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POR EGLE LEONARDI

O Brasil está entre os países que mais realiza cirurgia plástica no mundo, sendo considerado referência nesse tipo de procedimento. O paciente que procura a cirurgia plástica, seja ela reparadora ou estética, busca realização, autoestima, melhora da aparência, aceitação ou mesmo retomar a função de alguma parte do corpo.

Nesse contexto, o acompanhamento farmacoterapêutico realizado pelo profissional farmacêutico visa contribuir para um resultado seguro e garantir a satisfação e o bem-estar do paciente. Para isso, é importante que a equipe de saúde envolvida nesse processo tenha uma visão multidisciplinar, pois o paciente seguramente precisará de profissionais de áreas transversais e que somam o atendimento com foco nesses objetivos.

De acordo com a farmacêutica e mestra em Ciências Farmacêuticas, Rita Sampaio, o farmacêutico contribui dentro da equipe de saúde, desde a assistência farmacêutica, no acompanhamento dos medicamentos prescritos pelo médico, sugerindo o melhor horário posológico, orientando sobre possíveis interações medicamentosas que colocam em risco a saúde do paciente, reações adversas que poderão surgir durante o tratamento, entre outras funções que complementam o trabalho da equipe. “O farmacêutico colabora por transmitir ao paciente a segurança e a tranquilidade necessárias, ajuda a reduzir o risco de complicações e aumenta as chances de êxito da cirurgia plástica”.

Parceria é fundamental

Entretanto, o professor do ICTQ – Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico, Alexandre Massao Sugawara, comenta que a relação entre a equipe clínica, principalmente o cirurgião, deve ser profissional e harmoniosa, procurando estabelecer parceria nas ações de saúde em prol dos pacientes. “É evidente, atualmente, que o trabalho em equipes multidisciplinares é condição necessária e irrevogável no âmbito da saúde”, diz ele.

Vale lembrar que a relação do farmacêutico com o prescritor deve compreender a prescrição, o relacionamento colaborativo e humanitário, identificar o modelo de abordagem, coordenar consensos, facilitar a relação com o paciente e estabelecer corresponsabilidades.

Sendo assim, Rita Sampaio é quem desenha a melhor forma de fazer o acompanhamento farmacorterapêutico em pacientes no pós-operatório de cirurgias plásticas. Acompanhe:

1- No início da consulta – Os cuidados farmacêuticos com os pacientes pós-cirúrgicos vão além do acompanhamento farmacoterapêutico. Durante a consulta deve-se deixar claro que a colaboração dele é fundamental para o sucesso da cirurgia e, principalmente, para evitar complicações. O paciente tem uma importante participação nesse resultado, e contar com esse apoio é fundamental.

Aspectos como repouso, exercício físico, alimentação, higiene, entre outros fatores, são extremamente relevantes e devem fazer parte das orientações.  Nesse momento, é importante que os cuidadores estejam presentes e sintam-se parte desse processo.

2 – Fazer a anamnese – Outro ponto importante é levantar todas as informações acerca desse paciente, como hábitos, doenças coexistentes, uso de medicamentos e até mesmo identificar e orientar sobre possíveis riscos da automedicação. Em face disso, o farmacêutico pode solicitar os exames mais recentes, para assim poder ter uma ideia geral e segura do estado de saúde atual do paciente.

3 – Ressaltar as principais orientações sobre medicamentos – Inicialmente, é importante ressaltar que o farmacêutico tem um papel fundamental na adesão do paciente ao tratamento medicamentoso prescrito, pois é o profissional habilitado a orientar a população sobre o uso racional de medicamentos. No período pós-cirúrgico de cirurgia plástica é preciso assegurar que o tratamento será realizado com precisão, respeitando-se os horários e o tempo necessário até que se concluam as doses, e os sintomas e sinais desapareçam.

4 – Explicar as complicações – Algumas complicações, como a formação de seromas e fibrose são evitadas com o tratamento medicamentoso e procedimentos adequados. Exemplo disso é o uso de antimicrobiano após a cirurgia plástica, o qual deve ser tomado pelo tempo e horário determinados, evitando infecções ou resistência a esses princípios.

É preciso evitar o uso de fármacos como a warfarina, heparina, ácido acetilsalicílico (AAS), vitamina k e o fitoterápico Gingko Biloba. Todos, de alguma forma, podem comprometer a coagulação e circulação levando a sangramentos ou hematomas no local da cirurgia. O AAS, por exemplo, está presente em algumas marcas de analgésicos e deve ser tomado com cautela por pacientes com histórico de problemas como úlcera e gastrite.

O uso de anticoncepcional hormonal deve ser suspenso em cirurgias com anestesia peridural, raqui ou geral, já que esses medicamentos aumentam o risco de trombose e embolia pulmonar. Pacientes diabéticos apresentam dificuldade de cicatrização, portanto, devem manter a glicemia sob controle e não deixar de tomar seus medicamentos nos horários corretos, aferindo a glicemia com regularidade.

5 – Evitar a automedicação – É preciso orientar o paciente sobre os riscos da automedicação nos casos de dor, febre ou outros eventos que possam levar ao consumo indiscriminado de medicamentos. Isso evita intercorrências pós-operatórias. Casos de complicações pós-cirúrgicas, infecções, sangramentos anormais, dificuldade de cicatrização, formação de queloides, hipertrofia, hematomas e edemas são episódios que podem ser minorados com as orientações e cuidados farmacêuticos sobre o uso correto de medicamentos e procedimentos a serem seguidos.

6 – Orientar sobre dieta e exercícios físicos – Alguns fatores considerados de risco como obesidade, tabagismo e hipertensão podem levar a deficiências nutricionais e que podem ser corrigidos por meio da dieta monitorada por um nutricionista. Seguir a dieta prescrita por um profissional evita complicações e facilita a cicatrização no pós-operatório de cirurgia plástica. Por isso, há a importância da equipe multidisciplinar atuando. A falta de algumas vitaminas e oligoelementos, como as vitaminas A, B, C, ferro, cobre e zinco podem aumentar as chances de sangramentos e dificultar a cicatrização. Portanto, uma boa dieta é fundamental, tanto no pré como no pós-operatórios. Os exercícios físicos podem alargar as cicatrizes, pois forçam e tencionam a pele e só são liberados gradualmente de acordo com a recuperação do paciente. O farmacêutico auxilia o paciente a cumprir com as orientações do cirurgião bem como da equipe de saúde, corroborando para o êxito do procedimento.

7 – Alertar sobre as interações medicamentosas – As interações medicamentosas ocorrem quando os efeitos de um fármaco são comprometidos pela presença de outro fármaco, alimento, bebida ou algum agente químico ambiental, podendo ser tanto positivas (aumento da eficácia) quanto negativas (toxicidade, redução da eficácia ou idiossincrasia). Durante o acompanhamento farmacoterapêutico é importante considerar alguns aspectos que predispõem os pacientes a interações medicamentosas severas, como quantidade de medicamentos prescritos, esquema posológico, idade, tempo de tratamento e presença de doença renal ou hepática.

As interações podem ocorrer em qualquer fase da cirurgia plástica e o farmacêutico deve orientar o paciente a evitar o tabagismo, álcool e a automedicação para não comprometer a eficácia do procedimento e evitar complicações. Alguns grupos terapêuticos, como os antimicrobianos, anti-inflamatórios e analgésicos, estão entre os fármacos mais utilizados na recuperação pós-cirúrgica e podem interagir com outros medicamentos, como antidepressivos, ansiolíticos, anti-hipertensivos, antiácidos, medicamentos para tratamento de diabetes, entre outros. Nesse sentido, o farmacêutico pode ajustar o esquema posológico ou sugerir alterações de fármacos para otimizar o tratamento.

8 – Mostrar a importância no processo – No acompanhamento farmacêutico o foco é o bem-estar do paciente e a garantia do tratamento mais indicado, efetivo, seguro e conveniente. O atendimento ao paciente torna-se mais humanizado quando a equipe interdisciplinar está atuando em conjunto. O farmacêutico deve explicar ao paciente que a ausência do acompanhamento farmacêutico pode ignorar aspectos como a ocorrência de eventos adversos ou problemas de saúde relacionados aos medicamentos, buscando medidas preventivas e corretivas.

9 – Sucesso do trabalho – Esse modelo de trabalho, em que o farmacêutico atua de modo integrado à equipe multidisciplinar já é sucesso em vários países. Nos Estados Unidos, por exemplo, desde a década de 1960, a farmácia clínica já é realidade dentro do âmbito hospitalar. A resolução Nº 585, de 29 de agosto de 2013, que regulamenta as atribuições clínicas do farmacêutico, vem contribuindo, desde a sua publicação, com a expansão desse modelo em todos os níveis de atenção à saúde. Sendo assim, o acompanhamento farmacoterapêutico realizado de forma responsável e integrado, sem dúvida alguma, traz grandes chances de sucesso ao paciente, que recebe esses cuidados, bem como a família e a comunidade.

10 – Interação com a equipe médica – A atividade do farmacêutico complementa o trabalho do médico e de toda a equipe de saúde. Reconhecer a importância de cada profissional nesse processo de acompanhamento pós-cirúrgico traz benefícios ao paciente. O foco dos cuidados farmacêuticos é o indivíduo, seu bem-estar e a recuperação da sua saúde. Portanto, o trabalho conjunto e complementar deve ser considerado.

11 – Documentar sempre – O plano de cuidados farmacêuticos é muito amplo e deve ser documentado visando a otimizar o acompanhamento farmacoterapêutico e controlar a evolução do paciente. São muitas as possibilidades de intervenção e orientação clínica. Registrar o atendimento facilita a atuação de toda a equipe de saúde.

A matéria foi publicada no Portal de Notícias do ICTQ.

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