm tarja vermelha (sem retenção de receita) que possuem, no mínimo, 70% dos critérios estabelecidos para os medicamentos isentos de prescrição (MIPs). Isso quer dizer que esses tarja vermelha que se enquadrarem nesses critérios poderão ser prescritos por farmacêuticos.

O projeto altera a Lei 9.782/99, que criou a Anvisa, e amplia o espectro da  Resolução 586/13, do Conselho Federal de Farmácia (CFF), que autoriza os farmacêuticos a prescreverem MIPs. Uma das partes consideradas mais polêmicas ficou por conta da autorização da revalidação, pelos farmacêuticos, das prescrições médicas de antibióticos, por uma única vez, no prazo máximo de 30 dias.

O deputado defende que a formação dos farmacêuticos proporciona a eles conhecimento técnico e científico suficiente para uma avaliação mínima do paciente e, eventualmente, com possibilidade de prescrever um medicamento para tratamento da saúde.

O PL 5443/19 estabelece novos critérios para o enquadramento ou desenquadramento de MIPs, que passam a ser regulamentados exclusivamente por lei. Vale lembrar que a constituição de uma lista contendo esses critérios é prerrogativa da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), e foi publicada por meio da Instrução Normativa (IN) 11, de 29 de setembro de 2016.

Apenas para lembrar, a classificação de um medicamento como isento de prescrição médica atende, atualmente, a sete critérios definidos pela Anvisa. A RDC 98/16, fixa as exigências para que um medicamento seja registrado como MIP e possa ser vendido diretamente o consumidor.

Sete regras para ser considerado isento de prescrição:

  1. Tempo de comercialização;
  2. Perfil de segurança: deve possuir reações adversas com casualidades conhecidas, baixo potencial de toxicidade e de interações medicamentosas;
  3. Deve ser indicado para o tratamento de doenças não graves e com evolução lenta ou inexistente;
  4. É utilizado por curto período ou pelo tempo previsto em bula no caso de medicamentos de uso preventivo (não existem MIPs de uso contínuo);
  5. Precisa ser de fácil manejo pelo paciente, cuidador ou mediante orientação pelo farmacêutico;
  6. Necessita apresentar baixo potencial de risco em situações de mau uso ou abuso; e
  7. O MIP não deve possuir potencial de gerar dependência química ou psíquica.

CFF comemora o PL

O presidente do CFF, Walter Jorge João, comemorou o fato, por meio de suas redes sociais, lembrando que a prescrição farmacêutica está autorizada pelo Conselho Federal de Farmácia desde 2013 (Resolução 586/13).

Sobre o PL 5443/19, Jorge João disse: “Qual é a vantagem disso? É que é sempre mais seguro contar com o farmacêutico na hora de usar um MIP. O farmacêutico é o profissional da saúde que tem mais conhecimento sobre medicamentos. Atua desde a pesquisa de novos fármacos até fabricação, distribuição, dispensação e orientação sobre o seu uso! O PL cria uma nova classificação de medicamentos, os de tarja azul, que serão prescritos por farmacêuticos, e médicos, claro!”.

Leia também: Resolução 586/13, sobre prescrição farmacêutica, comentada.

Como era de se imaginar que a classe médica seria contra esse PL 5443/19, a equipe de jornalismo do ICTQ entrou em contato com o Conselho Federal de Medicina (CFM) e, por meio de sua assessoria de imprensa, recebeu essa resposta: “O conteúdo desse projeto de lei está sendo avaliado no âmbito da Comissão de Assuntos Políticos do Conselho Federal de Medicina, que ainda não se posicionou a respeito”.

Todos os profissionais interessados poderão opinar sobre o tema. Para isso, está disponível um link no site da Câmara dos Deputados onde as pessoas podem participar e registrar suas opiniões sobre o PL 5443/19 (opine aqui).

Para falar mais profundamente sobre o PL 5443/19, o deputado Eduardo Bismarck concedeu uma entrevista exclusiva ao jornalismo do ICTQ. Acompanhe.

ICTQ - Deputado, por que o senhor decidiu apresentar a proposta de ampliar o conceito da prescrição farmacêutica?

Eduardo Bismarck - Foi por meio de uma demanda de farmacêuticos que me sugeriram esse enquadramento novo, ou seja, a criação do medicamento de tarja azul. Como essa atividade já acontece e já é praticada no exterior, aqui no Brasil seria uma modernização da legislação. Assim, eu entendi que seria um tema pertinente para ser debatido.

ICTQ - A proposta da sua lista de medicamentos de tarja azul estaria ampliando a lista da Anvisa já estabelecida para itens de prescrição farmacêutica?

Eduardo Bismarck - Na verdade, nós criaremos a tarja azul para nomear todos os medicamentos que já podem ser prescritos pelo farmacêutico, trazendo uma segurança maior para as pessoas que adquirem o medicamento. O projeto amplia, sim, a lista já disponibilizada pela Anvisa. Ele engloba os medicamentos de tarja vermelha que atendem a 70% dos critérios estabelecidos para os medicamentos isentos de prescrição (MIPs). Ele transforma todos esses medicamentos em tarja azul. Ele cria um critério novo, uma nova categoria de medicamento, e dá uma segurança maior para o consumidor.

ICTQ - O senhor quer dizer que, ao pegar esses medicamentos tarja azul, o consumidor, necessariamente, teria de passar pela orientação do farmacêutico? Ou eles ficariam dispostos nas gôndolas como medicamentos de venda livre?

Eduardo Bismarck - Os medicamentos de tarja azul, especificamente, devem receber a orientação do farmacêutico sobre a forma de utilização. Isso diminui a automedicação, por isso é importante essa nova categoria, evitando com que ele tenha de ficar usando repetidamente o mesmo medicamento, uma vez que o farmacêutico pode renovar a prescrição para até 30 dias, apenas uma vez, evitando o uso recorrente daquele medicamento, o que acaba, muitas vezes, causando um dano muito maior para o paciente, porque ele usa repetidamente aquele medicamento que pode mascarar um problema mais grave, tornando-se um problema crônico no futuro.

A ideia é que ele use, de uma forma mais controlada, o medicamento que ele já compra livremente na farmácia. E, que no caso de ele não estar usando corretamente, o farmacêutico, que é o profissional preparado, vai orientá-lo imediatamente a procurar um médico.

ICTQ – Mas os medicamentos de tarja azul poderão ficar nas gôndolas normalmente?

Eduardo Bismarck - Sim. Eles continuam nas gôndolas, mas sob a supervisão do farmacêutico, que terá um papel muito mais atuante nesse processo e um papel mais responsável. Ele ganha um protagonismo nesse processo e, ao mesmo tempo, ele será o maior aliado do médico, porque ele estará encaminhando o paciente para cuidar dos seus sintomas para que ele não vire uma bomba relógio.

ICTQ - No seu projeto de lei, o senhor fala sobre antibióticos, que são um problema de saúde pública mundial por conta da resistência bacteriana. O senhor indica que o farmacêutico poderá prescrever essa classe de medicamentos por mais uma vez e no período de 30 dias. Como isso funcionaria, sendo que a prescrição dessa classe não é permitida ao farmacêutico?

Eduardo Bismarck - Muitas vezes acontece... e já aconteceu comigo. O paciente não toma o antibiótico direito, perdeu o antibiótico ou não fez o tratamento da forma adequada. Essa ‘represcrição’ evitaria ele ter de voltar para a fila do hospital ou do posto de saúde para uma repetição de dose. O farmacêutico poderá prolongar por 30 dias, a partir da data que foi dada a receita, e fazer uma segunda carga de antibióticos. A ideia é que uma única vez seria o limite adequado para a revalidação da receita.

ICTQ – O senhor postou uma matéria publicada no Portal do ICTQ sobre esse tema nas suas redes sociais, e pediu sugestões para a classe. Os farmacêuticos estão a favor desse projeto de lei?

Eduardo Bismarck - Veja, tem gente que está apoiando e tem gente compra, dos dois lados, ou seja, tanto do médico como do farmacêutico. Eu entendo que essa é uma discussão muito mais profunda do que está na lei. Eu sou advogado, não sou médico nem farmacêutico. Eu propus esse PL justamente para que haja uma discussão. A Câmara dos Deputados é muito boa nisso, e a maioria dos profissionais que atua lá é de médicos. Por isso, essa é uma discussão que não vai passar em branco.

ICTQ – Como o PL está tramitando?

Eduardo Bismarck - Depois que eu apresento um projeto, eu não tenho mais ação sobre ele. Neste caso, a relatora é a deputada Flávia Morais (PDT-GO), que foi destacada para o PL 5443. Ele está na Comissão de Seguridade Social e Família (CSSF).

A deputada, com certeza, irá ouvir os dois lados. Eu irei sugerir para ela que aprofunde o debate. O primeiro passo para aprofundar esse debate é a realização, ainda neste ano, de uma audiência pública, chamando o Conselho Federal de Farmácia, o Conselho Federal de Medicina e a própria Anvisa para a mesa. Assim, cada um emitirá a sua opinião sobre o assunto, e a deputada Flávia Morais poderá emitir um relatório na CSSF.

Se o relatório dela for negativo, o projeto nem passa para a próxima etapa. Se o relatório dela for positivo, ela pode até apresentar uma saída alternativa com os ajustes necessários para atender a todas as partes. Para isso é importante a audiência pública e fazer um debate.

Eu incentivei o debate na minha própria rede social, mas não imaginei que tomaria uma repercussão tão grande assim. Apesar de alguns poucos comentários negativos, eu acho muito produtiva essa discussão, pois ela traz opiniões e traz até questões como o local onde o farmacêutico poderia fazer essa prescrição, seja no balcão, seja em pé ou na gôndola. Esses são ajustes que a gente colocou e que serão ponderados ao longo do processo.

A legislação que a gente propõe - e o papel do legislador é justamente esse - é uma questão que precisa ser solucionada, além do pleito dos farmacêuticos, o que me convenceu foi que esse tema vai trazer uma segurança maior ao consumidor, e vai contra a automedicação recorrente. Com isso, eu faço questão de que o debate aconteça e que a gente tenha um ganho para a sociedade. A beleza do parlamento é essa...já que são 513 cabeças pensando.

ICTQ - Deputado, algum representante do CFF e do CFM chegou a procurar o senhor para falar sobre o assunto?

Eduardo Bismarck – Ainda não. Eu já recebi pedidos de audiência em Brasília. Irei receber todas as entidades para um debate e encaminhar essas sugestões para a nossa relatora da CSSF, para que ela faça audiência pública, da qual eu farei questão de participar, para gerar a maior amplitude de debate possível.

Matéria publicada no Portal do ICTQ 

VEJA: RDC 318/19 EQUIPARA OS PRODUTOS NACIONAIS COM OS MERCADOS MUNDIAIS MAIS EXIGENTES

VEJA: RDC 318/19 EQUIPARA OS PRODUTOS NACIONAIS COM OS MERCADOS MUNDIAIS MAIS EXIGENTES

Por Egle Leonardi

O novo marco regulatório da RDC 318, de 6 de novembro de 2019, coloca os medicamentos produzidos e comercializados em solo brasileiro no mesmo padrão de qualidade e conformidade dos maiores e mais exigentes mercados consumidores globais.

A normativa estabelece os critérios para a realização dos estudos de estabilidade de insumos farmacêuticos ativos (IFAs) e de medicamentos novos, inovadores, genéricos, similares, dinamizados, específicos, de notificação simplificada, fitoterápicos e radiofármacos, mas não se aplica a produtos biológicos e aos IFAs utilizados em sua fabricação.

Ela vem harmonizar as tratativas para a condução dos estudos de estabilidade, tanto para medicamentos como para IFAs, revogando os textos das resoluções RDC 01/05, que tratava exclusivamente de estudos de estabilidade de medicamentos; e a RDC 45/12, que orientava sobre a condução de estudos de estabilidade de IFAs, além de outras normativas, guias e orientações.

Na essência, o novo marco regulatório que traz a RDC 318/19 vem alinhar o mercado brasileiro às principais diretrizes do ICH, melhorando o padrão de qualidade dos produtos fabricados no Brasil e levando-os ao mesmo patamar dos melhores do exterior.

Essa legislação traz um maior detalhamento no delineamento e condução dos estudos e testes já exigidos nas revogadas RE 01/05 e RDC 45/12, como critérios para a condução e execução de estudos de estabilidade pós-reconstituição e diluição e degradação forçada, além de novas abordagens, como a avaliação da estabilidade em uso, trazendo maior robustez e qualidade no desempenho do medicamento durante seu prazo de validade.

“Destaco, ainda, que um grande desafio que essa legislação impõe para as empresas e profissionais que atuam na área é a avaliação estatística dos dados e tendências dos resultados dos estudos, seja para obtenção do prazo de validade provisório ou mesmo para assegurar o prazo de validade definitivo. Essa abordagem exigirá demanda de profissionais dedicados, especializados, e capacitação técnica das equipes em cursos e ferramentas estatísticas”, afirma o gerente de Garantia da Qualidade do Ephar Instituto Analítico, Paulo Favaro.

Outra mudança significativa que a resolução impõe é um maior detalhamento nas informações dos protocolos e relatórios dos estudos, bem como o maior rigor nas variações permitidas em cada ensaio no decorrer do estudo para obtenção dos registros dos produtos.

De acordo com a especialista em Assuntos Regulatórios da Eurofarma, Vanessa Rodrigues, a RDC 318/19 traz outras necessidades, como:

· testes e estudos adicionais (como o controle de antioxidantes e antimicrobianos em todos os pontos dos estudos, necessidade de estudos de congelamento para materiais refrigerados e estudos de temperatura superior para materiais congelados);

· frequências adicionais (como a necessidade de estudos de uso, reconstituição e diluição no início, no fim e no ponto de submissão da petição); e

· dados e controles adicionais (como a necessidade de apresentação de 12 meses de estudo de longa duração para moléculas novas e da apresentação de avaliação estatística para concessão de prazo de validade provisório, limitando a adoção imediata de prazos de 24 meses, que antes eram concedidos automaticamente, e da utilização de sistemas de monitoramento para a avaliação de exposição luminosa nos estudos de fotoestabilidade).

“Tudo isso garante a qualidade do produto, mas faz com que as empresas precisem, neste momento, avaliar a capacidade de trabalho (mão de obra) e o espaço de armazenamento das amostras em câmara de estabilidade. Faz também com que se tenha a necessidade de avaliar, do ponto de vista estratégico, o momento de submeter uma petição de registro baseado na avaliação da qualidade dos dados e o quanto eles podem ser tratados estatisticamente para a extrapolação e a sustentação de um prazo de validade provisório”, explica Vanessa.

Complementando, ela acrescenta que, se a empresa estava acostumada a submeter uma solicitação de registro com 6 meses de estudo e, automaticamente, ter concedido um prazo de 24 meses, atualmente terá que pensar em quanto tempo a fila de análise da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) está para planejar a submissão e o recebimento de exigência, de modo que consiga sustentar o prazo de validade para os produtos que possuem variabilidade de resultados que incorram na necessidade da avaliação estatística dos dados.

“No caso de pós-registro, embora não haja a obrigatoriedade da avaliação estatística, deve-se observar o comportamento do estudo do produto alterado com seus dados históricos anteriores, pois, a depender da relação, o prazo anteriormente concedido também pode não ser mantido” diz ela.

Impactos no processo produtivo

As maiores mudanças não serão no processo produtivo de imediato, embora produtos com alta variabilidade no processo de fabricação possam sofrer com essa necessidade de avaliação estatística para a concessão do prazo de validade provisório, segundo Vanessa.

Para ela, num primeiro momento, o impacto será dentro do laboratório: o analista de estabilidade deverá ter a plena consciência da importância do seu trabalho (que já era muito relevante). Assim, qualquer variação no método, no preparo de amostras e no equipamento pode gerar dados que possam prejudicar a avaliação estatística e não permitir concessão de prazo de validade provisório, fazendo a empresa perder um tempo precioso no processo de submissão para ter mais dados que sustentem um prazo maior.

“Aqui também ferramentas de avaliação de resultados fora de tendência (planilhas e programas estatísticos), que sejam on time, ou seja, avaliação no momento das análises, serão essenciais, já que resultados fora de tendência devem ser investigados, reportados e corrigidos imediatamente para não prejudicar essa análise”, defende a especialista.

Em um segundo momento, quando se entender de onde a variabilidade vem, pode ser necessário alterar processos para dados mais robustos e confiáveis que permitam a aplicação ou a manutenção de prazos de validade provisórios mais extensos.

Para Favaro, a atual legislação exigirá investimentos de caráter estrutural e técnico, com aumento de área e aquisição de equipamentos para realização dos estudos, além de capacitação da equipe e contratação de corpo técnico especializado para a avaliação dos resultados.

“A exigência de novos estudos, com a inclusão de testes e mudanças nas especificações e faixas de aceitação - antes não executados ou mesmo ausentes nas legislações recém-revogadas - poderá gerar reavaliações das formulações e processos por não atingimento das expectativas ou mesmo por falha de performance do medicamento”, alerta o diretor do CDPI – Centro de Desenvolvimento Profissional Industrial e diretor do Ephar, Poatã Casonato.

Desafios

Favaro acredita que o maior desafio para as empresas passa pela mudança de mentalidade e comportamento na condução dos estudos de estabilidade, bem como pelo uso dos resultados dos novos testes exigidos para a melhoria dos processos e o aumento da qualidade, durabilidade e performance dos produtos disponibilizados ao mercado. Essa normativa busca uma abordagem multidisciplinar baseada no gerenciamento de riscos e conhecimento profundo do produto a ser comercializado ou a melhoria daquele que já se encontra no mercado.

“Muitas empresas precisarão aumentar suas estruturas voltadas aos estudos de estabilidade, tanto no aspecto físico da incubação dos produtos como na sua capacidade analítica e técnica”, comenta ele.

Vale ressaltar que essa normativa entrou em vigor em 07/11/2019, sendo que os estudos iniciados a partir desta data já deverão contemplar os aspectos técnicos contidos no seu arcabouço.

Vanessa também acredita que a indústrias enfrentarão algumas dificuldades, principalmente no começo, já que existe uma necessidade de trabalho e de espaço adicional que nem todas as empresas têm, e a mão de obra qualificada de laboratório está escassa.

“Nesse primeiro momento são muitas coisas para se pensar ao mesmo tempo, como os investimentos em mão de obra e espaço (ainda que terceirizada) de câmaras de estabilidade, revisão de todos os protocolos (já que para estudos iniciados após 7 de novembro de 2019 não há transitoriedade), eventualmente desenvolvimento de métodos analíticos para quantificação de antimicrobianos e especialmente antioxidantes (se presentes na formulação), que antes não eram monitorados ponto a ponto”, afirma ela

É fundamental atentar para o prazo de transitoriedade para estudos já concluídos ou em andamento, já que a norma trouxe um prazo de utilização desses estudos com sua publicação, especialmente para as formas farmacêuticas que têm estudos de uso, reconstituição e diluição, quantificação de antimicrobianos e antioxidades e perda de peso, testes que foram incluídos, tiveram frequência ou especificação alterada.

A questão da ferramenta e da avaliação estatística também trará uma dificuldade adicional para o estabelecimento de prazos de validade satisfatórios do ponto de vista comercial, já que, especialmente no caso de medicamentos que podem ser priorizados, a tendência da Anvisa é de uma diminuição do prazo de fila para análise, o que, para Vanessa, força as empresas a submeter os estudos com uma quantidade maior de dados de estabilidade que os atuais 6 meses permitidos e praticados, por conta da aplicação prática dessa avaliação para a definição do prazo de validade provisório.

Expectativas da Anvisa

“Essa abordagem, mediante esse marco regulatório, traz maior clareza nas expectativas da agência reguladora nacional (Anvisa) quanto ao padrão de qualidade que será exigido e aceito pelo órgão”, lembra Casonato.

Para as empresas, essa normativa visa trazer um olhar mais criterioso quanto ao assunto relacionado aos produtos e processos, aumentando, assim, as informações e conhecimento técnico dos medicamentos desenvolvidos, resultando em maior segurança e eficácia terapêutica.

Um ponto positivo a destacar é a atuação da Anvisa quanto às novas legislações que estão em processo de atualização. “Nossa agência reguladora, por meio das consultas públicas, permite o acesso ao texto base da nova legislação e reúne, com antecedência, as expectativas e questionamentos das empresas e profissionais, promove reuniões para esclarecimentos e posicionamento técnico da Agência, visando mitigar possíveis não aderências e dúvidas na implementação da norma na rotina industrial. Outro aspecto que as empresas devem usufruir é o canal direto do Fale Conosco que visa esclarecer dúvidas pontuais acerca de problemas técnicos e específicos”, avisa Favaro.

Já Vanessa aconselha que os profissionais participem da discussão do guia 28/19, aberta até maio de 2020. Esse guia pode ter um impacto grande na condução e nas necessidades da RDC 318/19 ainda.

“É fundamental que os gestores entendam e conscientizem seus analistas sobre a importância de seu trabalho de maneira acurada e que eles coloquem em prática ferramentas de controles de resultados fora de tendência porque isso vai ajudar a identificar variabilidade de processo, de método ou do próprio produto, ajudando na definição dos prazos de validade provisórios mais assertivos e mais extensos, o que diminui a necessidade posterior de pós-registro para o aumento de prazo de validade, que depende de análise e aprovação prévia da Anvisa”, finaliza ela.

Matéria publicada no portal CDPI Pharma

A ENFERMAGEM DE SAÚDE DA FAMÍLIA E O EXERCÍCIO DO RESPEITO, SENSIBILIDADE E RESPONSABILIDADE

A ENFERMAGEM DE SAÚDE DA FAMÍLIA E O EXERCÍCIO DO RESPEITO, SENSIBILIDADE E RESPONSABILIDADE

Desde a implantação da Estratégia Saúde da Família (ESF) - um programa vinculado ao Ministério da Saúde -, o enfermeiro tomou a frente como peça indispensável pela melhoria de indicadores de saúde no Brasil. Isso inclui a diminuição da mortalidade infantil e mortalidade materna. Assim, tem-se uma iminente necessidade de formação de profissionais qualificados para atuar na área, e que desenvolvam as habilidades específicas, fortalecendo a atenção básica no País.

Na ESF, o enfermeiro desenvolve seu trabalho em duas frentes, na Unidade Básica de Saúde (UBS) e na comunidade. Ele apoia e supervisiona o trabalho dos agentes comunitários de saúde e do auxiliar de enfermagem, da mesma forma que assiste àqueles que necessitam de atendimento de enfermagem em domicílio.

Desde 1994, a ESF vem promovendo a qualidade de vida da população brasileira e intervindo nos fatores que colocam a saúde em risco, como a falta de atividade física, a má alimentação e o uso de tabaco. Com a atenção integral, equânime e contínua, a ESF se fortalece como via de acesso ao Sistema Único de Saúde (SUS) e tem contribuído com a construção de um novo paradigma assistencial, estimulando a prática humanizadora e holística.

A proximidade da equipe de saúde com o usuário permite que se conheça a pessoa, a família e a vizinhança. Isso garante maior adesão desse usuário aos tratamentos e às intervenções propostas pela equipe de saúde. O fato gera um impacto direto na quantidade maior de problemas de saúde solucionados na Atenção Básica – cerca de 80%, não sendo necessário, portanto, intervenção de média e alta complexidades em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA 24h) ou hospital. É claro que, se fizer necessário um cuidado mais avançado, a ESF realiza o encaminhamento do paciente.

Atualmente, 95% dos municípios do País têm cobertura da enfermagem da ESF. Essas equipes multidisciplinares são responsáveis pelo desenvolvimento de ações de promoção à saúde, prevenção, recuperação, reabilitação de doenças e agravos mais frequentes.

Para que a ESF conquiste, cada vez mais, melhores resultados é imprescindível o trabalho em conjunto e integrado. Nessa força-tarefa merecem destaque os 33 mil enfermeiros e os 257 mil agentes comunitários de saúde (ACS) - profissionais que beneficiam mais de 192 milhões de pessoas.

Atribuições da enfermagem

Segundo o Ministério da Saúde, são algumas das atribuições do enfermeiro no âmbito do programa de agentes comunitários de saúde (PACS):

- planejar, gerenciar, coordenar e avaliar as ações desenvolvidas pelos agentes comunitários de saúde;

- supervisionar, coordenar e realizar atividades de qualificação e educação permanente dos agentes comunitários, com vistas ao desempenho de suas funções;

- facilitar a relação entre os profissionais da UBS e os agentes comunitários, contribuindo à organização da demanda referenciada;

- realizar consultas e procedimentos de enfermagem na UBS e, quando necessário, no domicilio e na comunidade;

- solicitar exames complementares e prescrever medicações, conforme protocolos ou outras normativas técnicas estabelecidas pelo gestor municipal ou do Distrito Federal, observadas as disposições legais da profissão; e

- organizar e coordenar grupos específicos de indivíduos e famílias em situação de risco da área de atuação dos agentes comunitários de saúde.

Quanto ganha

O site de empregos Vagas.com indica que, no cargo de Enfermeiro de Saúde da Família, o profissional inicia ganhando R$ 3.628,00 de salário e pode vir a receber até R$ 5.919,00. A média salarial para esse cargo de atuação no Brasil é de R$ 4.815,00.

Caso de sucesso

Natural de Floresta, no sertão pernambucano, o enfermeiro, Túlio Alves, ainda não possui décadas de profissão, mas em pouco tempo de conversa não é difícil perceber que ele vai longe. Na faculdade, ele encontrou o caminho, antecipou a conclusão da graduação para ingressar na Residência em Saúde da Família e, no próximo ano, se torna Mestre em Políticas Públicas.

A pouca idade não equivale ao extenso currículo desse morador de Recife: enfermeiro, professor, palestrante e empreendedor. Em entrevista exclusiva ao jornalismo do PGE – Instituto de Pós-Graduação em Enfermagem, Alves conta sobre as dificuldades de atuar com ESF, a importância de se especializar e de como a empatia e a humanização são fundamentais para esse cotidiano. Acompanhe a seguir.

PGE - Como foi sua formação?

Túlio Alves - Minha formação como enfermeiro foi de excelência. Estudei na Universidade Federal do Pernambuco (UFPE) e lá os professores eram muito capacitados, tanto teoricamente como na prática. Já estava fazendo pesquisa logo primeiro período. Em nosso curso, as práticas começavam no quarto período. Cada disciplina era um estágio, um conhecimento novo que, até hoje, me ajuda. Sabemos que existem algumas falhas, como melhores laboratórios e menos livros. Entrei na universidade em 2012. Deveria terminar o curso no primeiro semestre de 2017, porém antecipei a formatura por passar na Residência. Então, conclui no segundo semestre de 2016.

PGE - Em sua trajetória, por onde percorreu profissionalmente?

Túlio Alves - Assim que terminei o curso de bacharelado em enfermagem, passei na prova da Residência pelo Ministério da Saúde. Fui residente durante dois anos na área de Saúde da Família pelo Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (IMIP). Atuei na Unidade de Saúde da Família Coelhos I. Hoje sou enfermeiro da Unidade de Saúde da Agrodan, na cidade de Belém de São Francisco; docente do curso de Enfermagem do Centro Universitário Facol (UNIFACOL), em Vitória de Santo Antão; e empreendedor na área de Enfermagem de Saúde Família.

PGE - Como sua formação contribuiu para você chegar onde você está atualmente?

Túlio Alves - Fazer a pós-graduação em Saúde da Família foi fundamental. Na graduação, aprendemos o básico sobre os programas que regem a saúde da família e realizamos poucas intervenções. Ter a especialização te faz enxergar diferente, te oferece maior autonomia e qualificação do trabalho perante a equipe e comunidade. Ser especialista em saúde da família é entender o processo da assistência e da gerência dentro da Atenção Básica. Vale salientar que o profissional com pós-graduação consegue maior estabilidade no local de trabalho só por não ser um profissional generalista.

PGE - Quanto uma pós-graduação pesa para que o profissional alcance sucesso em sua área?

Túlio Alves - A pós-graduação é o padrão ouro dos profissionais de saúde. Ela capacita especificamente para a área que você escolhe e faz com que você seja especialista naquela área, ou seja, um expert no assunto. Para o Ministério da Saúde, o enfermeiro da Saúde da Família com especialização na área é o mais capacitado para tal, desbancando os outros profissionais que não possuem especialidade na área.

PGE - Você se considera uma profissional de sucesso?

Túlio Alves - A palavra sucesso é algo muito subjetivo, depende do ponto de vista do que a pessoa queira alcançar. Não usaria a palavra sucesso e sim, realização. Sinto-me muito realizado pela área que escolhi. Tenho um bom emprego, trabalho com o que realmente escolhi fazer.

Na época da graduação sempre tive aptidão para trabalhar com família e comunidade. Fiz residência na área e sou palestrante também, abordo todos os conteúdos trabalhados na saúde da família. Existe um fator determinante que me faz seguir cada dia mais realizado: é a forma de como se pode tocar na vida e na alma do outro. Isso é o impacto que nem se imagina. Durante esses quase três anos de Saúde da Família tive, e tenho, experiências que me fazem seguir essa caminhada. Para os meus amigos e as pessoas que me seguem eu sou um profissional de sucesso. Agradeço sempre.

PGE - A que você atribui seu sucesso profissional?

Túlio Alves – Atribuo à minha formação profissional da especialização. Sempre divulgo os trabalhos, as campanhas e atualizações no meu Instagram. Acredito que as redes sociais também me ajudaram, já que não sou tímido e sempre posto algumas curiosidades da área, novas informações, aulas rápidas para concurso e tiro muitas dúvidas das pessoas, amigos e conhecidos que me pedem. Inclusive, sempre pedem indicação de qual pós-graduação seguir e onde estudar. Isso me deixa muito feliz e realizado. Influenciar vidas por meio da educação é incrível.

PGE - De que maneira o seu perfil o levou à ascensão?

Túlio Alves - Na residência, a minha preceptora, a enfermeira, Jeorgia Costa, sempre comentava da minha energia, paciência, escuta, profissionalismo, empatia, humanização, humor, capacidade de aprender e sempre querer mais e de ter aptidão para trabalhar com família e comunidade. Acredito muito no que ela fala. O meu perfil é esse, e ainda acrescento: não sou tímido e corro atrás do que eu quero. Existe o lado cômico que também agrada muita gente. Sou perseverante e resiliente. Pois bem, esse perfil pode ajudar muita gente a chegar a lugares que nem você mesmo acredita.

PGE - Quais foram as suas principais motivações na sua trajetória?

Túlio Alves - Essa é a parte que passa um filme na cabeça. Eu me sentia perdido nas áreas que comecei a estudar. Foi em um estágio de um determinado curso que fazia que me fez conhecer a enfermagem. Eu percebi que gostava de contato com as pessoas, de cuidar. E assim fiz, tentei o vestibular de Enfermagem e consegui uma vaga na UFPE. Foram quatro anos e meio de estudo, muito esforço, privações e noites sem sono estudando para as provas e um sonho de ter uma vida melhor.

Nascer em uma cidade no sertão pernambucano, onde oportunidade de crescer era zero, família pobre, a sociedade local pouco acreditava no meu potencial... tinha tudo para ser um nada. Contrariando todas as estatísticas, fui e fiz meu nome. Eu tinha duas motivações, que eram ter um curso superior e viver do meu trabalho. Hoje, tenho tudo isso e ainda mais, vou ser mestre no meio do ano que vem. Tem coisa melhor? Quando me lembro de tudo que passei para chegar onde estou, agradeço muito a Deus e sempre tento ajudar a quem está por perto.

PGE - Quais foram seus principais desafios?

Túlio Alves - Me estabelecer no mercado de trabalho e receber um bom salário mediante o atual cenário do País. Quando terminamos a residência ou pós-graduação o que nos aflige é o desemprego. A enfermagem está saturada, há muitos profissionais no mercado, poucos postos de trabalho. A pós-graduação, sem dúvida, me fez adentrar os postos de trabalho. Recebi várias propostas para trabalhar na saúde da família. Uma pós de qualidade pode mudar seu rumo profissional. Além desse desafio, existe o de se capacitar sempre com pouco tempo. Para esse desafio sempre indico cursos livres. Acho o máximo.

PGE – E, de maneira geral, quais os desafios do cotidiano de um enfermeiro que atua com saúde da família?

Túlio Alves - O maior desafio da Saúde da Família é trabalhar com a fome, a pobreza, locais de moradia insalubre, falta de água, de saneamento básico, desnutrição. Tem outras e outras que poderia citar. Infelizmente, esses desafios fogem da minha ou da nossa governabilidade. Só por meio de políticas públicas que cheguem a quem realmente precisa é que iremos mudar essa realidade.

Eu sempre digo aos meus alunos ou aos gestores em reuniões: do que adianta falar de água tratada se eles não possuem rede encanada de água? Muitos podem até me criticar, mas a Saúde da Família consegue trabalhar métodos simples e eficazes nessas situações. Somos a ponta de todo e qualquer serviço da saúde desse País, somos a base. Um desafio macro da Saúde da Família é o subfinanciamento e destruição da política nacional da atenção básica.

PGE - Quais foram as suas principais conquistas?

Túlio Alves - Na área profissional, trabalhar na área que escolhi, ajudar a mudar a vida de pessoas, melhorar as condições de saúde do território em que trabalho, capacitar outros profissionais, o meu suado Mestrado em Políticas Públicas, saber que cuido de pessoas e elas são gratas por isso, ajudar a montar o serviço que trabalho e ser instrumento de perseverança na vida das pessoas como eu, que só precisavam de uma oportunidade. Na área pessoal: é o amor que tenho pela saúde da família e por meio do qual pago os famosos “boletos de cada dia”.

PGE - Quais são as dicas que você pode dar para quem está vislumbrando seguir por essa área?

Túlio Alves - Primeiro é não desistir. Essa palavra não existe no meu vocabulário. E fazer uma pós-graduação de qualidade, que te ofereça campo de estágio, que tenha professores de excelência na área, que dominem o conteúdo e que saibam passar. Tem que gostar de trabalhar com comunidade, de fazer visita domiciliar, de entender que medicação não é tudo, não ser tímido, não ter medo, ter amor, respeito, sensibilidade, carisma, responsabilidade e afeto. Ser humano e estar pronto para defender em qualquer circunstância seu território.

PGE – Gostaria de deixar outras considerações?

Túlio Alves - Sim. Trabalhar com Saúde da Família exige liderança e conhecimento de várias áreas de atuação. Para os enfermeiros, uma pós em Saúde da Família deve contemplar além das políticas, atribuições da sua profissão. Isso é um diferencial para quem quer ter sucesso.

Na minha visão de especialista existem dois tipos de pós em saúde da família, uma voltada para as políticas de saúde, que abrangem várias profissões; e outra que, além de ter as políticas de saúde, possuem áreas específicas da enfermagem, como por exemplo, saúde da criança (abordagem da puericultura), saúde da mulher (abordagem sindrômica) e obstetrícia (pré-natal).

Publicado no Portal PGE 

O TRABALHO DO ENFERMEIRO ONCOLÓGICO E O EXERCÍCIO DA EMPATIA

O TRABALHO DO ENFERMEIRO ONCOLÓGICO E O EXERCÍCIO DA EMPATIA

 

Felizmente, já é possível comemorar os grandes avanços que a oncologia tem conquistado, principalmente, nas técnicas terapêuticas e de diagnóstico. Essa evolução tem permitido a sobrevida e a qualidade de vida dos pacientes com câncer. Para um tratamento ser realizado com êxito é necessário um trabalho em equipe, formada por profissionais das variadas áreas da saúde, entre os quais, o enfermeiro... e não podia ser diferente!

A ele cabe o papel de atuar em ações de prevenção e controle. O enfermeiro presta assistência a pacientes com câncer na avaliação diagnóstica, no tratamento, na reabilitação e, ainda, atende aos familiares desses pacientes em situação tão delicada.

A imersão do enfermeiro no trato do paciente oncológico exige conhecimentos, habilidades e responsabilidades, como em qualquer outra função, mas aqui há o dever de contemplar aspectos físico, emocional, social e espiritual.

O câncer carrega o estigma da morte. É associado à dor e ao sofrimento, e é nesse contexto de batalha pela vida que a enfermagem deve estabelecer estratégias de enfrentamento, com vistas a uma assistência adequada e eficaz ao paciente, minimizando, não só o sofrimento dele, mas também de seus familiares.

O enfermeiro é o membro da equipe de saúde que permanece mais tempo com o paciente, ou seja, do diagnóstico até as várias fases do tratamento, como a cirurgia, a radioterapia, a terapêutica medicamentosa e a quimioterapia. Um enfermeiro oncológico tem, por obrigação, conhecer características, sinais e sintomas, tipos de tratamento, efeitos colaterais de drogas e, é claro, os cuidados de enfermagem que podem ser prestados. É um profissional essencial na recuperação do doente.

Além de prestar atendimento humanizado, o enfermeiro oncológico precisa de flexibilidade, corresponsabilidade, partilha de sentimentos, conhecimentos e solidariedade. A oncologia é uma área muito específica e, portanto, é imprescindível que os enfermeiros tenham formação de especialista na área e que estejam em constante atualização.

De acordo com a RDC 220/04, que aprova o Regulamento Técnico de funcionamento dos Serviços de Terapia Antineoplásica e a resolução do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) 210/98, que regulamenta a atuação dos profissionais de enfermagem em quimioterapia, são competências do enfermeiro, entre outros: planejar, organizar, supervisionar, executar e avaliar todas as atividades de enfermagem, em clientes submetidos ao tratamento quimioterápico antineoplásico, categorizando-o como um serviço de alta complexidade, alicerçados na metodologia assistencial de enfermagem; elaborar protocolos terapêuticos de enfermagem na prevenção, tratamento e minimização dos efeitos colaterais em clientes submetidos ao tratamento, e realizar consulta baseada no processo de enfermagem direcionado a clientes em tratamento quimioterápico antineoplásico.

As regulamentações também conferem ao profissional assistir, de maneira integral, aos pacientes e suas famílias, tendo como base o Código de Ética dos profissionais de enfermagem e a legislação vigente; ministrar quimioterápico antineoplásico, conforme farmacocinética da droga e protocolo terapêutico; promover e difundir medidas de prevenção de riscos e agravos por meio da educação dos clientes e familiares, objetivando melhorar a qualidade de vida do paciente, e manter a atualização técnica e científica da biossegurança individual, coletiva e ambiental que permita a atuação profissional com eficácia em situações de rotinas e emergenciais, visando interromper ou evitar acidentes ou ocorrências que possam causar algum dano físico ou ambiental.

O enfermeiro oncologista é um elo fundamental no tratamento multidisciplinar dos pacientes com câncer. O jornalismo do PGE – Instituto de Pós-Graduação em Enfermagem foi ouvir uma profissional que há, praticamente, três décadas se dedica ao cuidado do outro. Maria Aparecida Machado é mineira de Conceição dos Ouros. Há 20 anos na capital paulista, ela conta à reportagem desde o inicio da carreira como técnica de enfermagem até a consolidação profissional, reconhecida como referência em sua área de atuação e trabalhando em um dos maiores e melhores hospitais do País. Acompanhe.

PGE - Como foi sua formação para chegar à enfermeira especialista em oncologia?

Maria Aparecida Machado - Eu me formei técnica de enfermagem em 1989, pela Escola de Enfermagem Johnson e Johnson. Fiz graduação em Enfermagem pela Faculdade de Santa Marcelina (FASM), na qual conclui em 2010, ou seja, tenho de profissão 29 anos, mas de enfermeira formada tenho nove anos. Quando conclui a faculdade eu já trabalhava em terapia intensiva. Trabalhei e trabalho até hoje em um hospital de grande porte e referência no País, então, fiz especialização em Terapia Intensiva pelo Centro Universitário São Camilo.

Quando finalizei minha especialização em terapia intensiva, houve uma reestruturação na instituição em que eu trabalhava e surgiu uma oportunidade de ser enfermeira júnior na oncologia, e fui transferida para aquela área, já bastante desenvolvida para as questões técnicas de pacientes graves, porém sem muito conhecimento em oncologia. Foi quando fui fazer especialização para essa especialidade. Na área eu tive muitas oportunidades. Eu fiz preceptoria – era responsável pela preceptoria da Residência de Enfermagem. Também fiquei responsável pelo estágio extracurricular, o que me desenvolveu muito para a atuação como enfermeira oncológica.

Paralelo a isso eu comecei a ministrar aulas na graduação, na pós-graduação e para o curso técnico. Eu abraçava todas as oportunidades para o ensino e, então, fui fazer docência.

PGE - Em sua trajetória, por onde percorreu profissionalmente?

Maria Aparecida Machado - Fiquei três anos trabalhando na oncologia e, em seguida, surgiu a oportunidade para participar de um processo para enfermeira sênior na responsabilidade social do hospital referência onde trabalho. Passei e fui estruturar o serviço de oncologia naquela unidade, onde estou até hoje.

Quando cheguei naquele novo serviço, eu já possuía as especializações de UTI, docência e era também especialista em oncologia. Fui estruturar, capacitar pessoas, pensar em fluxos e processos de enfermagem e, há três anos, fui promovida a especialista em oncologia.

Em minha trajetória eu comecei trabalhando como técnica de enfermagem. Trabalhei na Santa Casa de São José dos Campos, na Unidade de Terapia Intensiva. Trabalhei no hospital PIO XII, em unidade coronariana. Trabalhei no Hospital São Francisco de Assis, como técnica de enfermagem na UTI neonatal, pediátrica e adulto e de lá, em 2002, fui para esse hospital de grande porte.

Aqui trabalhei até 2010 na UTI, quando segui para a oncologia, onde me desenvolvi, como falei anteriormente, fazendo preceptoria da residência, preceptoria do curso técnico em enfermagem, sendo referência para os pacientes e profissionais da oncologia.

Em 2014 fui convidada para fazer a estruturação de um serviço de oncologia na Responsabilidade Social, que é onde atuo até hoje. Cheguei como enfermeira sênior e, atualmente, ocupo a vaga de especialista de enfermagem, mas também faço gestão de pessoas.

PGE - Como sua formação e qualificação contribuíram para você chegar onde está?

Maria Aparecida Machado - Eu sou fruto de todas as minhas especializações, eu sou fruto da minha formação. Eu busquei, fui atrás de competências, de conceitos e me desenvolvi. Ao longo dos anos, eu fui permeando entre as áreas até chegar ao cargo de especialista em oncologia, mas eu sou fruto das minhas competências desenvolvidas e adquiridas ao longo dos anos.

PGE - Quanto uma pós-graduação pesa para que o profissional alcance sucesso em sua área?

Maria Aparecida Machado - Eu fiz três pós-graduações - em Terapia Intensiva, Docência e Oncologia. É necessário ir em busca de conhecimento e de bases teóricas para fazer associação com a prática. A sua pós-graduação precisa estar associada com aquilo que você faz todos os dias para que se faça um link entre teoria e prática. Acredito que eu fiz as especializações em um momento em que precisava de conceitos que me norteassem para a prática.

PGE - Você se considera uma profissional de sucesso?

Maria Aparecida Machado - Super me considero uma profissional de sucesso! Tenho muito orgulho de minha trajetória. Formei-me em 2010, fui promovida a enfermeira júnior em 2011, em 2013 fui promovida à enfermeira pleno, em 2015 fui promovida a sênior, em 2018 fui promovida à especialista. Desde minha formação eu tive uma carreira bastante estruturada.

PGE - Ao que você atribui seu sucesso profissional?

Maria Aparecida Machado - Ao meu interesse, à minha dedicação, à minha busca contínua por conhecimento. A estratégia utilizada entre prática e conceito é procurar sempre “estou vendo isso”, “vou aplicar desta forma” e “vou melhorar isso”. Acho que dedicação é a palavra e a busca pelo conhecimento contínuo.

PGE - De que maneira o seu perfil a levou à ascensão profissional?

Maria Aparecida Machado - Acredito que minha ascensão profissional não foi por uma causa única. Foram vários fatores. Primeiro a identificação com a área com a qual você está se dedicando, busca por conhecimento é outro fator. Faço um trabalho diferenciado, baseado em conceitos muito concretos, mas pensando em humanização. Você trabalha com oncologia, além de alta tecnologia no cuidado, medicações de última geração, você precisa entender com o paciente o que realmente importa para ele. Empatia, trabalho humanizado e competência técnica...tudo junto!

PGE - Quais foram seus principais desafios profissionais?

Maria Aparecida Machado - Trabalhar num hospital de grande porte, que tem plano de carreira e precisar estar sempre em busca de conhecimento, ser um profissional atualizado, em busca contínua. Há sempre um plano de desenvolvimento esperando. Receber feedbacks contínuos e entender que você tem sempre um pouco a melhorar são fundamentais. Isso é amadurecimento profissional. Pensar que todas as suas ações são para um conhecimento melhor para se prestar uma assistência melhor para o seu paciente. O seu foco é sempre o paciente. Uma assistência segura com o paciente está no centro do cuidado.

PGE – E, de maneira geral, quais os desafios do cotidiano de um enfermeiro oncologista?

Maria Aparecida Machado - São tantos... o enfermeiro de oncologia acompanha o paciente do diagnóstico ao fim da vida, ele está presente no momento do diagnóstico e precisa orientar, navegar com o paciente, fazer orientações sobre exames de imagem para estadiamento, como vai ser feito, qual é o preparo etc. Depois disso, uma vez com o resultado do exame, ele precisa encaminhar o paciente ao tratamento, acompanha-lo e dar orientações especificas a respeito de efeitos colaterais de quimioterapia, radioterapia, se a quimioterapia será endovenosa, via oral, se ela é concomitante com radioterapia ou não, quais são os principais efeitos colaterais, quais são os seus cuidados.

Nós precisamos fazer a manutenção dos registros, para que aquilo que se fez esteja registrado por questões legais, mas também para que se busque um indicador de que se está prestando um melhor cuidado.

O paciente, quando se agrava por algum efeito colateral, quando ele vai para a internação, o enfermeiro precisa saber cuidar e identificar urgências e emergências oncológicas. Ele tem que estar apto ao cuidado de emergência, tanto no serviço de internação como em uma Unidade de Terapia Intensiva, como num Posto de Atendimento Oncológico, e gerar dados. Um dos desafios do enfermeiro em oncologia é a geração de dados.

O desafio de trabalhar em uma equipe interdisciplinar também é um fator importante porque o paciente oncológico precisa do fisioterapeuta, da fonoaudióloga, do terapeuta ocupacional, do psicólogo, do médico, do assistente social etc. É uma integração de conhecimentos. O enfermeiro de oncologia é um multiplicador. É ele quem faz a interface com as outras equipes.

Além de tudo, ele precisa estar capacitado para ser multiplicador de conhecimento, treinamento de novos profissionais para a área e precisa saber lidar com o fim da vida. A empatia é fundamental. O enfermeiro de oncologia está presente do diagnóstico ao fim da vida. Empatia é a palavra-chave. O enfermeiro precisa se perguntar, todos os dias, o que realmente importa para aquele paciente.

PGE - Quais foram as suas principais conquistas?

Maria Aparecida Machado - Minha principal conquista é ser reconhecida como uma enfermeira de referência na oncologia hoje. O conhecimento norteou a minha conduta durante toda a minha trajetória. Eu passei por todas as fases, fui técnica de enfermagem, fui enfermeira júnior, pleno, sênior e segui numa carreira em Y, que é a carreira do especialista. Mesmo dentro dessa carreira de especialista, faço gestão de pessoas, mas, para mim, a minha maior conquista é ser reconhecida pelos meus pacientes, pelos meus pares, pela minha liderança como enfermeira referência em oncologia.

PGE - Quais são as dicas que você pode dar para quem está vislumbrando seguir por essa área?

Maria Aparecida Machado - Estudar. Estudar sempre. Penso que precisa estar respaldado, precisa saber do que está falando. O conhecimento dá norte às condutas. Estudando, você vai ser uma pessoa melhor, um profissional melhor e vai prestar uma melhor assistência. As oportunidades de carreira vão aparecer, ou melhor, o mercado de trabalho é muito competitivo e, nele, quem vence é o melhor, quem está mais preparado!

Publicado no Portal PGE 

 

VEJA A REALIDADE E OS DESAFIOS DE UMA ENFERMEIRA OBSTÉTRICA

VEJA A REALIDADE E OS DESAFIOS DE UMA ENFERMEIRA OBSTÉTRICA

A reponsabilidade não é das mais simples: contribuir para trazer crianças à vida ao mesmo passo em que soma esforços para garantir a saúde da gestante durante a gravidez e após o parto. Essa é a função do enfermeiro obstétrico. Para quem não se lembra, historicamente, esse momento único na vida das mulheres era feito em casa, com a ajuda de parteiras. Contudo, a partir da primeira metade do século XX, foi intensificada a hospitalização do parto e esse profissional passou a figurar entre os protagonistas desse instante.

De acordo com dados da Agência Nacional de Saúde (ANS), cerca de 85% dos partos na rede privada são cesarianas e 40% na rede pública. Muitas vezes, essa intervenção cirúrgica ocorre de maneira desnecessária e causa transtornos às puérperas. Só no Brasil, a cesárea foi realizada em 58% dos partos, de 2000 a 2015. A Organização Mundial de Saúde (OMS) propõe que o ideal seria 10% a 15% dos nascimentos por meio de cirurgia.

O Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) diz que a assistência à gestante, o acompanhamento do trabalho de parto e a execução do parto sem distocia estão entre as atribuições dos enfermeiros generalistas, enquanto integrantes das equipes de saúde, conforme o artigo 11 da Lei 7.498/86. Os enfermeiros obstétricos, especialistas em parto normal, têm autonomia profissional na assistência, conforme o artigo 9º, do decreto 94.406/87.

Enfermeiros obstétricos são o apoio da gestante no trabalho de parto, principalmente quando a escolha é o parto normal. Eles são considerados o suporte essencial para que a mulher fique à vontade e segura. É um profissional que necessita de um olhar apurado de enfermagem para compreender o que a gestante precisa naquele momento, de forma a colaborar para que ela se sinta confiante.

Promover a humanização da relação médico-paciente, ao longo do período gestacional e no momento do parto, faz parte da rotina da enfermeira obstétrica da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, Adriana dos Passos Bento.

Ela se formou em Enfermagem em 1991, pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), e começou a carreira de imediato em um Centro de Tratamento Intensivo (CTI) cirúrgico. Não demorou a perceber que aquela não era a realidade profissional que desejara para si e, antes que pudesse desistir, acabou se encontrando em outro setor. Em entrevista ao jornalismo do PGE – Instituto de Pós-Graduação em Enfermagem, Adriana fala como se tornou enfermeira obstétrica e os desafios da área, e sugere o que, de fato, é importante considerar. Acompanhe.

PGE – Como foi a sua formação?

Adriana dos Passos Bento – Sou graduada em Enfermagem pela UERJ e me habilitei em médico-cirúrgico. Em 1992, fiz especialização em Enfermagem do Trabalho e, depois, em 1997, eu fiz a especialização em Enfermagem Obstétrica. Vim me qualificando nas questões de preceptoria, porque eu sempre gostei de dar aulas em universidades.

PGE – Por onde percorreu profissionalmente?

Adriana dos Passos Bento – Quando me formei, o meu primeiro trabalho foi na área de CTI cardíaco até 1995, que foi quando eu me decepcionei com a enfermagem. Eu tinha feito um concurso público... assim, o momento crucial da minha carreira foi quando eu ia desistindo e passei por esse concurso e, por proximidade e não por afinidade, eu vim para a maternidade. Então, eu tive a oportunidade de conhecer a enfermagem obstétrica, que era uma parte que eu não tinha muita afinidade.

Eu gostava muito da questão de ser intensivista. Por proximidade com meu trabalho aqui na maternidade uma colega me deu a oportunidade de receber uma bolsa de estudos na especialização, e fui para a UERJ estudar. Lá, eu fui percebendo que eu comecei a gostar e, desde então, não mais abandonei essa carreira que, hoje, me sustenta tanto mentalmente como espiritualmente, porque é algo meio que de Deus mesmo. Em 2012, eu também passei em outro concurso público no Rio de Janeiro, pela Secretaria Municipal de Saúde, e hoje eu tenho as duas matrículas aqui na mesma maternidade.

Na minha trajetória profissional, essa qualificação me fez ficar com as duas atribuições na maternidade, Fernando Magalhães, situada no bairro São Cristóvão. Assim, eu fico em sala de parto e também no pré-natal, atendendo às mulheres e aos bebês. Além disso, fico no plantão noturno atendendo às mulheres nas suas necessidades, tanto na sala de parto, no seu acompanhamento de trabalho, como em outras necessidades também, porque nós temos mulheres que podem ter complicações. E, por ser qualificada na questão intensivista, eles me aproveitam na UTI materna.

Na minha trajetória, eu oportunizei dar aulas de graduação em algumas universidades privadas, a Plinio Leite, a Unisuan e a Estácio de Sá, todas aqui no Rio de Janeiro. Atualmente, também pela minha própria qualificação, eu sou preceptora, ou seja, eu acompanho alunos de residência de enfermagem, especializados em Enfermagem Obstétrica da Estácio de Sá.

É bastante trabalho, é bastante responsabilidade. Essas questões são de alto grau de responsabilidade, que é algo que eu gosto. Parei de dar aulas, neste momento, porque isso exige, nas universidades, o mestrado. Hoje a minha meta é fazer o mestrado profissional para que eu continue nessa ascensão da minha carreira, apesar dos meus 53 anos. Acho que nós só paramos de estudar quando nós morrermos. É o meu pensamento.

PGE – O que um profissional precisa ter para seguir na carreira em enfermagem obstétrica?

Adriana dos Passos Bento – Eu penso que ele tem que ter muita intuição, ajuda de Deus e um conhecimento que não é empírico, é um conhecimento que a própria faculdade e os livros vão proporcionando. A experiência, as mulheres vão te dando, já que os partos vão proporcionando esse feeling... é também a intuição de Deus mesmo na conduta que você vai traçar.

Eu digo que as coisas que incentivam a traçar uma boa conduta é o que vem da intuição do parto. Somado a isso, o seu conhecimento - que a universidade, a faculdade traz - os livros e a boa concentração é o que nós chamamos de bom senso obstétrico. É uma hora que você tem que parar e indicar para que o médico que está ali, seu companheiro de equipe, possa também intervir e agir, porque eu vou até o parto normal. Do parto normal, se não evoluir, uma boa cesariana bem indicada salva mãe e bebê.

Para uma carreira de enfermagem obstétrica é preciso um curso de especialização ou residência em enfermagem obstétrica.

PGE – Você tem algum grande sonho ou desejo de realização profissional no momento?

Adriana dos Passos Bento – Como mencionei, quero fazer um mestrado para que eu possa dar aulas. Eu tenho 24 anos atuando nessa maternidade, porque eu entrei em novembro de 1995, mas eu digo que eu não sei nada, e o meu grande sonho é aprender cada vez mais fazendo, porque só erra quem faz e é nos erros que se aprende.

Meu grande sonho é aprender cada vez mais. A vida é assim. A cada dia, a cada momento, é importante estar com pessoas que sejam uma fonte de conhecimento para haver uma troca. Eu devo ter, em minha vida, uns 6 mil partos, o que é pouco, porque cada parto é como se fosse sempre o primeiro. É com eles que eu aprendo.

Se alguém disser que sabe tudo, certamente, será um grande tolo. Apesar de estar formada há um bom tempo - me formei em 1991 -, eu digo que não sei nada. Estamos sempre aprendendo. Por isso eu gosto do aluno, porque ele faz uma pergunta e, se você não souber a resposta, terá de dizer: “eu não sei essa resposta, posso te dar depois?”. Nesse caso, será fundamental ler algo novo, o que estará te renovando.

O mundo é dinâmico e contemporâneo, e sempre vai trazer alguma notícia nova, vai te renovar, te instigar para que você busque a resposta. Por isso, ser preceptora e estar, sempre, estudando são coisas que me instigam.

PGE – Você se considera um profissional de sucesso?

Adriana dos Passos Bento – Eu acho que sim. O sucesso é para Deus. O sucesso é ver as pessoas felizes. Só isso. O sucesso só vai depender do que você alcançar com o êxito da sua ação. O êxito, o sucesso, só será verdadeiro quando você disser: deu tudo certo. Não é um agradecimento que me faz feliz, é o êxito das ações. É um desconhecido sorrir para mim e é aquele bebê chorar ou aquela vida sobreviver em função das minhas ações. Todos os dias eu vejo uma vidinha com o êxito das minhas ações.

PGE – Quais são as suas principais conquistas?

Adriana dos Passos Bento – Minhas conquistas são o reconhecimento das minhas pacientes, das pessoas que saem felizes com seus bebês nas mãos, daquela vidinha que se ajudou a colocar no mundo, daquela mulher que sobreviveu numa UTI materna. Não tem conquista melhor no coração do que isso. Felicidade é deitar a cabeça no travesseiro e perceber que o melhor foi dado.

PGE – Quais foram seus principais desafios profissionais?

Adriana dos Passos Bento – Foi me vencer, porque quando eu quis desistir da minha profissão, Deus falou “não, você tem aí um desafio maior que era vencer a si mesma”. Desistir da enfermagem eu não desisti. O meu desafio maior talvez seja eu chegar aonde eu quero chegar, estudar um pouquinho mais, aprender um pouquinho mais.

PGE – E, de maneira geral, quais são os desafios da enfermagem obstétrica?

Adriana dos Passos Bento – Os desafios na minha área estão relacionados com sensibilizar as pessoas a não se mercantilizarem demais. As pessoas, na área da enfermagem obstétrica, estão se tornando muito mercantilistas na questão do parto humanizado, domiciliar. Elas só querem ganhar dinheiro com isso. Elas não querem só ver a sensibilização no âmbito da mulher e do bebê. No parto humanizado se cobra R$ 10 mil, R$ 15 mil, R$ 20 mil. Eu acho que o caminho não é por aí. É preciso evitar que a enfermagem obstétrica seja algo mercantilizado.

PGE – Quais são as dicas que você pode dar para quem está começando no mercado?

Adriana dos Passos Bento – Não buscar esse viés comercial da enfermagem. É preciso buscar o aprendizado sem a mercantilização da coisa. Vale buscar a sensibilização e o bom senso obstétrico. É fundamental ter o conhecimento de fato, não apenas da questão empírica. Não se pode esquecer o que é ser enfermeiro.

Queria dizer para as pessoas que estão, nesse momento, fazendo parto humanizado que é preciso ter bom senso humanizado também. Ser enfermeiro é não se esquecer de que existe uma mulher e um bebê por trás disso. Vamos nos lembrar de que há uma mulher que pode estar querendo outra coisa, um ouvindo mais atento. Nem tudo o que vira moda é bom para a mulher. É só prestar mais atenção.

Publicado no Portal PGE 

A BATALHA DOS ENFERMEIROS PELAS 30 HORAS SEMANAIS

A BATALHA DOS ENFERMEIROS PELAS 30 HORAS SEMANAIS

Por Egle Leonardi

A enfermagem é uma das únicas categorias que ainda não têm um piso salarial ou regulamentação de sua carga horária no Brasil. Há 19 anos, o Projeto de Lei (PL) 2295/00, sobre a regulamentação das 30 horas semanais, tramita no Congresso Nacional, mas continua sem definição pelo Plenário. Esse PL recebeu requerimento de inclusão na Ordem do Dia do Plenário da Câmara dos Deputados pelo deputado Vicentinho (PT/SP), em setembro, e é um dos que possui maior número de pedidos dessa natureza.

Segundo o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), só em 2019 já foram cinco pedidos de inclusão por diversos deputados federais. As longas jornadas de trabalho estão associadas a um aumento exponencial nos erros e acidentes de trabalho, representando um risco à saúde pública, além do desgaste profissional.

A jornada de 30 horas não é privilégio. A luta pela regulamentação em, no máximo, 30 horas semanais e seis horas diárias, no contexto da Lei do Exercício Profissional, fortalece a enfermagem como profissão e convida a sociedade a reconhecer que se trata de um trabalho que precisa de condições especiais para uma prática segura.

O Portal de Conteúdo do PGE – Instituto de Pós-Graduação em Enfermagem publicou reportagem sobre depressão e suicídio entre enfermeiros. São agravamentos a esses profissionais o fato de a enfermagem não possuir um plano de carreira, por exemplo. Somados a isso, esses profissionais têm de conviver com a dor; sofrimento; doenças; turnos ininterruptos; sábados, domingos e feriados trabalhando; más condições de trabalho; e muita responsabilidade e pouca valorização. Isso tem levado à insatisfação, ao adoecimento e ao aumento da evasão profissional. Leia matéria sobre esse tema, na íntegra, clicando aqui.

A luta pela regulamentação

A regulamentação da jornada de trabalho, já estabelecida para outros PL, é apoiada pelo Cofen e outras entidades representativas da profissão. Ela tramita há quase duas décadas, tendo recebido pareceres favoráveis em 2009 e, desde então, o PL está pronto para a votação no plenário.

O apoio ao PL das 30 horas liderou as chamadas no Disque-Câmara em 2015. Apesar do forte apoio da população, do Sistema Cofen/Conselhos Regionais e demais entidades da Enfermagem, parece que o Congresso estaria resistindo em votar pela PL das 30 horas.

O enfermeiro e conselheiro do Cofen, Gilney Guerra, diz que o PL das 30 horas é baseado em uma indicação da própria Organização Mundial de Saúde (OMS) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que reconhece que 30 horas seria a carga horária ideal para um profissional de saúde trabalhar, em especial a enfermagem, visto que ela tem uma carga muito superior às demais.

Guerra ratifica que a enfermagem é a equipe que fica 24 horas com o paciente, 24 horas sem cessar, independentemente de qual clínica que esteja se falando, independentemente do paciente ser grave ou não, a enfermagem vai estar 24 horas aferindo os sinais vitais, realizando administração de medicamentos e todos os outros cuidados integrais.

“Existe esse PL em tramitação no Congresso Nacional, que estamos na tentativa de destravar para ir à votação. Em nível local, alguns municípios conseguiram aprovar leis, mas que têm validade apenas para o serviço público, visto que para ter validade na iniciativa privada é necessária uma Lei Federal - já que se trata de regime CLT. Recentemente, o Estado do Rio de Janeiro também aprovou, mas cai na mesma questão e, por isso, inclusive, chegou a ser anulada”, lembra a presidente do Sindicato dos Enfermeiros do Estado de Pernambuco (SEEPE), Ludmila Outtes Alves.

Já segundo o presidente do Sindicato dos Enfermeiros do Estado de Minas Gerais (SEEMG), Anderson Rodrigues, tanto em Minas como nos outros Estados da federação isso não é diferente. Com exceção do Rio de Janeiro, que já conquistou as 30 horas e o piso salarial, os movimentos são tímidos e pontuais, uma vez que a categoria tem dupla ou tripla jornada.

“Levando em consideração que 85% da categoria são compostas de mulheres, historicamente o mundo é machista, e no Brasil não seria diferente, onde o salário feminino tende a ser mais baixo, a classe se empodera a passos curtos, desconhecendo a sua importância no sistema de saúde”, conta Rodrigues.

Para Ludmila, falta uma articulação em nível nacional para o seguimento dos trâmites do PL. Há um tempo havia mobilização por parte da Federação Nacional dos Enfermeiros (FNE) e Cofen, porém, isso reduziu bastante nos últimos anos, principalmente pela dificuldade financeira que as entidades de classe têm passado. “Sabemos da dificuldade de se mobilizar caravanas dos Estados para o Distrito Federal para pressionar as bancadas e agilizar os debates”, concorda ela.

“O Cofen tem feito várias audiências públicas por intermédio dos conselhos regionais e, agora, criou uma frente parlamentar que tem feito movimentos políticos, pedindo apoio para todos os deputados ao quais temos acesso. Nós não nos limitamos à cor partidária. A cor do nosso partido é branca, é a cor da enfermagem. Nossa bandeira política não é vermelha, não é azul, não é verde e amarela – como os bolsonarianos falam, a cor da nossa bandeira política é branca”, reflete Guerra.

O conselheiro diz que é preciso buscar apoio de todos os segmentos políticos, tanto da direita como da esquerda e dos partidos de centro, para que eles se sensibilizem com a causa, que é uma causa justa. “Nós não estamos pedindo para trabalhar menos que ninguém, na verdade, nós estamos pedindo que seja adequada a carga horária em relação à carga de trabalho que a enfermagem tem”, esclarece Guerra.

Entraves

Segundo a enfermeira, a grande dificuldade é o lobby da iniciativa privada. “Existem muitos empresários ocupando cargos legislativos, e muitos outros que foram financiados por grupos financeiros de planos e seguros de saúde. Ou seja, não é do interesse deles a redução da jornada de trabalho, porque implica em mais contratações e, assim, menos lucro para eles”, revela Ludmila.

O próprio dimensionamento de enfermagem, atualmente, não é seguido, gerando sobrecarga de trabalho, uma vez que a prioridade é o lucro e não a saúde. Então, conforme Ludmila, tais empresários dificultam a votação, porque não querem se indispor na negativa. Por isso, apesar de estar há anos no Congresso, o PL 30h ainda não conseguiu, sequer, ir para a votação no plenário.

“Parece receita de bolo, mas, para a conquista desse pleito precisamos de uma organização da categoria para eleger enfermeiros, com isso conseguiríamos levar nossas pautas à votação nas Câmaras dos Vereadores, Câmaras dos Deputados Estaduais, Câmara dos Deputados Federais e Senado. Sendo assim, poderíamos ter chances de sairmos vitoriosos. Os embargos que a nossa classe tem para a aprovação do PL são os famosos lobbies feitos por grandes grupos ligados aos hospitais privados, a falta de continuidade dos encaminhamentos tirados nos movimentos e atos e a não adesão da categoria devido aos vínculos excessivo”, ressalta Rodrigues.

Impacto financeiro

Empregadores do setor privado de saúde e setores do governo vêm alegando que a redução da carga horária dos profissionais de enfermagem, pelo enorme impacto financeiro, traria sérios prejuízos ao sistema. No entanto, de acordo com a presidente do SEEPE, não falta dinheiro para o governo ou para os empresários. A questão é o interesse na aplicação desse dinheiro.

“No caso dos governos, sabemos o quanto se utiliza do PIB, por exemplo, para o pagamento da dívida pública, que hoje consome quase 50% do orçamento público. Se houvesse o interesse de se investir isso em saúde, não haveria impacto importante. Impacto maior é com os gastos decorrentes do adoecimento dos profissionais - afastamentos, atestados etc., e os riscos para a população. Mas, infelizmente, o governo não encara dessa forma. E o mesmo vale para a iniciativa privada”, fala Ludmila.

Apesar de toda a crise e da redução da população com plano de saúde, os hospitais e planos de saúde tiveram aumento nos seus lucros nos últimos anos. A enfermeira evidencia que são bilhões de reais ganhos à custa dos trabalhadores, que não recebem a sua parte pelo lucro. São consequências da mercantilização da saúde. “Não se vê a saúde como direito e, sim, como mercadoria, feita para dar lucro, não importa quantas vidas venha a custar”, lamenta Ludmila.

Para Rodrigues, a redução da jornada para 30 horas semanais realmente impactaria financeiramente a todos setores, contudo, em contrapartida se teria um ganho com horas extras pagas devido ao absenteísmo, e o maior ganho seria na assistência de enfermagem.

“Os gestores reclamam que isso vai aumentar o custo, e nós entendemos, realmente, que isso vai aumentar o custo. Se você tem três enfermeiros com 40 horas semanais, você tem 120 horas de mão de obra. Quando você passa a ter 30 horas, para se compensar essa mão de obra, você teria que ter quatro profissionais. Por outro lado, assim, nós também aumentamos a oferta de trabalho, de emprego para a enfermagem brasileira. Entendemos que é uma luta justa e que os deputados deveriam se sensibilizar com a nossa causa. Acredito que nenhuma pessoa não tenha tido os cuidados de um enfermeiro, de um técnico de enfermagem, porque nós estamos presentes desde o nascimento até depois da morte”, explica Guerra.

Esforços conjuntos

Rodrigues conta que o conselho profissional participa dos movimentos, no entanto, não é atribuição dele, mas de órgãos como os sindicatos. A presidente do SEEPE fala em atuação conjunta. De acordo com Ludmila, a luta é em parceria entre sindicatos, federação e conselhos. Porém, legalmente a luta é mais sindical do que do conselho.

“Nacionalmente, a Federação e Cofen conseguiram articular a Frente Parlamentar Mista pelas 30 horas, que foi lançada em agosto no Congresso Nacional. Esperamos que, com esse apoio, consigamos fazer andar a tramitação do projeto”, diz Ludmila.

Doenças ocupacionais

De acordo com o presidente do SEEMG, os enfermeiros têm um grande número de atribuições e é extremamente necessário que estejam bem mental, moral e tecnicamente. Isso depende de uma carga horária decente, que lhes permitam, inclusive, ter tempo para aprimorar seus conhecimentos técnicos e científicos. “Hoje, ainda conseguimos nos preparar profissionalmente por meio de especialização, mestrado e doutorado, mas com um esforço desgastante e adoecedor diante de uma excessiva carga horária de trabalho”, atesta Rodrigues.

Legalmente, a enfermagem pode acumular mais de um vínculo empregatício. Ludmila fala também da dificuldade com relação aos baixos salários. “É muito difícil você encontrar um enfermeiro com apenas um vínculo empregatício, o que aumenta o acúmulo de serviço e cansaço físico e mental. Cada vínculo permite a jornada atualmente de 40 horas semanais. São maratonas de plantão em plantão com serviços superlotados, sobrecarga de trabalho, estresse - que é inerente à profissão, e assédio moral, que muitas vezes encaramos no serviço”, destaca a enfermeira.

Não à toa, tais problemas têm desencadeado uma série de doenças ocupacionais cada vez mais crescentes, sejam físicas ou psíquicas, como depressão, síndrome do pânico e síndrome de Burnout, com alto índice inclusive de suicídio entre os profissionais. Por isso, a luta pelas 30 horas é também a luta pela saúde dos trabalhadores. “E isso resvala, também, nos pacientes, pois quando o profissional está sobrecarregado, estressado e cansado, aumenta o risco de erro durante a assistência, que pode colocar em risco até a vida do paciente”, atenta Ludmila.

A presidente do SEEPE lembrou que o seminário recente realizado pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) colocou que, até 2020, um enfermeiro cometerá suicídio a cada 20 minutos no Brasil. São números alarmantes. “Quando consideramos as demais doenças, a coisa é ainda mais estarrecedora. Porém, sabemos que os números atuais ainda são subestimados, pois muitas doenças ocupacionais não são notificadas ou não são tratadas como tais, a exemplo das doenças psíquicas”, indica Ludmila.

“Estipulando 30 horas de trabalho semanal para o enfermeiro, você terá um profissional com mais tempo para cuidar da sua saúde, mais tempo para descansar. Não terá aquele profissional desgastado de plantão. O Cofen irá fazer uma conscientização com nossos profissionais, que quando nós tivermos as 30 horas que nós não exageremos, pois sabemos que muitos colegas têm dois, três empregos”, conta Guerra.

Pesquisa realizada pelo Cofen, em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), intitulada Perfil da Enfermagem, apontou algumas fragilidades da profissão e, por incrível que pareça e ao contrário do que muitos pensam, a maioria dos profissionais de enfermagem tem somente um emprego.

“Ter mais de um emprego está vinculado aos subsalários. Nós temos colegas que recebem menos de mil reais e não conseguem sobreviver. Em vez de essa pessoa fazer 30 horas de trabalho, que é o que nós gostaríamos, esse profissional vai atrás de outro emprego e faz 80 horas, 40 em cada um, as vezes fazendo até 88 horas, porque temos instituições privadas com carga horária de 44h semanais regidas pela CLT”, fala Guerra.

Ações

A enfermagem tem fundamental participação nas ações de saúde, o que por si só deve servir como forte motivo para sua valorização, e não para um tratamento discriminatório. A saúde tem aparecido como o principal problema para os brasileiros, e a enfermagem constitui-se em força imprescindível para seu enfrentamento.

Em Pernambuco, por exemplo, o SEEPE está com uma campanha pela criação do piso salarial. Atualmente, devido à falta de uma lei que regulamente o piso, se observa cada vez mais, pelo jogo do mercado, salários baixos, tanto na rede privada como na pública. Por isso, o Sindicato vem montando um projeto de lei de iniciativa popular, por meio de um abaixo-assinado. Além disso, segue trabalhando forte nas campanhas salariais e negociações para que suas pautas sejam ouvidas.

Piso salarial

Segundo Rodrigues, o piso salarial segue o mesmo caminho das 30 horas, sendo fundamental que seja estabelecido juntamente com a carga horária. O presidente do SEEMG diz que o cenário está posto de forma que a categoria não tem um espírito coletivo em prol dela mesma, precisando entender que sem politização não há ganho. E, atualmente, a prioridade é politizar e unir essa classe.

“Como dito anteriormente, estamos com a campanha do piso salarial no Estado do Pernambuco. Após completar o abaixo-assinado (mínimo de 20 mil assinaturas), vamos encaminhá-lo para a Assembleia Legislativa para votação. Então, vamos mobilizar caravanas de todo o Estado para garantir a aprovação. Nacionalmente, também há um projeto de lei do piso, que, assim como o das 30 horas, está há anos parado no Congresso”, lembra a presidente do SEEPE.

Ludmila sintetiza que a classe enfermeira busca o seu reconhecimento. Ainda há um estigma muito forte da enfermagem como categoria secundária, submissa, e não é isso. Há o protagonismo em muitas frentes, inclusive no processo de gestão das unidades, os profissionais se especializam em várias áreas, fazem ciência, desenvolvem novas práticas e tecnologias, e precisam ser reconhecidos dessa forma. “Por isso, falamos de valorização, não só de salário ou jornada de trabalho. Às vezes, simples gestos de reconhecimento já motivam o profissional”, finaliza.

Publicado no Portal PGE 

DEPRESSÃO É UMA REALIDADE ENTRE ENFERMEIROS

DEPRESSÃO É UMA REALIDADE ENTRE ENFERMEIROS

Por Egle Leonardi

Como você está se sentindo? O que você precisa neste momento? Quer conversar? Essas perguntas, que vão muito além de uma simples gentileza, deveriam ser uma constante entre os profissionais de saúde que têm de lidar com a vida e a morte, e todo o tempo sob pressão, como é o caso da enfermagem. Isso pode levar à depressão e, muitas vezes, ao suicídio.

O Ministério da Saúde explica que o suicídio é um fenômeno complexo, multifacetado e de múltiplas determinações, que pode afetar indivíduos de diferentes origens, classes sociais, idades, orientações sexuais e identidades de gênero. Mas ele pode ser prevenido. Reconhecer os sinais de alerta em si mesmo ou em alguém próximo pode ser o primeiro e o mais importante passo.

Duas das portas de acesso ao suicídio são a ansiedade e a depressão, sendo que esta última é considerada um problema médico grave e altamente prevalente na população em geral. De acordo com o estudo epidemiológico, a prevalência de depressão ao longo da vida no Brasil está em torno de 15,5%. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a prevalência de depressão na rede de atenção primária de saúde é 10,4%, isoladamente ou associada a um transtorno físico.

As duas juntas formam o que muitos consideram como a dupla do mal do século, acometendo seriamente os profissionais de enfermagem. Estar na linha de frente para contribuir com a cura dos pacientes, por vezes, traz o próprio adoecimento. Muitos debates têm sido realizados sobre a depressão na enfermagem e o esgotamento emocional e físico desses profissionais. O jornalismo do PGE – Instituto de Pós-Graduação em Enfermagem foi buscar respostas junto a quem tem trabalhado diretamente no atendimento desses casos.

O binômio vida-morte

A depressão entre enfermeiros não é algo incomum. A profissão lida com pacientes em situação de dor, sofrimento e morte, e isso abala o emocional desse profissional. De acordo com a doutora em Enfermagem Psiquiátrica e Coordenadora da Comissão Nacional de Enfermagem em Saúde Mental do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), Dorisdaia de Humerez, a morte é sempre difícil de ser encarada. O enfermeiro cuida de pessoas, com recém-nascidos, e lidar com a morte deles é escancarar a finitude do ser humano. Essas mortes geram muitos mecanismos de defesa, e nem sempre saudáveis.

Com experiência de 22 anos em saúde mental, o enfermeiro especialista em Psicanálise Clínica, gerente do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) Moxuara, em Cariacica, no Espírito Santo, e também conselheiro suplente do Conselho Regional de Enfermagem desse Estado (Coren-ES), Lincoln Gomes, entende que a dificuldade não está especificamente em se trabalhar com a morte, mas com as emoções ou sentimentos humanos.

“Claro que é mais fácil atendermos às necessidades diante de situações favoráveis, como o nascimento, até por uma questão cultural, mas, nós, como profissionais, aprendemos na nossa formação a enfrentar situações de sofrimento profundo. Vejo ainda que essa resposta é de cunho muito individual, pois tem várias questões envolvidas, desde a sua formação filosófica religiosa, passando pelo nível de aprofundamento teórico e filosofia de vida, que nos dão condições de enfrentar situações tão especiais como o sofrimento humano”, relata Gomes.

Fatores de gatilho

O suicídio não advém de um fato isolado. São fatores que interagem e levam ao desejo de morrer. A profissão de enfermagem surge como um fator causador, mas não se pode desconsiderar situações como abandono, medo, solidão, culpa, instabilidade emocional, desestrutura familiar e infância reprimida, quer seja por dor ou por abuso.

São agravamentos à enfermagem o fato de ela não possuir um plano de carreira, por exemplo. É uma categoria subjugada, que não tem o reconhecimento devido, tanto pela sociedade como pelos outros profissionais da área da saúde.

O enfermeiro é um profissional visto como um executor de ordens e, na prática, a questão muda de configuração. O enfermeiro lida com excessivas jornadas de trabalho, trabalho por turnos, instabilidade no emprego, descanso inadequado, salários insatisfatórios, dimensionamento inadequado de profissionais, alta responsabilidade e desajuste de horário para que possa dar conta de afazeres pessoais.

Dorisdaia fala que estudos revelaram que enfermeiros apresentam alto risco para o suicídio, mas é preciso considerar que, tendo um crescimento de 60% na população geral, o aumento na enfermagem ocorreu na mesma proporção. “A organização do trabalho da enfermagem é relacional com o estabelecimento de vínculo. Temos na profissão a Divisão do Trabalho – Técnica e Social, gerador de contradição entre a satisfação e o sofrimento emocional. A enfermagem tem, historicamente, uma submissão consentida ao modelo médico. O enfermeiro cuida de pessoas 24 horas à beira do leito, lida com a subjetividade humana e as múltiplas maneiras de como as vivenciam”, relata ela.

“A literatura científica nos mostra que em alguns dados já comprovados, em 500 profissionais de enfermagem os transtornos mentais, como a depressão, já se destacaram, até pela característica da profissão e pelo atual desafio que os serviços de saúde nos proporcionam e também diante dos desafios de cunho trabalhista que a categoria enfrenta há bastante tempo. Sendo assim, devemos estar preparados para enfrentar os índices de prevalência e incidência dos transtornos mentais que acometem a população de uma forma geral, e aí podemos afirmar que os casos de depressão e risco de suicídio vêm se destacando”, fala Gomes.

Segundo Dorisdaia, o enfermeiro é obrigado a transformar o binômio Enfermeiro-Paciente no trinômio Enfermeiro-Instituição-Paciente. Isso sem se esquecer de mencionar pressões de interesses antagônicos na instituição em que trabalha. Ele precisa considerar a produtividade, realizando o máximo de atendimento com o mínimo de despesas, embora tenha de oferecer atenção de qualidade àquele paciente.

Suporte emocional

“Quanto ao suporte emocional no cotidiano dos profissionais de saúde, aqui especificamente de enfermagem, sem dúvida é necessário e um direito do trabalhador da saúde, dos trabalhadores de forma geral. Destaco a Política Nacional de Atenção ao Trabalhador e Trabalhadora. Acho que o caminho é o fortalecimento das entidades representativas dos trabalhadores para discussões coletivas, tanto em relação aos serviços como às necessidades dos trabalhadores no serviço”, chama a atenção Gomes.

Ele afirma, ainda, que também cabe destaque o fortalecimento das comissões de saúde do trabalhador e formação de profissionais que atuam nos serviços de medicina do trabalho e segurança do trabalho dentro das instituições.

O enfermeiro reitera que os gestores devem estar atentos e ter um nível de sensibilização para valorizar o profissional de enfermagem, uma forma para diminuir os índices de afastamento, licenças e atestados, promovendo uma melhor qualidade de vida e maior produtividade.

Já Dorisdaia não considera que tenha de haver um serviço de psicologia, mas uma equipe preparada para rastrear a pessoa em risco, ou seja, identificação e gestão das pessoas em risco, além de sensibilização dos profissionais e ‘desestigmatização’. É necessário definição de fluxos e responsabilidades, articulados em rede de cuidados; aperfeiçoamento dos sistemas de informação; capacitação de profissionais de saúde; educação permanente; qualificação de profissionais de mídia e ampliação do acesso à atenção psicossocial das pessoas com tentativa de suicídio e aos sobreviventes.

“Os conselhos estão oferecendo ajuda, mas a ajuda principal é falar do suicídio, mas não dos suicidas e a forma do suicídio. Suicídio é endêmico. Como a divulgação de profissionais se suicidando e a forma como o fazem cria a tendência de que o suicídio se torne epidêmico”, destaca Dorisdaia.

Prevenção e valorização

Segundo Gomes, a enfermagem tem uma história social importante. Devem-se ampliar as ações de marketing da categoria nas ações de cunho político e nível de formação permanente dos profissionais, criando espaços de discussão e diálogo com a classe. É necessária a promoção desses espaços, investimento em pesquisas de fomento que venham a retornar em forma de serviços e políticas de valorização da categoria.

O enfermeiro fala também da importância em realizar parcerias com instituições de saúde especializadas, criação de políticas de estímulo à atividade física, incentivando uma cultura de vida saudável entre os profissionais de enfermagem.

“Acho que o Cofen e as demais entidades sindicais têm um papel primordial na defesa dos direitos dos trabalhadores de enfermagem e na construção de políticas que valorizem esse profissional”, acrescenta Gomes, ressaltando que o Coren-ES realizou neste ano a primeira corrida rústica de enfermagem, bem como criou uma comissão de saúde do trabalhador, com o objetivo de orientar as questões que envolvem a saúde do profissional de enfermagem.

“A maior prevenção é não ter armas letais. O profissional tem a arma – psicotrópicos e anestésicos à mão, e sabe como e em que quantidade usá-los. Mas, a criação de grupos de mapeamento, apoio via educação permanente pode reduzir as tentativas e o ato consumado. Quem estiver perto de um colega de trabalho que seja identificado em risco deve ajuda-lo imediatamente. Esperar amanhã para ser atendido por um profissional da psicologia pode ser tarde demais”, alerta Dorisdaia.

Publicado no Portal PGE 


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