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BOAS PRÁTICAS NO GERENCIAMENTO DOS RESÍDUOS

BOAS PRÁTICAS NO GERENCIAMENTO DOS RESÍDUOS

POR EGLE LEONARDI

É a RDC 222, de 28 de março de 2018, que regulamenta as Boas Práticas de Gerenciamento dos Resíduos de Serviços de Saúde. “Em uma ampla definição, vale dizer que o gerenciamento dos RSS constitui-se em um conjunto de procedimentos de gestão - planejados e implementados a partir de bases científicas e técnicas, normativas e legais - com o objetivo de minimizar a produção de resíduos e proporcionar, aos resíduos gerados, um encaminhamento seguro e eficiente, visando à proteção dos trabalhadores e a preservação da saúde, dos recursos naturais e do meio ambiente”, explica a professora de Boas Práticas de Resíduos do ICTQ – Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico, Patrícia de Castro Moreira Dias.

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O gerenciamento de resíduos deve ser empregado por todos os geradores de resíduos de serviços de saúde humana ou animal:

  • serviços de assistência domiciliar e de trabalhos de campo;
  • laboratórios analíticos de produtos para saúde;
  • necrotérios, funerárias e serviços onde se realizem atividades de embalsamamento;
  • serviços de medicina legal;
  • drogarias e farmácias, inclusive as de manipulação;
  • estabelecimentos de ensino e pesquisa na área de saúde;
  • centros de controle de zoonoses;
  • distribuidores de produtos farmacêuticos, importadores, distribuidores e produtores de materiais e controles para diagnóstico in vitro;
  • unidades móveis de atendimento à saúde;
  • serviços de acupuntura; e
  • serviços de tatuagem.
Tipo de resíduos

Os resíduos industriais podem ser sólidos/pastosos, líquidos e gasosos.

Os sólidos e pastosos são:

  • borras de celulose;
  • torta filtro prensa;
  • gorduras animais compactadas após processo enzimático;
  • resíduos de hormônios;
  • aparas de metal após trabalhos de estampas ou modelagem de peças;
  • cristais residuais de processo de cristalização;
  • pilhas e baterias;
  • resíduos de laboratórios de controle de qualidade;
  • resíduos de produção;
  • materiais de embalagem da indústria farmacêutica; e
  • rejeito de produção farmacêutica.

Os resíduos líquidos são:

  • efluentes industriais;
  • resíduos de sulfonação de óleos minerais (borra ácida);
  • solventes inflamáveis;
  • efluentes de separação de fases em processos industriais; e
  • solventes inflamáveis oriundos de limpeza de reatores e linhas.

Os resíduos líquidos inflamáveis, normalmente, são tratados como resíduos perigosos, pois não são passíveis de tratamento de efluentes e similares. Seu armazenamento e destinação se dão como resíduos sólidos perigosos (risco eminente de inflamabilidade e toxicidade).

Os resíduos gasosos são:

  • vapores tóxicos de processos;
  • odores de curtume; e
  • gases tóxicos de atividades de extração e refino de petróleo.

“É importante conhecer, não somente o tipo de resíduo, mas também a fonte geradora dos referidos resíduos industriais, bem como as quantidades geradas por batelada ou etapa de produção, ou ainda por lote de produto que se aplique à realidade da cadeia produtiva, para que se proceda em tratamento ou destinação via padrões legais de disposição final”, destaca Patrícia.

Legislação atual

Em 18 de março de 2018, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) criou a RDC 222, que regulamenta as Boas Práticas de Gerenciamento de Resíduos de Serviços de Saúde. De acordo com essa Resolução, o estabelecimento gerador de RSS teria 180 dias para se enquadrar às adequações necessárias da nova legislação. “Esse prazo venceu, justamente, em 18 de setembro deste ano. Trata-se, portanto, de uma legislação extremamente atual, sobre a qual o profissional que trabalha na área técnica e de qualidade deverá ter os mais plenos conhecimentos, a fim de se adequar à legislação e a desempenhar um trabalho baseado nos conceitos de compliance”, afirma Patrícia.

Ela acrescenta que, na prática, o primeiro passo é a elaboração de um Plano de Gerenciamento de RSS, que deverá contemplar todas as legislações em todas as esferas federal, estaduais ou municipais.

O objetivo principal das Boas Práticas no Gerenciamento dos Resíduos de Serviços de Saúde (GRSS) é minimizar os riscos inerentes ao gerenciamento de resíduos no País, no que diz respeito à saúde humana e animal, bem como na proteção ao meio ambiente e aos recursos naturais renováveis.

“Além disso, é de extrema importância que o profissional conheça toda a classificação dos Grupos de Resíduos, constantes do Anexo da RDC 222/18 a fim de melhor orientar a gestão de resíduos de sua empresa”, comenta a professora.

Ela diz ainda que, dependendo do segmento, a indústria farmacêutica poderá trabalhar com praticamente todas as classes e grupos de resíduos constantes da legislação atual. Poderá trabalhar com:

- RSS do Grupo A, relativo à cultura e estoque de microrganismos no Controle de Qualidade Microbiológico;

- RSS do Grupo B, referente aos produtos químicos, perigosos e inflamáveis, que são utilizados no Controle de Qualidade Físico-Químico;

- RSS do Grupo D, que são os menos perigosos, podendo ser equiparados aos resíduos domiciliares, como gorros, máscaras e luvas descartáveis; e

- RSS do grupo E, que são os materiais perfuro-cortantes, como seringas, agulhas e vidros quebrados em laboratórios.

Programa de Gerenciamento de Resíduos Químicos (PGRQ)

Três conceitos importantes devem ser considerados:

1- Gerenciar resíduos não é sinônimo de geração zero de resíduo, ou seja, o gerenciamento de resíduos busca, não só minimizar a quantidade gerada, mas também impõe um valor máximo na concentração de substâncias notadamente tóxicas no efluente final da unidade geradora, tendo como guia a Resolução CONAMA 20.

2 - Só se pode gerenciar aquilo que se conhece e, assim sendo, um inventário de todo o resíduo produzido na rotina da unidade geradora é indispensável.

3 - Deve existir responsabilidade objetiva na geração do resíduo, ou seja, o gerador do resíduo é o responsável pelo mesmo, cabendo a ele sua destinação final.

Além desses três importantes conceitos, que servem de sustentação para qualquer programa de gerenciamento de resíduos, a sua operacionalização envolve, pelo menos, outros três pontos básicos:

1 - compromisso explícito da Unidade Geradora (UG) em manter o PGRQ;

2 - inventário do passivo ambiental existente na unidade geradora; e

3 - inventário do ativo que é gerado na rotina da unidade geradora.

Oportunidade de atuação do farmacêutico

Mais uma excelente área em expansão para a atuação do profissional farmacêutico: “Com a evolução das atividades ligadas à sustentabilidade e ao meio ambiente, os conhecimentos no Gerenciamento de RSS e na elaboração de um Plano de Gerenciamento de RSS tornam-se fundamentais para atuação em serviços de saúde. É importante ressaltar que esta não é uma área de exclusiva atuação do profissional farmacêutico, mas devido aos seus sólidos conhecimentos em química e suas diversas possibilidades de especializações, esse profissional se torna o mais completo para atuar na gestão desses materiais”, defende Patrícia.

Protocolos

Segundo a professora, essa atividade contempla mais a elaboração de Procedimentos Operacionais Padrão (POPs) do que protocolos específicos. Um bom exemplo seria o Procedimento Operacional Padrão para descarte de material quebrado no Controle de Qualidade. Por exemplo, quando um técnico quebra uma proveta ou um bécher, qual seria o procedimento que ele deve adotar? Isso precisa estar descrito em um POP, baseado nas BPLs e no Plano de Gerenciamento de RSS.

O desenvolvimento tecnológico nas áreas de saúde significa grandes avanços, mas também pode gerar maiores riscos à saúde humana. Dessa forma, a regulamentação dessa relação entre inovação tecnológica e monitoração de seus riscos deve ser constantemente controlada pelos órgãos fiscalizadores. “O conhecimento na elaboração, monitorização e gestão de RSS é um assunto moderno e atual, que contribui na melhoria contínua a fim de garantir segurança, eficácia e qualidade nos respectivos segmentos”, finaliza Patrícia.

 

Publicado no Portal do ICTQ

FARMACOCINÉTICA CLÍNICA E FARMACODINÂMICA

POR EGLE LEONARDI

A farmacodinâmica é o estudo do mecanismo de ação dos fármacos em geral, enquanto que a farmacocinética avalia os efeitos que o corpo faz com o fármaco, dentre eles, os processos de absorção, distribuição, metabolismo e excreção.

Segundo o farmacêutico e professor do ICTQ – Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico, Alexandre Massao Sugawara, até mesmo a mais promissora das drogas fracassará em seus intuitos terapêuticos se não alcançar concentrações mínimas efetivas no órgão alvo para exercer seus efeitos terapêuticos.

Numerosos fatores podem impedir este intento. Tais fatores são organizados em basicamente quatro etapas farmacocinéticas: absorção, distribuição, metabolismo e excreção. A depender das características físico-químicas de cada fármaco e da forma como interage com estruturas corpóreas este trajeto será facilitado ou dificultado. “Por isso, esse conhecimento é fundamental para a compreensão dos fatores que levam um fármaco a ser efetivo ou não”, ressalta Sugawara.

De modo geral, as interações dinâmicas entre a absorção, a distribuição, o metabolismo e a excreção de um fármaco determinam a sua concentração plasmática e estabelecem a capacidade do fármaco de alcançar o seu órgão-alvo numa concentração efetiva. Variações individuais, como perfis farmacogenéticos diversos, condições patológicas, idade, interações medicamentosas, podem modificar os parâmetros farmacocinéticos e alterar a efetividade de um medicamento. “É fundamental reconhecer como estas diversas variáveis podem modificar o perfil farmacocinético e a farmacodinâmica de um medicamento. Intervir, quando necessário, garante a plena efetividade terapêutica dos medicamentos”, fala o professor.

A farmacocinética clínica é uma ferramenta importante para auxiliar no alcance da posologia ideal, além de possibilitar a compreensão da ocorrência de variações entre grupos. O principal objetivo é garantir que as doses administradas sigam dentro de uma margem terapêutica que se sabe que é eficaz e segura para aquele doente. Este processo é apoiado em princípios farmacocinéticos que promovem uma utilização mais racional do medicamento.

Absorção dos fármacos

Sugawara lembra que, para que um fármaco seja absorvido pelo corpo e possa se distribuir pelos líquidos corporais, é preciso transpor barreiras teciduais que são compostas, em última análise, por membranas celulares que apresentam natureza lipoproteica. Assim, um composto químico, para se difundir através dessas membranas, dependerá de suas propriedades físico-químicas de miscibilidade em um meio predominantemente oleoso.

O coeficiente de partição octanol/água (P) indica a tendência de um composto em se difundir em óleo ou água. O logaritmo deste coeficiente é o LogP. Se P = 1, LogP = 0, indicando que a molécula apresenta a mesma afinidade por óleo e pela água. LogP > 0, indica que a molécula é lipofílica e se LogP < 0 indica que o composto é hidrofílico. Valores muito baixos de LogP dificultam a permeação pelas membranas celulares, por outro lado, valores muito elevados podem manter as moléculas retidas na membrana, devido a sua alta lipossolubilidade. O valor ideal para fármacos fica entre 2 a 5.

“Por mais estranho que possa parecer, uma molécula precisa ter, como vimos, certa lipossolubilidade para atravessar as barreiras naturais do corpo humano e também apresentar certa hidrossolubilidade, afinal nosso corpo é 70% água e a distribuição pelos líquidos corporais exige do fármaco propriedades de miscibilidade com a água”, explica o professor.

Se, por um lado, necessita de caráter lipofílico para permeação através de membranas celulares, por outro lado, se faz necessário ser hidrofílico para se distribuir pelo plasma. A principal estratégia da química farmacêutica para que um fármaco tenha as duas propriedades é criar compostos ionizáveis a diferentes faixas de pH.

Fármacos ácidos fracos, como a aspirina, em um ambiente altamente ácido, como o suco gástrico, predominam em sua forma protonada, não ionizada, lipossolúvel, tendendo a atravessar membranas biológicas da parede do estômago com mais facilidade. Ao alcançar o ambiente mais alcalino do plasma, a aspirina é desprotonada, tornando-se ionizada, aumentando sua hidrossolubilidade e dissolução no plasma, evitando sua reabsorção retrógrada.

Equação de Henderson-Hasselbalch

Estas propriedades físico-químicas das moléculas podem ser expressas matematicamente em pKa, que representa o grau que um fármaco estará num dos lados da membrana. A Equação de Henderson-Hasselbalch descreve a relação entre a pKa de um fármaco ácido ou básico e o pH do meio biológico.

Screenshot_2.pngConsiderando o pH do estômago como 1,0 e um fármaco ácido fraco com pKa 6,0 temos:

Screenshot_3.pngComo se vê, um fármaco ácido fraco com pKa 6,0 em meio ácido estará numa razão de 100.000 para 1 em sua forma protonada, não ionizada, lipossolúvel.

Agora, quando este fármaco alcança o plasma com pH 7,4, as condições do meio mudam. Assumiremos um pH do plasma 7,0 para exemplificar:

Screenshot_4.png“Como se vê, um fármaco ácido fraco com pKa 6,0 em meio alcalino, como o plasma, estará numa razão de 1 para 10 em sua forma desprotonada, ionizada, hidrossolúvel”, afirma o professor.

Há, por certo, uma pequena quantidade de fármacos que não é planejada para se difundir através de membranas por simples difusão, mas utiliza-se de transportadores proteicos, e assim alcança o plasma. Os principais exemplos são fármacos peptídicos e aminoácidos que usam os mesmos transportadores utilizados pelos seus análogos nutricionais. Como exemplo, há a levodopa, um medicamento antiparkinsoniano.

Sugawara afirma que, atualmente estudam-se superfamílias de transportadores de membrana, como a ATP binding cassete (ABC), Solute Carrier (SLC) e Organic Solute Carrier (SLCO), encontradas nas mais diversas barreiras biológicas, como intestino, fígado, barreira hematoencefálica, placenta, glândulas mamárias e rins.

Por exemplo, o paracetamol é um substrato para a proteína transportadora ABCB1 e, ao mesmo tempo, um inibidor ABCB1, dificultando a absorção de fármacos transportados por esta família de transportadores. Uma fonte de consulta que o professor sugere é o DrugBank© (https://www.drugbank.ca), um banco de dados canadense de acesso livre sobre fármacos e medicamentos que dá informações neste sentido.

Há, ainda, a glicoproteína-P (P-gP) um transportador de efluxo presente em inúmeras membranas biológicas, como o intestino e a barreira hematoencefálica. Muitos autores indicam um papel de proteção da P-gP contra o acúmulo de xenobióticos no ambiente intracelular, eliminado esses compostos, por exemplo, na luz intestinal ou para fora do sistema nervoso central.

A cafeína é um inibidor da P-gP e seu uso concomitante com fármacos substratos da P-gP aumenta a concentração extra membrana desses compostos. “Características genéticas individuais para a expressão aumentada do P-gP podem explicar a não absorção de certos fármacos substratos da P-gP, como a digoxina”, lembra ele.

Vias de administração

A via de administração deve ser considerada na absorção do fármaco. Por exemplo, a insulina é uma molécula proteica e seria digerida antes de ser absorvida, portanto, sua via de administração é injetável. O professor destaca que a via parenteral é vantajosa devido a alcançar rapidamente picos plasmáticos em comparação com a via oral. Por outro lado, a via oral é de fácil aderência do paciente a esquemas terapêuticos e de baixo custo operacional. Há ainda as vias transdérmicas e inalatórias indicadas, sobretudo, para doenças que afetam a pele e o sistema respiratório, respectivamente, devido à baixa absorção sistêmica.

Um importante conceito que integra a absorção dos fármacos é a biodisponibilidade, que indica a fração absorvida do fármaco, resultado da via de administração, de propriedades físico-químicas do fármaco e de certos fatores presentes nos pacientes, como ocorre com os transportadores. É apresentada sob a fórmula:

Screenshot_5.pngNa circulação, os fármacos podem sofrer a interferência da ligação com proteínas plasmáticas, uma forte tendência de se ligar com a albumina, nossa principal proteína plasmática, o que diminui a sua concentração no órgão-alvo. Como o fármaco apresenta uma distribuição limitada, seu volume de distribuição é normalmente baixo.

“A coadministração de fármacos transportados por proteínas plasmáticas levaria a um aumento de sua fração livre de menor afinidade, predispondo a indesejáveis efeitos tóxicos. Entretanto, são poucas as demonstrações desses tipos de interações na prática clínica”, lembra Sugawara.

Reações de metabolização

Após a fase distributiva, começam a se impor a metabolização dos fármacos que, a partir de um pico plasmático, a curva de concentração plasmática pelo tempo começa a declinar. As reações de metabolização são classificadas em dois tipos: de oxidação/redução e as de conjugação/hidrólise.

As reações de oxidação/redução modificam a estrutura química de um fármaco por meio de oxidação ou redução. O sistema do citocromo P450 reúne estas famílias de enzimas no fígado.

As reações de conjugação/hidrólise hidrolisam ou conjugam o fármaco com uma molécula grande e polar para inativar aquela substância ou, mais comumente, para aumentar a sua solubilidade e excreção na urina ou na bile. Em certas ocasiões, a hidrólise ou a conjugação pode resultar em ativação metabólica de pró-fármacos. Os grupos mais comumente adicionados incluem glicuronato, sulfato, glutationa e acetato.

Os efeitos das reações de oxidação/redução e de conjugação/hidrólise sobre determinado fármaco também dependem da presença de outros fármacos tomados concomitantemente.

Certas classes, como os barbitúricos, são poderosos indutores de enzimas que medeiam reações de oxidação/redução. Outros fármacos são capazes de inibir essas enzimas. A compreensão dessas interações medicamentosas constitui um pré-requisito essencial para a dosagem apropriada de associações de fármacos.

“Atualmente, reconhece-se substratos, inibidores e indutores para cada subtipo de enzima da família do citocromo P450. Recomendo, mais uma vez, o DrugBank© (https://www.drugbank.ca), como fonte de informação e a Micromedez© acessada por meio do site www.psbe.ufrn.br”, sugere o professor.

Excreção

Após a fase de biotransformação, e mesmo em paralelo a ela, tem o início a excreção do fármaco, que pode ser modificada por fatores que mudam a filtração glomerular e a reabsorção e secreção tubular.

De acordo com o que Sugawara já afirmou, fatores que afetam a taxa de filtração glomerular (TFG) também são capazes de influenciar a taxa de depuração da droga. A inflamação dos capilares glomerulares aumenta a pressão hidrostática capilar e aumenta a filtração das drogas.

Como proteínas não são filtráveis pelo glomérulo, as drogas que exprimem certa afinidade com proteínas plasmáticas teriam suas taxas de filtração diminuídas. A faixa habitual de meias-vidas observada para a maioria das drogas exclusivamente depuradas por filtração glomerular é de uma a quatro horas. Entretanto, serão observadas meias-vidas consideravelmente mais longas, caso ocorra grande ligação a proteínas.

Após a filtração pelo glomérulo, é iniciado o processamento tubular do filtrado em dois processos: reabsorção e secreção tubular. A reabsorção de fármacos através dos túbulos depende do pH intraluminal. Como o pH do filtrado é ácido, isso favorece a reabsorção de fármacos ácidos de volta ao corpo e, pelo mesmo motivo, um fármaco básico seria facilmente excretado. Por exemplo, a alcalinização da urina é uma estratégia para sequestrar a aspirina e mantê-la no interior dos túbulos e, assim eliminá-la do corpo nos casos de overdose.

Transportadores

O professor explica, ainda, que alguns fármacos sofrem secreção direta para dentro dos túbulos renais, que podem conter mecanismos de transporte renal de ânions e cátions orgânicos. Os transportadores de ânions orgânicos permitem a secreção de muitos ânions orgânicos, entre eles os antibióticos (cefalosporinas e penicilinas), contrastes radiológicos, diuréticos (furosemida), analgésicos e seus metabólitos, conjugados ou não.

Este transporte pode ser tão eficiente que alguns ânions são quase removidos completamente durante a primeira passagem pelo rim. A probenecida e o lítio podem inibir o sistema de secreção tubular de ânions orgânicos e reter ou diminuir a excreção de fármacos que se utilizam destes mecanismos.

O sistema de transporte catiônico é responsável pela secreção de bases fracas que estão ionizados no pH plasmático, como, por exemplo, a cimetidina, a metadona, a morfina e a procainamida. A P-glicoproteína é uma bomba de efluxo que também secreta múltiplos cátions orgânicos. A digoxina é um exemplo de fármaco secretado pela Pgp no túbulo proximal renal e este transporte pode ser inibido pela quinidina, verapamil e ciclosporina A, indicando o mecanismo envolvido nesta importante interação medicamentosa.

Clearance

A depuração ou clearance de um fármaco é o parâmetro que integra todos os fenômenos farmacocinéticos da metabolização e excreção de um fármaco, e indica mais significativamente o tempo de ação dele em seus alvos moleculares, celulares e orgânicos.

Ao diminuir a concentração do fármaco ativo no sangue, o metabolismo e a excreção reduzem o tempo durante o qual um fármaco é capaz de atuar sobre um órgão alvo. A meia-vida de eliminação é definida como o tempo durante o qual a concentração do fármaco no plasma diminui para a metade de seu valor original. O conhecimento da meia-vida de eliminação permite calcular a frequência de doses necessária para manter a sua concentração plasmática dentro da faixa terapêutica.

Screenshot_6.png“Fatores que afetam o volume de distribuição de fármaco modificam seu tempo de meia-vida. A diminuição da massa muscular, comum no envelhecimento, minimiza o volume de distribuição e, consequentemente, a meia-vida do fármaco. Já a obesidade, aumenta o volume de distribuição e a meia-vida do fármaco”, comenta Sugawara.

Tipicamente, os esquemas posológicos ótimos mantêm a concentração plasmática do fármaco no estado de equilíbrio dinâmico dentro de sua janela terapêutica. Como o estado de equilíbrio dinâmico é alcançado quando a taxa de aporte do fármaco é igual à sua eliminação, a concentração no estado de equilíbrio dinâmico é afetada pela razão entre o produto de sua biodisponibilidade e dose administrada pelo intervalo entre doses e sua depuração. Este ponto é alcançado em cerca de quatro a cinco meias-vidas.

Screenshot_7.png“Por tudo isso, eu gostaria de enfatizar que é importante o farmacêutico ter pleno conhecimento prático sobre a farmacocinética clínica e farmacodinâmica. O farmacêutico deve exercer, de fato, seu papel social, atendendo à demanda de saúde da população. Não é mais concebível que um profissional de saúde, com tantas capacidades, permaneça subutilizado em farmácias, drogarias e hospitais. Façamos o seguinte, saia detrás do balcão da farmácia, levante-se de sua cadeira de escritório, vá ao encontro dessas necessidades e mostre a amplitude de suas competências”, finaliza o professor.

publicado no Portal do ICTQ

OS DIFERENTES MODELOS DE NEGÓCIO FARMACÊUTICO

OS DIFERENTES MODELOS DE NEGÓCIO FARMACÊUTICO

POR EGLE LEONARDI

Para um empreendedor montar sua empresa, seja ela uma farmácia independente ou uma grande rede, ele tem de entender, minimamente, sobre gestão e planejamento para poder desenhar um modelo de negócio...bem, pelo menos é o que pregam os conceitos clássicos de administração.

Daí, o empreendedor vai pesquisar o que é um modelo de negócio e depara logo com o quadro do Modelo Canvas ou a definição do livro Business Model Generation, do suíço Alex Osterwalder, que explica o modelo de negócio como a maneira como a empresa cria, entrega e captura valor.

Usando uma forma mais estruturada, esse autor cita nove pilares para a construção de um modelo de negócios:

1. Segmentos de clientes
2. Proposta de valor
3. Canais de distribuição
4. Relacionamento com clientes
5. Fontes de receita
6. Recursos principais
7. Atividades-chave
8. Parcerias principais
9. Estrutura de custo

Um dos maiores especialistas brasileiros em empreendedorismo e plano de negócios é José Dornelas, que também é autor de livros e professor de MBA na Fundação Instituto de Administração (FIA) e na Universidade de São Paulo (USP). Ele diz que o modelo de negócio é a explicação de como sua empresa funciona e cria valor. “Há muitas definições que buscam explicar o que significa o termo, mas a essência resume-se em buscar entender como a empresa fará dinheiro, qual será ou é seu modelo de receita e como as várias áreas e processos de negócio se relacionam para atingir o objetivo de fazer com que a empresa funcione, gerando valor aos clientes”.

De maneira geral, é isso mesmo, ou seja, é o posicionamento, foco e objetivo da empresa, é o perfil de clientes que se deseja atender, o mix de produtos e serviços oferecidos, o perfil dos seus colaboradores e sua missão, visão e valores.

Utilizando uma ferramenta ou não, cada farmácia ou rede acaba construindo um modelo e estabelecendo o seu perfil, que é único. O mercado farmacêutico pratica diferentes modelos de negócios. No entanto, o ICTQ elencou três modelos distintos que, supostamente, são usados por alguns players do varejo farmacêutico. Claro que há muitos outros, mas a proposta é que cada farmacêutico empreendedor faça uma reflexão, especificamente, sobre esses três: mercantilista, legalista e imaginário. Vamos a eles.

Mercantilista

Esse modelo pode ser descrito como o aplicado por empresas que seguem as leis do capital. Estão orientadas às demandas dos clientes, a qualquer custo. Muitos desses empresários buscam medidas provisórias e leis estaduais para atuar.

Grandes redes, especialmente a Pague Menos e a Araújo, costumam ter um posicionamento muito baseado na oferta de conveniência a um público específico e na venda de itens não ligados à saúde em suas farmácias, como material de limpeza, ração para cachorro, bijuterias, entre outros. O segmento de clientes e sua proposta de valor são bem claros.

Importante ressaltar que o objetivo desta reportagem não é imprimir um tom de recriminação sobre nenhum player do segmento e nenhum modelo de negócios que ele escolheu aplicar. Não há o certo ou o errado, se as empresas operarem na legalidade. Há apenas o adequado para cada uma, do ponto de vista do negócio.

Mas é claro que alguns farmacêuticos discordam disso: “Entendo que estes estabelecimentos fogem ao modelo de farmácia vigente no País (estabelecimento de saúde). Essa busca de lucro no curto prazo pode se transformar numa oportunidade para farmácias concorrentes se posicionarem de maneira a atender às necessidades primárias de determinada população, sendo este modelo mais sustentável no longo prazo”, falou o farmacêutico e consultor, Leonardo Doro Pires. Ele é professor do ICTQ e autor do livro Gestão Estratégica para Farmacêuticos.

Para ele, os estabelecimentos mercantilistas, principalmente os que não seguem a lei 13.021/2014, prestam um desserviço para a população. As barreiras regulatórias não existem por acaso, e infringi-las pode colocar o paciente em risco.

Legalista

No modelo de negócio legalista, a necessidade do cliente só é atendida se ela não ultrapassar o limite da regulação sanitária. Está orientada para um sistema de compliance que assegure o pleno funcionamento do negócio frente aos clientes e acionistas.

A grande maioria das redes tende a operar nesse conceito. Pode-se citar a Onofre, que passou por profunda reestruturação após a compra pela CVS; a DPSP (Drogarias Pacheco e São Paulo); e a RD (Raia e Drogasil), entre outras.

A segmentação de clientes, a proposta de valor, seus canais de distribuição e seu relacionamento com os clientes são bem transparentes e projetam imagem consistente. Aparentemente, esse é um modelo sustentável no longo prazo, ou seja, um modelo capitalista com foco em resultados, atendendo, porém, todo arcabouço legal do setor.

“Vejo este modelo com bons olhos. As empresas buscam, antes de tudo, a sustentabilidade financeira. A pressão dos acionistas força uma política comercial agressiva por parte destes players, o que gera mais competitividade no setor e, consequentemente, preços mais baixos. Num ambiente bem regulado, este modelo é extremamente benéfico para a população”, defende Pires.

Imaginário

O modelo de negócios imaginário, como o próprio nome já sugere, é aquele que só existe nos sonhos e no imaginário popular farmacêutico. É um modelo purista que seria o ideal como um estabelecimento de saúde, sem nenhum viés comercial.

Nesses locais não há produtos alheios à saúde, não há venda de conveniências e a presença integral de farmacêuticos em todos os atendimentos é a realidade. Aqui estão os estabelecimentos que defendem a lei de zoneamento (que não existe no Brasil).

Muitas farmácias europeias funcionam assim, guardadas as devidas proporções. No Brasil, podemos citar os consultórios farmacêuticos que funcionam em locais independentes das farmácias, pois são estabelecimentos regulamentados de saúde.

Para Pires, esse modelo parece utopia, mas já se aproxima daquele que foi nomeado como legalista (exceto pelo zoneamento - conceito que foi engolido pela prática do mercado).

“Algumas das grandes redes já prezam pela presença do farmacêutico em tempo integral e controle do mix de produtos oferecidos. Cabe ao farmacêutico se fazer presente em todos os atendimentos, e quando eu digo se fazer presente não estou falando em atender, mas criar processos de atendimento que permitam que os pacientes que demandem atenção farmacêutica afunilem para o atendimento do mesmo. Precisamos fazer a nossa parte!”, dispara Pires.

Categorização própria

De acordo com o presidente da Federação Brasileira das Redes Associativistas e Independentes de Farmácias (Febrafar), Edison Tamascia, na entidade é feita uma análise dos tipos de farmácias totalmente distinto do apontado pela reportagem. “Partimos do princípio que as lojas devem existir dentro da legislação, respeitando as leis sanitárias. Com base nisso, o Instituto Febrafar de Pesquisa (IFEPEC) realizou o Estudo do Mercado Farmacêutico e as Categorias de Farmácias, que buscou analisar o varejo farmacêutico nacional e categorizar os tipos de farmácias de acordo com o posicionamento estratégico, que proporciona uma visão mais ampla dos tipos de farmácias”.

O estudo citado oferece diretrizes para o posicionamento estratégico de suas categorias. Para isso foram definidas cinco categorias de farmácias e selecionadas estratégias de negócios que podem ser tomadas por elas, e que atendem ao requisito de replicação, para ver quais são as ideais de serem utilizadas ou não para cada categoria.

As categorias de farmácias estabelecidas no estudo da Febrafar são: Farmácias Independentes, Franquia/Licenciamento de Marca e Associativismo, Farmácias Populares, Grandes Redes e Redes Regionais. Cada uma delas tem sua característica específica.

Já o ICTQ publicou uma matéria exclusiva em seu Portal, de autoria de Egle Leonardi, intitulada Os modelos de negócios farmacêuticos em que abordava outra categorização de modelos de negócios: Farmácia de Rede, Farmácia de Manipulação, Franquia de Drogarias, Franquia de Farmácia Magistral, Associativismo de Farmácias e Drogarias, Farmácias Independentes e Farmácias On-line. 

Não importa o modelo que um empreendedor deseje adotar, o ideal é que ele tenha foco, que trabalhe na legalidade e que colha frutos para o empreendimento e seus colaboradores. Se o empresário conseguir agregar em seu modelo de negócios o melhor de cada um, característica ou perfil (independentemente do nome adotado pela instituição), ele terá sucesso.

Claro que muitos discordarão, como Pires, que vê o modelo legalista como o mais adequado, desde que o farmacêutico faça a sua parte.

“A estratégia do varejo farmacêutico é o da concorrência por ocupação de espaço, com o posicionamento físico de lojas no maior número de pontos possível. Cabe ao profissional farmacêutico e às entidades de classe transformar essa presença comercial na presença de um estabelecimento de atenção primária à saúde”, finaliza Pires.

 

Postado no Portal do ICTQ


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